Medicina legal para concurso: o que mais cai?

Medicina legal para concurso: o que mais cai?
Agente de Artigos Redação
Atualizado em 28/09 às 17h

A esganadura é sempre homicídio, porque ninguém consegue manter as próprias mãos apertando o pescoço depois de perder a consciência. Uma frase, uma alternativa inteira resolvida.

Medicina legal é a aplicação de conhecimentos médicos e biológicos às questões do direito. Nos editais de carreiras policiais, ela costuma ser cobrada em seis blocos: tanatologia, traumatologia, asfixiologia, antropologia, sexologia e toxicologia forense, somados às regras do exame de corpo de delito previstas no Código de Processo Penal.

Infográfico com as divisões da medicina legal cobradas em concurso policial
Os blocos de medicina legal que aparecem nos editais policiais.

Neste guia você encontra:

O que é medicina legal?

Medicina legal é a disciplina que coloca o saber médico a serviço da aplicação do direito. Ela não trata pacientes. Ela examina pessoas, cadáveres, vestígios e documentos para responder a perguntas que o processo precisa responder: houve lesão, qual a sua gravidade, quando a morte ocorreu, qual foi a causa, houve conjunção carnal, aquele corpo é de quem se supõe.

Quem executa esse trabalho no Brasil são os peritos oficiais de natureza criminal. A Lei 12.030 de 2009 assegura a eles autonomia técnica, científica e funcional, e agrupa nessa categoria os peritos criminais, os médicos-legistas e os odontolegistas. É uma informação curta e que aparece com frequência em prova de perito criminal nos estados.

Uma distinção inicial evita confusão ao longo do estudo. Medicina legal trabalha sobre o corpo humano e sobre os efeitos biológicos do fato. Criminalística trabalha sobre os vestígios materiais do ambiente, como impressões, projéteis e manchas. Elas se tocam o tempo todo, mas o objeto de cada uma é distinto, e a banca cobra essa fronteira.

As divisões da medicina legal:

Divisão

Objeto de estudo

Exemplo de tema cobrado

Tanatologia forense

A morte e os fenômenos cadavéricos

Rigidez, livores e estimativa do tempo de morte

Traumatologia forense

As lesões e as energias que as produzem

Classificação das lesões do artigo 129 do Código Penal

Asfixiologia forense

As mortes por supressão da respiração

Enforcamento, estrangulamento e esganadura

Antropologia forense

Identidade e identificação humana

Papiloscopia e requisitos do processo de identificação

Sexologia forense

Conduta sexual e seus vestígios

Conjunção carnal e outros atos libidinosos

Toxicologia forense

Substâncias tóxicas e seus efeitos

Venenos, drogas e exames toxicológicos

Psiquiatria forense

Transtornos mentais e imputabilidade

Incidente de insanidade mental

Nem todo edital cobra as sete divisões com o mesmo peso. Provas de delegado costumam aprofundar traumatologia e tanatologia, enquanto editais de escrivão e de agente tendem a ficar nos conceitos gerais. Vale conferir o conteúdo programático antes de decidir o tempo de estudo, e o panorama sobre o que estudar para a Polícia Civil ajuda nessa calibragem.

Tanatologia forense e os fenômenos cadavéricos.

A tanatologia estuda a morte e o que acontece com o corpo depois dela. O conteúdo se organiza em fenômenos abióticos, que são os sinais da cessação da vida, e fenômenos transformativos, que alteram a estrutura do cadáver.

Fenômeno

Grupo

O que caracteriza

Esfriamento

Abiótico consecutivo

Queda progressiva da temperatura corporal

Livores cadavéricos

Abiótico consecutivo

Manchas roxas nas regiões de declive, por acúmulo de sangue

Rigidez cadavérica

Abiótico consecutivo

Enrijecimento muscular progressivo e depois regressivo

Espasmo cadavérico

Abiótico consecutivo

Rigidez instantânea que conserva a última posição em vida

Autólise

Transformativo destrutivo

Destruição celular por enzimas do próprio corpo

Putrefação

Transformativo destrutivo

Decomposição por ação bacteriana, em quatro períodos

Mumificação

Transformativo conservador

Desidratação rápida em ambiente seco e ventilado

Saponificação

Transformativo conservador

Formação de adipocera em ambiente úmido e pouco arejado

A estimativa do tempo decorrido desde a morte recebe o nome de cronotanatognose. Ela combina temperatura, livores, rigidez e estágio de putrefação, e nenhum desses elementos isoladamente fecha um diagnóstico. Quando a banca apresenta um único sinal e conclui uma hora exata de óbito, o item costuma estar errado.

Traumatologia forense e a classificação das lesões.

A traumatologia estuda as lesões e as energias que as provocam. A classificação mais cobrada separa essas energias em mecânicas, físicas, químicas, bioquímicas, biodinâmicas e mistas. Dentro das mecânicas ficam os instrumentos perfurantes, cortantes, contundentes e suas combinações.

Na interface com o direito penal, o que decide a questão é o artigo 129 do Código Penal. Ele gradua a lesão pelo resultado, e a palavra permanente funciona como divisor entre grave e gravíssima.

Espécie

Dispositivo

Resultados que a caracterizam

Leve

Artigo 129, caput

Ofensa à integridade corporal ou à saúde sem os resultados dos parágrafos

Grave

Artigo 129, parágrafo 1º

Incapacidade por mais de 30 dias, perigo de vida, debilidade permanente, aceleração de parto

Gravíssima

Artigo 129, parágrafo 2º

Incapacidade permanente para o trabalho, enfermidade incurável, perda de membro, deformidade permanente, aborto

Seguida de morte

Artigo 129, parágrafo 3º

Morte não desejada pelo agente, resultante da lesão

Repare em duas armadilhas clássicas. Debilidade permanente é grave, perda ou inutilização é gravíssima: a diferença está entre enfraquecer e suprimir a função. E aceleração de parto é grave, enquanto aborto é gravíssimo. O texto compilado do Código Penal merece leitura direta neste artigo, porque a prova costuma reproduzir os incisos quase literalmente.

Asfixiologia: o bloco que mais derruba candidato.

Modalidade

Mecanismo

Detalhe decisivo

Enforcamento

Constrição do pescoço pelo próprio peso do corpo

Sulco oblíquo, ascendente e interrompido

Estrangulamento

Constrição por laço com força estranha ao peso do corpo

Sulco horizontal, contínuo e em geral mais baixo

Esganadura

Constrição pelas mãos, braços ou joelhos do agressor

É sempre homicídio

Sufocação

Obstrução das vias aéreas ou impedimento dos movimentos

Pode ser direta ou indireta

Afogamento

Penetração de líquido nas vias respiratórias

Cogumelo de espuma é sinal externo típico

Soterramento

Obstrução por material sólido pulverulento

Comum em desabamentos e deslizamentos

Confinamento

Permanência em ambiente fechado com ar viciado

Diminuição progressiva do oxigênio disponível

A linha da esganadura é a mais cobrada de toda a medicina legal, e a justificativa é lógica antes de ser médica. Como a constrição depende de força muscular ativa, a perda de consciência interrompe o ato. Logo, não existe esganadura suicida nem acidental.

Antropologia forense e identificação.

Aqui entra uma distinção que a banca adora. Identidade é o conjunto de caracteres que individualiza uma pessoa. Identificação é o processo técnico pelo qual se determina essa identidade. São conceitos diferentes, e trocá-los transforma a alternativa em errada.

Para que um processo de identificação seja considerado válido, a doutrina exige requisitos que costumam aparecer em lista: unicidade, imutabilidade, perenidade, praticabilidade e classificabilidade. A papiloscopia atende a todos eles, e por isso a datiloscopia se consolidou como método padrão, tendo o sistema de Vucetich como base histórica no Brasil.

Estimativas de sexo, idade, estatura e ancestralidade a partir do esqueleto também compõem o bloco. A bacia e o crânio concentram os caracteres mais usados para sexo, e a análise de ossificação e de dentição orienta a estimativa de idade. Esse conteúdo se comunica com a investigação social apenas no plano da rotina policial, não no plano jurídico.

O exame de corpo de delito no Código de Processo Penal.

As regras processuais fecham o tema e são o ponto de contato com processo penal. O artigo 158 determina que, quando a infração deixar vestígios, será indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, e que a confissão do acusado não pode supri-lo. Essa é a redação que mais cai.

O artigo 167 traz a válvula de escape: desaparecidos os vestígios, a prova testemunhal poderá suprir a falta do exame. O artigo 159 exige perito oficial portador de diploma de curso superior e disciplina a hipótese de perícia por duas pessoas idôneas na ausência de perito oficial. A Lei 13.964 de 2019 acrescentou os artigos 158-A a 158-F, que tratam da cadeia de custódia do vestígio, um assunto recente e por isso mesmo frequente nas provas dos últimos ciclos.

Como esse bloco mistura medicina legal e processo penal, estudá-lo junto com o guia de inquérito policial militar e com o material sobre concurso de pessoas no direito penal rende mais do que tratá-los em semanas separadas. O Código de Processo Penal compilado deve ficar aberto durante essa revisão.

Como as bancas cobram medicina legal?

Três formatos dominam. O primeiro apresenta um achado de necropsia e pede a classificação correta. O segundo inverte uma característica, como o sentido do sulco no enforcamento. O terceiro mistura medicina legal com tipo penal e pede a gravidade da lesão.

Em todos eles, a defesa é a mesma: dominar poucas tabelas com muita firmeza. Medicina legal tem vocabulário próprio e memória de curto prazo frágil, então a revisão espaçada vale mais aqui do que em quase qualquer outra matéria. Complementar com estudo por questões e com um banco de questões filtrado pela banca do edital acelera o processo.

Erros mais comuns em prova.

  • Trocar debilidade permanente por perda de membro e classificar mal a lesão do artigo 129.

  • Descrever o sulco do enforcamento como horizontal e contínuo, que é a descrição do estrangulamento.

  • Admitir esganadura suicida, o que é impossível pelo próprio mecanismo.

  • Confundir identidade com identificação nas questões de antropologia forense.

  • Afirmar que a confissão supre o exame de corpo de delito, contrariando o artigo 158.

  • Tratar mumificação e saponificação como fenômenos destrutivos, quando ambos são conservadores.

Cinco desses seis erros são de par invertido, e não de conteúdo desconhecido. Um cartão de revisão com colunas opostas resolve mais do que releitura de apostila, e encaixa bem no cronograma de estudos em blocos curtos.

Resumo para revisão rápida:

Tema

O que gravar

Conceito

Saber médico aplicado às questões do direito

Peritos oficiais

Autonomia técnica pela Lei 12.030 de 2009

Esganadura

Mãos do agressor, sempre homicídio

Enforcamento

Sulco oblíquo, ascendente e interrompido

Lesão grave

Parágrafo 1º do artigo 129, inclui debilidade permanente

Lesão gravíssima

Parágrafo 2º do artigo 129, inclui deformidade permanente

Corpo de delito

Indispensável quando há vestígio, artigo 158 do CPP

Cadeia de custódia

Artigos 158-A a 158-F, inseridos em 2019

Quem monta a preparação completa para carreira policial precisa alinhar este conteúdo com as demais etapas. O teste de aptidão física exige preparo paralelo, a página de carreiras policiais reúne os certames em andamento, e os guias sobre policial penal e policial federal ajudam a escolher o alvo. Na reta final, o plano de 60 dias orienta a distribuição das revisões, e o guia sobre estudo de lei seca ajuda no bloco processual.

Perguntas frequentes:

O que é medicina legal e para que ela serve?

Medicina legal é a aplicação de conhecimentos médicos e biológicos à solução de questões jurídicas. Ela traduz para o processo o que o corpo, o vestígio e o documento médico revelam sobre um fato. Em concursos, o foco recai sobre os conceitos que aparecem em laudos e sobre a classificação das lesões e das mortes.

Qual a diferença entre esganadura e estrangulamento?

Na esganadura, a constrição do pescoço é feita pelas mãos, pelos braços ou pelos joelhos do próprio agressor. No estrangulamento, a constrição vem de um laço acionado por força estranha ao peso do corpo da vítima. Por isso a esganadura é sempre homicídio, enquanto o estrangulamento admite outras origens.

Quando o exame de corpo de delito é indispensável?

Sempre que a infração deixar vestígios, conforme o artigo 158 do Código de Processo Penal, e nesse caso a confissão do acusado não supre o exame. Se os vestígios desaparecerem, o artigo 167 permite que a prova testemunhal supra a falta do exame direto. Essa dupla de artigos é uma das mais cobradas do tema.

O que diferencia lesão corporal grave de gravíssima?

A lesão grave está no parágrafo 1º do artigo 129 do Código Penal e reúne incapacidade para ocupações habituais por mais de 30 dias, perigo de vida, debilidade permanente e aceleração de parto. A gravíssima está no parágrafo 2º e reúne incapacidade permanente para o trabalho, enfermidade incurável, perda de membro, deformidade permanente e aborto. A palavra permanente é a chave de leitura.

O que é a docimasia hidrostática de Galeno?

É o exame que verifica se o recém-nascido respirou antes de morrer, observando se o tecido pulmonar flutua em água. Pulmão que flutua indica que houve respiração, o que separa o natimorto do recém-nascido que viveu. O resultado é decisivo para distinguir infanticídio de outras hipóteses.


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