Vícios de linguagem: tipos, exemplos e como caem na prova.
A Lei Complementar nº 95, de 1998, que define como as leis brasileiras devem ser escritas, manda construir as orações em ordem direta, evitando preciosismos, neologismo e adjetivações desnecessárias. No serviço público, vício de linguagem não é só feiura de estilo, é descumprimento de norma.
Vícios de linguagem são desvios que comprometem a clareza, a correção ou a elegância do texto. Os mais cobrados em concurso são pleonasmo, solecismo, barbarismo, cacofonia, eco, colisão, ambiguidade, estrangeirismo, arcaísmo, neologismo e preciosismos. A banca costuma dar uma frase e pedir que você nomeie o vício presente nela.

Roteiro deste artigo:
- O que são vícios de linguagem.
- Os vícios que mais caem, por família.
- Tabela de vício, definição e exemplo.
- Vício de linguagem e figura de linguagem.
- Como as bancas cobram o assunto.
- Erros mais comuns ao classificar.
- Resumo para a véspera da prova.
- Perguntas frequentes.
O que são vícios de linguagem?
Vício de linguagem é todo desvio da norma culta que prejudica a comunicação, seja por erro gramatical, seja por efeito sonoro desagradável, seja por falta de clareza. A gramática tradicional os separa dos erros simples porque muitos deles não violam nenhuma regra explícita, apenas tornam o texto confuso, feio ou pedante.
O conceito interessa ao concurseiro por dois motivos. O primeiro é direto: há questão objetiva pedindo o nome do vício presente em uma frase. O segundo é indireto e vale mais pontos: a banca de redação para concurso desconta por redundância, obscuridade e prolixidade na planilha de correção, mesmo sem usar a palavra vício.
A Lei Complementar nº 95, de 1998, citada acima, é só a face legal de uma exigência mais ampla. O Manual de Redação da Presidência da República, em sua terceira edição, lista a clareza e a precisão como os primeiros atributos do texto oficial e define o texto conciso como aquele que transmite o máximo de informação com o mínimo de palavras, sem caracterizações supérfluas nem adjetivos inúteis. Essa é a régua que a correção usa, e ela conversa com coesão e coerência.
Os vícios de linguagem que mais caem:
Vícios de construção: solecismo e pleonasmo.
Solecismo é o erro de sintaxe, e aparece em três frentes: concordância, regência e colocação. Exemplo de solecismo de concordância: Fazem dois anos que estudo. Exemplo de regência: Assisti o filme ontem. Exemplo de colocação: Me empresta a caneta. Revisar concordância verbal, regência verbal e colocação pronominal resolve essa família inteira de uma vez.
Pleonasmo vicioso é a repetição desnecessária de uma ideia já contida na frase. Exemplo: Subir para cima. Outro exemplo campeão de prova: Há dois anos atrás. Cuidado, porque existe o pleonasmo literário, usado de propósito como recurso de ênfase, e esse não é vício.
Vícios sonoros: cacofonia, eco e colisão.
Cacofonia, também chamada de cacófato, é o som desagradável formado pelo encontro de duas palavras. Exemplo: Ela tinha fé demais. Outro: Vi por cada canto da sala. O problema só existe na leitura em voz alta, e por isso a banca costuma pedir que o candidato identifique o trecho em que o fenômeno ocorre.
Eco é a repetição de sons finais iguais em palavras próximas, como em A promoção da ação da nação causou comoção. Colisão é a repetição insistente de consoantes, como em O rato roeu a roupa do rei de Roma. Em redação oficial, os três comprometem a fluidez e são apontados como defeito.
Vícios de clareza: ambiguidade e obscuridade.
Ambiguidade, também chamada de anfibologia, é a frase que admite duas leituras. Exemplo: O delegado prendeu o suspeito em sua casa. Não se sabe de quem é a casa. Esse é o vício mais cobrado de todos, e vale a leitura do artigo dedicado a ambiguidade na prova para ver os seis gatilhos mais frequentes.
Obscuridade é a falta de clareza causada por frase longa demais, ordem invertida ou excesso de intercalações. Ela nasce quase sempre de pontuação mal distribuída, o que faz do uso da vírgula e do domínio das orações subordinadas o melhor antídoto.
Vícios de vocabulário: barbarismo, estrangeirismo e preciosismos.
Barbarismo é o erro na forma da palavra, e abrange grafia, pronúncia, flexão e significado. Exemplo de grafia: Escrever seje em vez de seja. Exemplo de flexão: Dizer reaver no passado como reavi, quando o correto é reouve. Revisar ortografia oficial e acentuação gráfica reduz muito esse risco.
Estrangeirismo é o uso de termo de outra língua quando existe equivalente em português. O material de língua portuguesa do Tribunal Regional Federal da 3ª Região recomenda preferir desempenho a performance e nos bastidores a backstage, e adverte que, em excesso, o estrangeirismo deixa o texto pretensioso e pedante. Preciosismos é o irmão nacional desse exagero, o rebuscamento que troca palavra simples por palavra difícil sem ganho nenhum de sentido.
Tabela de vício, definição e exemplo:
| Vício | O que é | Exemplo |
|---|---|---|
| Pleonasmo vicioso | Repetição inútil de ideia | Entrar para dentro |
| Solecismo | Erro de sintaxe | Fazem dois anos que estudo |
| Barbarismo | Erro na forma da palavra | Rúbrica em vez de rubrica |
| Cacofonia | Som desagradável entre palavras | Ela tinha fé demais |
| Eco | Rima involuntária na prosa | A ação da nação causou comoção |
| Colisão | Repetição de consoantes | O rato roeu a roupa do rei |
| Ambiguidade | Frase com duas leituras | Prendeu o suspeito em sua casa |
| Estrangeirismo | Termo importado sem necessidade | Fazer o follow up da demanda |
| Arcaísmo | Palavra fora de uso | Outrossim, vossa mercê |
| Preciosismos | Rebuscamento sem função | Hodiernamente em vez de hoje |
Imprima essa tabela e leia em voz alta. Boa parte dos vícios sonoros só aparece quando o texto é falado, e esse é um treino que quase ninguém faz. Para completar a revisão de vocabulário, vale olhar polissemia e denotação e conotação, porque os três assuntos compartilham o mesmo tipo de distrator.
Vício de linguagem é a mesma coisa que figura de linguagem?
Não é, e essa confusão derruba muita gente. A diferença está na intenção e no efeito. Figura de linguagem é desvio proposital que acrescenta expressividade ao texto, como a metáfora ou a hipérbole. Vício de linguagem é desvio involuntário que atrapalha a comunicação.
O exemplo mais ilustrativo é o pleonasmo. Em vi com meus próprios olhos o autor reforça a ideia de propósito, e temos uma figura de ênfase. Em subir para cima não há reforço nenhum, só sobra, e temos vício. O mesmo raciocínio vale para o neologismo, criativo em um poema e inadequado em um ofício.
Na prova, o enunciado quase sempre entrega a pista. Se a questão fala em expressividade, intenção ou efeito estilístico, o caminho é figuras de linguagem. Se fala em impropriedade, inadequação, prejuízo à clareza ou norma culta, o caminho é vício. Essa leitura de comando é a mesma que você treina em interpretação de texto.
Como as bancas cobram vícios de linguagem?
Três formatos dominam. O primeiro apresenta cinco frases e pergunta em qual delas ocorre determinado vício. O segundo faz o inverso, dá uma frase e pede a classificação do desvio. O terceiro, mais trabalhoso, pede a reescrita do período de modo a eliminar o problema sem alterar o sentido.
Em prova discursiva o assunto reaparece disfarçado. O espelho de correção de bancas como a FGV costuma punir repetição vocabular, frase truncada e ambiguidade, itens que são vícios com outro nome. Quem entende isso ganha nos dois tipos de prova, como mostra o material sobre correção de redação e sobre paralelismo sintático.
Questão adaptada no estilo das bancas:
A questão abaixo foi escrita por nossa equipe no estilo das bancas, apenas para treino, e não reproduz item de prova real. Assinale a alternativa em que o vício de linguagem indicado entre parênteses está corretamente identificado.
- A) O servidor reaveu os documentos no arquivo central. (ambiguidade).
- B) A chefia solicitou o encaminhamento da documentação documentada. (cacofonia).
- C) O gestor conversou com o analista em sua sala. (ambiguidade).
- D) Hodiernamente, o postulante deve comparecer à repartição. (barbarismo).
- E) A ação da administração gerou insatisfação na população. (pleonasmo).
Gabarito: alternativa C. A frase da alternativa C não deixa claro de quem é a sala, se do gestor ou do analista, e esse duplo sentido caracteriza ambiguidade, também chamada de anfibologia. A correção pede reescrita, como em o gestor conversou na própria sala com o analista.
As demais trazem o vício certo com o nome errado. Em A há barbarismo de flexão, porque o passado de reaver é reouve. Em B há pleonasmo, já que documentação documentada repete a mesma ideia. Em D há preciosismos, pelo rebuscamento de hodiernamente e postulante. Em E há eco, pela sequência de terminações iguais em ação, administração, insatisfação e população. Trocar o nome do vício é o distrator preferido das bancas, e por isso vale memorizar a tabela antes de resolver bateria de questões.
Erros mais comuns na hora de classificar.
- Chamar de ambiguidade qualquer frase confusa, quando frase longa e mal pontuada é obscuridade.
- Classificar como barbarismo um erro de sintaxe, quando erro de concordância, regência ou colocação é solecismo.
- Tratar todo pleonasmo como vício, esquecendo que a repetição proposital com valor expressivo é figura de ênfase.
- Confundir eco com colisão, sendo que eco repete terminações e colisão repete consoantes.
- Considerar todo estrangeirismo um defeito, quando termos já consagrados pelo uso são aceitos pela norma.
- Marcar neologismo em palavra apenas difícil, quando neologismo é palavra nova e dificuldade de vocabulário é preciosismos.
Um atalho honesto para a prova: antes de escolher a alternativa, pergunte se o problema está no som, na estrutura ou no sentido. Som leva a cacofonia, eco ou colisão. Estrutura leva a solecismo ou pleonasmo. Sentido leva a ambiguidade, obscuridade ou impropriedade vocabular. Essa triagem em três etapas acerta a maioria dos itens, do mesmo jeito que o roteiro apresentado no guia de Português para concurso.
Resumo para a véspera da prova:
- Vício é desvio involuntário que atrapalha, figura é desvio proposital que enriquece.
- Solecismo é erro de sintaxe, barbarismo é erro na forma da palavra.
- Pleonasmo vicioso repete ideia, pleonasmo literário reforça ideia.
- Cacofonia nasce do encontro de palavras, eco nasce da rima na prosa, colisão nasce da repetição de consoantes.
- Ambiguidade admite duas leituras, obscuridade não admite nenhuma leitura fácil.
- Preciosismos troca palavra simples por difícil, arcaísmo usa palavra fora de uso.
- Na dúvida, classifique o problema como sonoro, estrutural ou de sentido antes de nomear o vício.
Vale ainda um exercício que rende: pegue um texto próprio de duas semanas atrás e grife tudo que repete, tudo que soa estranho em voz alta e tudo que admite duas leituras. É o mesmo olhar que você usa em questões de grafia e acento diferencial, só que aplicado ao texto inteiro.
Perguntas frequentes:
Quais são os principais vícios de linguagem?
Os mais cobrados em concurso são pleonasmo vicioso, solecismo, barbarismo, cacofonia, eco, colisão, ambiguidade, obscuridade, estrangeirismo, arcaísmo, neologismo e preciosismos. Juntos, eles cobrem praticamente todas as questões objetivas do tema.
Qual a diferença entre vício e figura de linguagem?
A figura de linguagem é um desvio intencional que acrescenta expressividade ao texto, como a metáfora. O vício é um desvio involuntário que prejudica a clareza, a correção ou a sonoridade. A mesma construção pode ser figura em um contexto e vício em outro, como ocorre com o pleonasmo.
Pleonasmo é sempre erro?
Não é. O pleonasmo vicioso, como subir para cima, é erro porque repete sem função. O pleonasmo literário, como vi com meus próprios olhos, é figura de ênfase e aparece em textos consagrados. O enunciado da questão indica qual dos dois está em jogo.
Estrangeirismo pode ser usado em redação oficial?
Só quando é indispensável ou já está consagrado pelo uso, sem tradução perfeita em português. O material de língua portuguesa do Tribunal Regional Federal da 3ª Região recomenda preferir o equivalente nacional e alerta que o excesso torna o texto pretensioso.
Escreva limpo e marque a alternativa certa.
Reconhecer vício de linguagem exige repertório, e repertório se constrói com leitura orientada e muita questão resolvida. Nos cursos do Portal Concursos você revisa Língua Portuguesa com aulas ao vivo, banco de questões comentadas e correção de redação com devolutiva individual. Conheça o curso e confira o conteúdo montado para o concurso que você escolheu.