Vícios de linguagem: tipos, exemplos e como caem

Vícios de linguagem: tipos, exemplos e como caem
Luan Loureiro
Luan Loureiro Redação
Atualizado em 07/10 às 00h

Vícios de linguagem: tipos, exemplos e como caem na prova.

A Lei Complementar nº 95, de 1998, que define como as leis brasileiras devem ser escritas, manda construir as orações em ordem direta, evitando preciosismos, neologismo e adjetivações desnecessárias. No serviço público, vício de linguagem não é só feiura de estilo, é descumprimento de norma.

Vícios de linguagem são desvios que comprometem a clareza, a correção ou a elegância do texto. Os mais cobrados em concurso são pleonasmo, solecismo, barbarismo, cacofonia, eco, colisão, ambiguidade, estrangeirismo, arcaísmo, neologismo e preciosismos. A banca costuma dar uma frase e pedir que você nomeie o vício presente nela.

Quadro com os principais vícios de linguagem cobrados em concurso e exemplos
Os vícios de linguagem agrupados por tipo de problema.

Roteiro deste artigo:

O que são vícios de linguagem?

Vício de linguagem é todo desvio da norma culta que prejudica a comunicação, seja por erro gramatical, seja por efeito sonoro desagradável, seja por falta de clareza. A gramática tradicional os separa dos erros simples porque muitos deles não violam nenhuma regra explícita, apenas tornam o texto confuso, feio ou pedante.

O conceito interessa ao concurseiro por dois motivos. O primeiro é direto: há questão objetiva pedindo o nome do vício presente em uma frase. O segundo é indireto e vale mais pontos: a banca de redação para concurso desconta por redundância, obscuridade e prolixidade na planilha de correção, mesmo sem usar a palavra vício.

A Lei Complementar nº 95, de 1998, citada acima, é só a face legal de uma exigência mais ampla. O Manual de Redação da Presidência da República, em sua terceira edição, lista a clareza e a precisão como os primeiros atributos do texto oficial e define o texto conciso como aquele que transmite o máximo de informação com o mínimo de palavras, sem caracterizações supérfluas nem adjetivos inúteis. Essa é a régua que a correção usa, e ela conversa com coesão e coerência.

Os vícios de linguagem que mais caem:

Vícios de construção: solecismo e pleonasmo.

Solecismo é o erro de sintaxe, e aparece em três frentes: concordância, regência e colocação. Exemplo de solecismo de concordância: Fazem dois anos que estudo. Exemplo de regência: Assisti o filme ontem. Exemplo de colocação: Me empresta a caneta. Revisar concordância verbal, regência verbal e colocação pronominal resolve essa família inteira de uma vez.

Pleonasmo vicioso é a repetição desnecessária de uma ideia já contida na frase. Exemplo: Subir para cima. Outro exemplo campeão de prova: Há dois anos atrás. Cuidado, porque existe o pleonasmo literário, usado de propósito como recurso de ênfase, e esse não é vício.

Vícios sonoros: cacofonia, eco e colisão.

Cacofonia, também chamada de cacófato, é o som desagradável formado pelo encontro de duas palavras. Exemplo: Ela tinha fé demais. Outro: Vi por cada canto da sala. O problema só existe na leitura em voz alta, e por isso a banca costuma pedir que o candidato identifique o trecho em que o fenômeno ocorre.

Eco é a repetição de sons finais iguais em palavras próximas, como em A promoção da ação da nação causou comoção. Colisão é a repetição insistente de consoantes, como em O rato roeu a roupa do rei de Roma. Em redação oficial, os três comprometem a fluidez e são apontados como defeito.

Vícios de clareza: ambiguidade e obscuridade.

Ambiguidade, também chamada de anfibologia, é a frase que admite duas leituras. Exemplo: O delegado prendeu o suspeito em sua casa. Não se sabe de quem é a casa. Esse é o vício mais cobrado de todos, e vale a leitura do artigo dedicado a ambiguidade na prova para ver os seis gatilhos mais frequentes.

Obscuridade é a falta de clareza causada por frase longa demais, ordem invertida ou excesso de intercalações. Ela nasce quase sempre de pontuação mal distribuída, o que faz do uso da vírgula e do domínio das orações subordinadas o melhor antídoto.

Vícios de vocabulário: barbarismo, estrangeirismo e preciosismos.

Barbarismo é o erro na forma da palavra, e abrange grafia, pronúncia, flexão e significado. Exemplo de grafia: Escrever seje em vez de seja. Exemplo de flexão: Dizer reaver no passado como reavi, quando o correto é reouve. Revisar ortografia oficial e acentuação gráfica reduz muito esse risco.

Estrangeirismo é o uso de termo de outra língua quando existe equivalente em português. O material de língua portuguesa do Tribunal Regional Federal da 3ª Região recomenda preferir desempenho a performance e nos bastidores a backstage, e adverte que, em excesso, o estrangeirismo deixa o texto pretensioso e pedante. Preciosismos é o irmão nacional desse exagero, o rebuscamento que troca palavra simples por palavra difícil sem ganho nenhum de sentido.

Tabela de vício, definição e exemplo:

VícioO que éExemplo
Pleonasmo viciosoRepetição inútil de ideiaEntrar para dentro
SolecismoErro de sintaxeFazem dois anos que estudo
BarbarismoErro na forma da palavraRúbrica em vez de rubrica
CacofoniaSom desagradável entre palavrasEla tinha fé demais
EcoRima involuntária na prosaA ação da nação causou comoção
ColisãoRepetição de consoantesO rato roeu a roupa do rei
AmbiguidadeFrase com duas leiturasPrendeu o suspeito em sua casa
EstrangeirismoTermo importado sem necessidadeFazer o follow up da demanda
ArcaísmoPalavra fora de usoOutrossim, vossa mercê
PreciosismosRebuscamento sem funçãoHodiernamente em vez de hoje

Imprima essa tabela e leia em voz alta. Boa parte dos vícios sonoros só aparece quando o texto é falado, e esse é um treino que quase ninguém faz. Para completar a revisão de vocabulário, vale olhar polissemia e denotação e conotação, porque os três assuntos compartilham o mesmo tipo de distrator.

Vício de linguagem é a mesma coisa que figura de linguagem?

Não é, e essa confusão derruba muita gente. A diferença está na intenção e no efeito. Figura de linguagem é desvio proposital que acrescenta expressividade ao texto, como a metáfora ou a hipérbole. Vício de linguagem é desvio involuntário que atrapalha a comunicação.

O exemplo mais ilustrativo é o pleonasmo. Em vi com meus próprios olhos o autor reforça a ideia de propósito, e temos uma figura de ênfase. Em subir para cima não há reforço nenhum, só sobra, e temos vício. O mesmo raciocínio vale para o neologismo, criativo em um poema e inadequado em um ofício.

Na prova, o enunciado quase sempre entrega a pista. Se a questão fala em expressividade, intenção ou efeito estilístico, o caminho é figuras de linguagem. Se fala em impropriedade, inadequação, prejuízo à clareza ou norma culta, o caminho é vício. Essa leitura de comando é a mesma que você treina em interpretação de texto.

Como as bancas cobram vícios de linguagem?

Três formatos dominam. O primeiro apresenta cinco frases e pergunta em qual delas ocorre determinado vício. O segundo faz o inverso, dá uma frase e pede a classificação do desvio. O terceiro, mais trabalhoso, pede a reescrita do período de modo a eliminar o problema sem alterar o sentido.

Em prova discursiva o assunto reaparece disfarçado. O espelho de correção de bancas como a FGV costuma punir repetição vocabular, frase truncada e ambiguidade, itens que são vícios com outro nome. Quem entende isso ganha nos dois tipos de prova, como mostra o material sobre correção de redação e sobre paralelismo sintático.

Questão adaptada no estilo das bancas:

A questão abaixo foi escrita por nossa equipe no estilo das bancas, apenas para treino, e não reproduz item de prova real. Assinale a alternativa em que o vício de linguagem indicado entre parênteses está corretamente identificado.

  • A) O servidor reaveu os documentos no arquivo central. (ambiguidade).
  • B) A chefia solicitou o encaminhamento da documentação documentada. (cacofonia).
  • C) O gestor conversou com o analista em sua sala. (ambiguidade).
  • D) Hodiernamente, o postulante deve comparecer à repartição. (barbarismo).
  • E) A ação da administração gerou insatisfação na população. (pleonasmo).

Gabarito: alternativa C. A frase da alternativa C não deixa claro de quem é a sala, se do gestor ou do analista, e esse duplo sentido caracteriza ambiguidade, também chamada de anfibologia. A correção pede reescrita, como em o gestor conversou na própria sala com o analista.

As demais trazem o vício certo com o nome errado. Em A há barbarismo de flexão, porque o passado de reaver é reouve. Em B há pleonasmo, já que documentação documentada repete a mesma ideia. Em D há preciosismos, pelo rebuscamento de hodiernamente e postulante. Em E há eco, pela sequência de terminações iguais em ação, administração, insatisfação e população. Trocar o nome do vício é o distrator preferido das bancas, e por isso vale memorizar a tabela antes de resolver bateria de questões.

Erros mais comuns na hora de classificar.

  • Chamar de ambiguidade qualquer frase confusa, quando frase longa e mal pontuada é obscuridade.
  • Classificar como barbarismo um erro de sintaxe, quando erro de concordância, regência ou colocação é solecismo.
  • Tratar todo pleonasmo como vício, esquecendo que a repetição proposital com valor expressivo é figura de ênfase.
  • Confundir eco com colisão, sendo que eco repete terminações e colisão repete consoantes.
  • Considerar todo estrangeirismo um defeito, quando termos já consagrados pelo uso são aceitos pela norma.
  • Marcar neologismo em palavra apenas difícil, quando neologismo é palavra nova e dificuldade de vocabulário é preciosismos.

Um atalho honesto para a prova: antes de escolher a alternativa, pergunte se o problema está no som, na estrutura ou no sentido. Som leva a cacofonia, eco ou colisão. Estrutura leva a solecismo ou pleonasmo. Sentido leva a ambiguidade, obscuridade ou impropriedade vocabular. Essa triagem em três etapas acerta a maioria dos itens, do mesmo jeito que o roteiro apresentado no guia de Português para concurso.

Resumo para a véspera da prova:

  • Vício é desvio involuntário que atrapalha, figura é desvio proposital que enriquece.
  • Solecismo é erro de sintaxe, barbarismo é erro na forma da palavra.
  • Pleonasmo vicioso repete ideia, pleonasmo literário reforça ideia.
  • Cacofonia nasce do encontro de palavras, eco nasce da rima na prosa, colisão nasce da repetição de consoantes.
  • Ambiguidade admite duas leituras, obscuridade não admite nenhuma leitura fácil.
  • Preciosismos troca palavra simples por difícil, arcaísmo usa palavra fora de uso.
  • Na dúvida, classifique o problema como sonoro, estrutural ou de sentido antes de nomear o vício.

Vale ainda um exercício que rende: pegue um texto próprio de duas semanas atrás e grife tudo que repete, tudo que soa estranho em voz alta e tudo que admite duas leituras. É o mesmo olhar que você usa em questões de grafia e acento diferencial, só que aplicado ao texto inteiro.

Perguntas frequentes:

Quais são os principais vícios de linguagem?

Os mais cobrados em concurso são pleonasmo vicioso, solecismo, barbarismo, cacofonia, eco, colisão, ambiguidade, obscuridade, estrangeirismo, arcaísmo, neologismo e preciosismos. Juntos, eles cobrem praticamente todas as questões objetivas do tema.

Qual a diferença entre vício e figura de linguagem?

A figura de linguagem é um desvio intencional que acrescenta expressividade ao texto, como a metáfora. O vício é um desvio involuntário que prejudica a clareza, a correção ou a sonoridade. A mesma construção pode ser figura em um contexto e vício em outro, como ocorre com o pleonasmo.

Pleonasmo é sempre erro?

Não é. O pleonasmo vicioso, como subir para cima, é erro porque repete sem função. O pleonasmo literário, como vi com meus próprios olhos, é figura de ênfase e aparece em textos consagrados. O enunciado da questão indica qual dos dois está em jogo.

Estrangeirismo pode ser usado em redação oficial?

Só quando é indispensável ou já está consagrado pelo uso, sem tradução perfeita em português. O material de língua portuguesa do Tribunal Regional Federal da 3ª Região recomenda preferir o equivalente nacional e alerta que o excesso torna o texto pretensioso.

Escreva limpo e marque a alternativa certa.

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