Discurso direto e indireto: como a banca cobra

Discurso direto e indireto: como a banca cobra
Luan Loureiro
Luan Loureiro Redação
Atualizado em 06/10 às 23h

Discurso direto e indireto: como a banca cobra na prova.

O Manual de Comunicação do Senado Federal manda trocar as aspas pelo discurso indireto sempre que a citação literal deixa a frase ambígua. É essa troca, e não a decoreba de nomes, que a banca cobra na prova de Língua Portuguesa.

Discurso direto é a fala reproduzida literalmente, marcada por travessão ou aspas e anunciada por um verbo de elocução. Discurso indireto é a mesma fala recontada pelo narrador, dentro de uma oração subordinada iniciada por que ou se. Discurso indireto livre mistura os dois, porque a voz da personagem invade a narração sem nenhuma marca gráfica.

Comparativo entre discurso direto, indireto e indireto livre para prova de concurso
Os três tipos de discurso e as marcas que identificam cada um.

Neste guia você encontra:

O que é discurso direto e indireto?

Discurso é o modo como um texto apresenta a fala de alguém. Quando o autor reproduz a fala palavra por palavra, temos o discurso direto. Quando ele resume ou recompõe essa fala com as próprias palavras, temos o discurso indireto. A escolha muda a pontuação, o tempo dos verbos, os pronomes e até os advérbios da frase, e é justamente aí que mora a pegadinha.

Esse conteúdo aparece em dois lugares da prova. No bloco de interpretação de texto a banca pergunta quem está falando e qual o efeito de sentido da escolha. No bloco de gramática ela pede a transposição de uma frase, e aí entram tempos e modos verbais e colocação pronominal na mesma questão.

Repare que o discurso é uma categoria textual, não uma classe gramatical. Por isso ele conversa com assuntos que parecem distantes, como coesão e coerência e funções da linguagem. Um texto jornalístico que abusa do discurso direto soa diferente de um que recorre só ao indireto, e o examinador adora cobrar essa diferença de tom.

Os três tipos de discurso na prova:

Discurso direto.

No discurso direto a fala vem reproduzida com exatidão, sempre acompanhada de um verbo de elocução e de uma marca gráfica, que pode ser o travessão ou as aspas. O narrador cede o microfone e some. Exemplo: O candidato respondeu: "Eu estudei três meses para esta prova." Observe que o verbo fica no presente ou no pretérito perfeito, conforme a fala original, e que o pronome é de primeira pessoa, porque quem fala é o próprio candidato.

Esse formato dá vivacidade ao texto e aproxima o leitor. Em prova de redação discursiva ele costuma ser desaconselhado, já que a norma pede impessoalidade. No texto literário, porém, é o recurso que cria a cena.

Discurso indireto.

No discurso indireto o narrador assume a fala e a encaixa em uma oração subordinada substantiva, normalmente introduzida por que, se ou por um pronome interrogativo. Exemplo: O candidato respondeu que tinha estudado três meses para aquela prova. O verbo recuou para o pretérito mais que perfeito composto, o pronome passou para a terceira pessoa e o demonstrativo mudou de esta para aquela.

É nesse ponto que a questão fica difícil, porque a transposição exige domínio de orações subordinadas e de correlação verbal ao mesmo tempo. Vale revisar também transitividade verbal, já que o verbo de elocução costuma pedir complemento.

Discurso indireto livre.

O discurso indireto livre é o mais cobrado em interpretação e o menos compreendido pelos candidatos. Nele a fala ou o pensamento da personagem aparece dentro da narração, em terceira pessoa, mas sem verbo de elocução e sem marca gráfica. Exemplo: O candidato olhou o relógio. Não dava mais tempo, precisava escolher uma alternativa e seguir. A segunda frase é pensamento da personagem contado pelo narrador.

O efeito é de fusão de vozes, e é exatamente esse o termo que as bancas usam nas alternativas. Quando a questão fala em subjetividade do narrador ou em ponto de vista da personagem, há grande chance de o gabarito apontar o indireto livre. Esse tipo de leitura fina se treina do mesmo jeito que figuras de linguagem, com texto na mão e grifo.

Como transformar discurso direto em indireto?

A transposição segue um conjunto fixo de trocas. Decorar a tabela abaixo resolve a maioria das questões objetivas, porque o examinador raramente foge desse padrão. Guarde a lógica: tudo recua no tempo e se afasta no espaço, já que a fala deixa de ser atual e passa a ser relatada.

Mudanças de tempo verbal.

No discurso diretoVira no discurso indiretoExemplo
Presente do indicativoPretérito imperfeito"Estudo todo dia" vira que estudava todo dia
Pretérito perfeitoPretérito mais que perfeito"Estudei muito" vira que estudara muito
Futuro do presenteFuturo do pretérito"Farei a prova" vira que faria a prova
ImperativoPresente ou imperfeito do subjuntivo"Estude agora" vira que estudasse naquele momento
Presente do subjuntivoImperfeito do subjuntivo"Talvez eu passe" vira que talvez passasse

Mudanças de pronome e de advérbio.

Junto com o verbo mudam os elementos que ancoram a fala no aqui e no agora. A primeira pessoa vira terceira, o possessivo acompanha, o demonstrativo este vira aquele, o advérbio aqui vira ali, hoje vira naquele dia e ontem vira no dia anterior. Quem erra essa parte costuma acertar o verbo e perder a questão no advérbio.

Por isso vale revisar pronomes de tratamento e a concordância verbal antes de treinar transposição. A mudança de pessoa arrasta a concordância inteira, e o enunciado só é considerado correto quando todo o período acompanha a troca.

Verbos de elocução e pontuação do discurso direto:

Verbos de elocução, também chamados de verbos dicendi, são os que anunciam a fala: dizer, responder, perguntar, afirmar, gritar, murmurar, retrucar. Eles carregam carga semântica e influenciam a interpretação. Afirmar não é o mesmo que insinuar, e a banca explora essa diferença em questões de denotação e conotação.

A pontuação do discurso direto obedece a três arranjos. Com dois pontos e travessão, a fala começa em linha nova. Com dois pontos e aspas, a fala segue na mesma linha. Com o verbo de elocução no meio ou no fim, a fala é isolada por vírgulas. Quem tem dúvida nesse ponto ganha muito revisando uso da vírgula e ponto e vírgula.

O Manual de Comunicação do Senado Federal reforça esse ponto ao recomendar o discurso indireto quando as aspas em palavras isoladas tornam o texto ambíguo ou pejorativo. Uma observação que vale ponto: no discurso indireto não existe travessão, não existem aspas e não existem dois pontos introduzindo a fala. Se a alternativa mantém qualquer uma dessas marcas depois de dizer que converteu para o indireto, ela está errada por pontuação, mesmo que o verbo esteja certo.

Como as bancas cobram discurso direto e indireto?

Três formatos se repetem. O primeiro pede a reescrita de um trecho em outro discurso e oferece cinco versões, das quais só uma preserva o sentido. O segundo apresenta um parágrafo narrativo e pergunta qual tipo de discurso predomina. O terceiro, mais sofisticado, pede o efeito de sentido obtido com a escolha, e aí o candidato precisa unir gramática e leitura.

Qualquer que seja o formato, a chave é a mesma: leia a frase original, identifique o verbo de elocução e confira item por item se tempo verbal, pessoa e advérbio recuaram. Provas que trabalham com crônica e texto literário tendem a cobrar o indireto livre em questão de interpretação, enquanto provas centradas em gramática cobram a transposição mecânica.

Questão adaptada no estilo das bancas:

A questão abaixo foi escrita por nossa equipe no estilo das bancas, para treino, e não reproduz item de prova real. Leia o período e marque a alternativa que faz a transposição correta para o discurso indireto.

Período: O servidor avisou aos colegas: "Hoje eu entrego o relatório aqui mesmo, antes das dezoito horas".

  • A) O servidor avisou aos colegas que hoje ele entrega o relatório aqui mesmo, antes das dezoito horas.
  • B) O servidor avisou aos colegas que naquele dia entregaria o relatório ali mesmo, antes das dezoito horas.
  • C) O servidor avisou aos colegas: que naquele dia ele entregaria o relatório ali mesmo.
  • D) O servidor avisou aos colegas que hoje entregaria o relatório ali mesmo, antes das dezoito horas.
  • E) O servidor avisou aos colegas que naquele dia entrega o relatório aqui mesmo, antes das dezoito horas.

Gabarito: alternativa B. A alternativa B é a única que faz as três trocas exigidas de uma vez. O presente entrego recua para o futuro do pretérito entregaria, porque a fala original projetava uma ação ainda não realizada. O advérbio hoje vira naquele dia e o advérbio aqui vira ali, já que o relato se afasta do momento e do lugar da fala.

As demais caem em erros clássicos. A alternativa A não converte nada, apenas acrescenta o que. A alternativa C mantém os dois pontos, incompatíveis com o discurso indireto, e ainda corta informação do período. A alternativa D converte o verbo mas esquece o advérbio hoje. A alternativa E faz o contrário, muda o advérbio e deixa o verbo no presente. Esse padrão de distratores se repete em quase toda prova, assim como acontece com paralelismo sintático.

Erros mais comuns na transposição de discurso.

  • Converter o verbo e esquecer o advérbio de tempo ou de lugar, deixando hoje e aqui no relato.
  • Manter as aspas, o travessão ou os dois pontos depois de anunciar a passagem ao discurso indireto.
  • Trocar o verbo de elocução por outro de sentido diferente, como substituir insinuou por afirmou, o que altera o sentido e invalida a reescrita.
  • Esquecer a mudança de pessoa e deixar o pronome de primeira pessoa no meio de uma narração em terceira.
  • Confundir discurso indireto livre com narração comum, porque falta a marca gráfica, e deixar de perceber que a frase expressa o pensamento da personagem.
  • Quebrar a concordância ao mudar a pessoa do verbo, erro que também aparece em concordância nominal.

Há ainda um deslize silencioso: usar o discurso direto em prova discursiva ou em peça de redação para concurso que exige linguagem formal. A Lei Complementar nº 95, de 1998 exige clareza, precisão e ordem lógica na redação de textos normativos, e a citação literal mal pontuada compromete as três.

Resumo rápido dos três discursos:

TipoMarca gráficaVerbo de elocuçãoPessoa
DiretoTravessão, aspas ou dois pontosSempre presentePrimeira pessoa da fala
IndiretoNenhumaPresente, com oração subordinadaTerceira pessoa
Indireto livreNenhumaAusenteTerceira pessoa, com voz da personagem
  • Fala literal com marca gráfica significa discurso direto.
  • Fala recontada com que ou se significa discurso indireto.
  • Pensamento da personagem dentro da narração, sem aviso, significa discurso indireto livre.
  • Na transposição, tudo recua no tempo e se afasta no espaço.
  • Pontuação errada derruba a alternativa mesmo com o verbo certo.

Se você quer um roteiro completo das matérias que mais pesam na prova, vale conferir o guia de Português para concurso e o panorama de ortografia oficial, dois temas que costumam aparecer na mesma prova que discurso.

Perguntas frequentes:

Qual é a diferença entre discurso direto e indireto?

O discurso direto reproduz a fala literalmente, com verbo de elocução e marca gráfica, como travessão ou aspas. O discurso indireto reconta a mesma fala pela voz do narrador, dentro de uma oração subordinada iniciada por que ou se, sem nenhuma marca gráfica.

O discurso indireto livre cai em concurso?

Cai, e com frequência, sobretudo em questões de interpretação de texto literário e de crônica. A banca costuma descrever o fenômeno como fusão de vozes ou invasão da subjetividade da personagem na narração, em vez de usar o nome técnico.

Como identificar o discurso indireto livre em um texto?

Procure trechos em terceira pessoa que expressam pensamento, emoção ou avaliação subjetiva sem verbo de elocução e sem marca gráfica. Se a frase parece narração, mas soa como se a personagem estivesse pensando em voz alta, trata-se de discurso indireto livre.

Que sinais de pontuação marcam o discurso direto?

Os três arranjos aceitos são dois pontos mais travessão, dois pontos mais aspas e isolamento do verbo de elocução por vírgulas quando ele vem no meio ou no fim da fala. No discurso indireto nenhuma dessas marcas é usada.

Treine transposição com quem corrige a sua resposta.

Entender a tabela é o primeiro passo, mas o que fixa a transposição é resolver questão atrás de questão e ver o erro apontado na hora. Nos cursos do Portal Concursos você estuda Língua Portuguesa com aulas ao vivo, banco de questões comentadas e suporte individualizado para tirar a dúvida que aparece no meio do exercício. Conheça o curso e confira o conteúdo de Português para a sua prova.

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