Como ser diplomata: requisitos, as três fases do CACD e como é a carreira

Como ser diplomata: requisitos, as três fases do CACD e como é a carreira
Agente de Artigos Redação
Atualizado em 15/09 às 21h

Para ser diplomata no Brasil é preciso ser aprovado no Concurso de Admissão para a Carreira de Diplomata, o CACD, realizado pelo Instituto Rio Branco. Os requisitos são ser brasileiro nato, ter diploma de curso superior em qualquer área, estar em dia com obrigações eleitorais e militares, ter no mínimo dezoito anos e aptidão física e mental. O concurso tem três fases e não existe idade máxima.

Duas informações costumam surpreender quem pesquisa essa carreira pela primeira vez. A primeira: não existe faculdade de diplomacia obrigatória. Qualquer graduação serve, de engenharia a música, desde que o diploma seja registrado. A segunda: a carreira é privativa de brasileiros natos por determinação constitucional, o que significa que naturalizados não podem ingressar, por melhor que seja o desempenho na prova.

O resto é estudo. Muito estudo, num concurso que o próprio Ministério das Relações Exteriores descreve como de preparação plurianual para a maior parte dos aprovados.

O que faz um diplomata

Segundo o Itamaraty, diplomatas prestam atividades de natureza diplomática e consular em seus aspectos de representação, negociação, informação e proteção de interesses brasileiros no campo internacional. Traduzindo para o dia a dia: negociar acordos, acompanhar e relatar a conjuntura política e econômica do país onde serve, promover comércio e cultura brasileiros e atender cidadãos brasileiros no exterior.

O Serviço Exterior Brasileiro tem outros dois cargos que também entram por concurso público e que muita gente confunde com o de diplomata:

  • Assistente de chancelaria. Servidor de nível médio, presta apoio técnico e administrativo no Brasil e nas representações brasileiras no exterior.

  • Oficial de chancelaria. Servidor de formação superior, atua na formulação, implementação e execução dos atos de análise técnica e gestão administrativa necessários ao desenvolvimento da política externa.

Se o seu interesse é trabalhar com relações internacionais e viver parte da vida no exterior, vale olhar os três cargos antes de escolher um. As provas, os requisitos e o tempo de preparação são bem diferentes.

Requisitos para o CACD

O Instituto Rio Branco lista os requisitos que o candidato precisa preencher para a posse no cargo:

  1. Ter sido aprovado no concurso.

  2. Ser brasileiro nato, conforme o art. 12, § 3º, inciso V, da Constituição Federal e o art. 36 da Lei nº 11.440/2006.

  3. Estar no gozo dos direitos políticos.

  4. Estar em dia com as obrigações do serviço militar, para candidatos do sexo masculino.

  5. Estar em dia com as obrigações eleitorais.

  6. Apresentar diploma registrado de conclusão de curso de graduação de nível superior.

  7. Ter idade mínima de dezoito anos.

  8. Apresentar aptidão física e mental, verificada por exames pré-admissionais.

Sobre idade, o Itamaraty é direto: existe idade mínima de dezoito anos para a investidura no cargo, e não há limite máximo para inscrição. Sobre diploma estrangeiro, é aceito desde que revalidado pelo Ministério da Educação. E quem tem dupla nacionalidade pode concorrer, desde que uma delas seja a de brasileiro nato.

Um detalhe que gera dúvida recorrente entre bacharéis em Direito: não é exigida aprovação no exame da Ordem dos Advogados do Brasil nem em qualquer outro conselho profissional. A exigência se limita ao diploma de graduação.

Como funciona o concurso: as três fases

O CACD vem sendo realizado anualmente desde 1946. O edital sai depois da aprovação da disponibilidade orçamentária para provimento dos cargos na classe inicial da carreira, o que explica por que o número de vagas oscila tanto de um ano para o outro.

Primeira fase

Prova objetiva com questões do tipo certo ou errado, de caráter eliminatório, cobrindo língua portuguesa, língua inglesa, história do Brasil, história mundial, política internacional, geografia, economia e direito. Ela habilita o candidato para a fase seguinte. No CACD de 2024 essa etapa foi aplicada nas capitais dos 26 estados e no Distrito Federal.

Segunda fase

Provas escritas, eliminatórias e classificatórias, de língua portuguesa, língua inglesa, história do Brasil, geografia, política internacional, economia, direito e língua espanhola ou francesa. É aqui que a preparação de quem só treinou múltipla escolha desmorona: são respostas dissertativas em oito disciplinas, com correção exigente e nota mínima por prova.

Terceira fase

Última etapa antes da aprovação final, com peso na composição da nota. A soma das notas finais da segunda e da terceira fases é o critério principal de classificação usado inclusive nos programas do Instituto.

Sobre idiomas, a orientação oficial é clara: não está prevista, para as próximas edições, a exigência de outras línguas além de inglês, espanhol e francês. A justificativa dada pelo Itamaraty é prática, já que as três estão entre os idiomas oficiais das Nações Unidas e cobrem o maior número de países com os quais o Brasil mantém relações diplomáticas.

Um erro comum: estudar sem o Guia de Estudos

O Instituto Rio Branco publica guias de estudo para orientar a preparação. O próprio Instituto faz uma ressalva importante: os guias constituem material de orientação e auxílio na preparação do candidato, mas não limitam nem condicionam a avaliação da banca examinadora.

A leitura correta dessa frase é dupla. O guia é o melhor ponto de partida que existe, porque foi escrito por quem organiza o concurso. Mas quem estuda só o guia e ignora leitura complementar chega na segunda fase com repertório curto para escrever oito provas dissertativas.

Remuneração e estrutura da carreira

A carreira diplomática é estruturada em seis classes: terceiro-secretário, segundo-secretário, primeiro-secretário, conselheiro, ministro de segunda classe e ministro de primeira classe, que é o embaixador. O aprovado entra como terceiro-secretário e progride por antiguidade e merecimento, com requisitos específicos para cada promoção.

Sobre remuneração, o Itamaraty informa que o salário inicial bruto de terceiro-secretário previsto no edital do CACD de 2022 era de R$ 19.199,06. Como qualquer valor de concurso, esse número muda com reajustes e reestruturações, então o valor vigente deve sempre ser conferido no edital da edição corrente e nas tabelas oficiais publicadas pelo órgão.

No exterior a lógica é outra. A remuneração leva em conta custo de vida, condições locais e incentivo para postos com maior demanda, e o foco declarado não é equiparar o diplomata com a classe média local, e sim atender as necessidades de representação do governo brasileiro.

O Curso de Formação de Diplomatas

Aprovado no concurso, o candidato não vai direto para um posto no exterior. O Curso de Formação de Diplomatas é obrigatório para o recém empossado terceiro-secretário, tem duração de três ou quatro semestres e carga horária integral. No último semestre, o aluno assiste aulas pela manhã e cumpre estágio no período vespertino em unidades da Secretaria de Estado das Relações Exteriores.

Os alunos são remunerados: a partir da entrada em exercício efetivo no cargo, o aluno do curso passa a receber o subsídio de terceiro-secretário. Ou seja, a formação acontece já dentro da carreira, com vínculo e salário.

Ação afirmativa: o Prêmio de Vocação para a Diplomacia

Desde 2002 o Instituto Rio Branco mantém o Programa de Ação Afirmativa, que concede bolsas-prêmio a candidatos negros com desempenho satisfatório nas primeiras etapas do CACD que não alcançaram a média necessária para aprovação final. O valor total da bolsa-prêmio por candidato selecionado corresponde a R$ 30.000,00, desembolsado pelo CNPq, e serve para custeio de material bibliográfico e pagamento de cursos preparatórios ou de professores especializados.

O programa reconhece explicitamente que a preparação costuma levar mais de uma temporada e prevê renovação da bolsa, condicionada a marcos de desempenho: aprovação na primeira fase para a primeira renovação, notas mínimas nas provas de português e inglês da segunda fase para a segunda, e aprovação na terceira fase para a terceira. A concessão não exige que o candidato interrompa vínculo empregatício.

Quanto tempo leva e como organizar a preparação

O próprio desenho do programa de ação afirmativa, com renovações sucessivas atreladas a fases, diz muito sobre o ritmo real desse concurso. Aprovação na primeira tentativa é exceção, não regra.

Um planejamento honesto costuma se organizar assim:

Etapa da preparação

Foco principal

Sinal de que você pode avançar

Fundação

Português, inglês e leitura ampla de história e política internacional

Ler texto denso em inglês sem dicionário a cada parágrafo

Primeira fase

Volume de questões objetivas nas oito disciplinas

Desempenho estável em simulados no formato certo ou errado

Segunda fase

Produção escrita cronometrada e correção sistemática

Escrever resposta completa dentro do tempo, sem travar

Terceira fase

Aprofundamento e revisão dirigida

Consistência entre disciplinas, sem ponto fraco isolado

O gargalo quase sempre é a segunda fase. Escrever oito provas dissertativas em nível de banca exige treino de produção textual com correção, e não só leitura. Candidato que só lê e resolve objetiva chega nessa etapa com conhecimento suficiente e mão destreinada.

O que ler para o CACD sem se perder no volume

Quem começa a estudar para esse concurso enfrenta um problema incomum: não falta material, sobra. Cada uma das oito disciplinas tem bibliografia própria, e é fácil passar um ano lendo bem e avançando pouco em direção para a prova. Três critérios ajudam a filtrar.

  • Priorize o que a banca cobra em texto, não o que é interessante. Política internacional e história do Brasil rendem mais questões que curiosidade acadêmica.

  • Leia com caneta e ficha. Na segunda fase você vai precisar recuperar argumento e data sob pressão de tempo. Leitura passiva não sobrevive a isso.

  • Converta leitura em texto próprio desde cedo. Um resumo de uma página por capítulo vale mais que dez capítulos sublinhados.

Uma prática que funciona bem: escolher uma pergunta provável por semana e escrever a resposta completa, no tempo da prova, mesmo antes de se sentir pronto. O texto vai ficar ruim nos primeiros meses. É exatamente esse o objetivo, porque o texto ruim mostra a lacuna que a leitura escondia.

Inglês no CACD é outro nível de exigência

Muita gente subestima essa parte por já ter certificação internacional ou por trabalhar usando inglês. O concurso cobra leitura de textos densos, versão, redação em inglês e domínio gramatical fino. É um uso acadêmico da língua, diferente do inglês de reunião de trabalho.

Para quem parte de um nível intermediário, o caminho mais eficiente combina três frentes simultâneas: leitura diária de imprensa internacional de qualidade, treino específico de gramática no formato cobrado e produção escrita corrigida. As três, todos os dias, em blocos curtos. Inglês é a disciplina que menos aceita estudo concentrado em mutirão de fim de semana.

Espanhol e francês entram na segunda fase e costumam ser tratados como problema para depois. Faz sentido do ponto de vista de prioridade, mas quem deixa para os últimos três meses geralmente perde ponto barato numa prova em que a diferença entre aprovado e reprovado é pequena.

Conciliar trabalho e preparação para o CACD

A maior parte dos candidatos trabalha. O programa de ação afirmativa do próprio Instituto Rio Branco reconhece isso ao dispensar a interrupção de vínculo empregatício para receber a bolsa-prêmio.

Alguns ajustes tornam essa combinação sustentável:

  1. Proteja um bloco fixo de estudo profundo por dia. Noventa minutos consistentes valem mais que seis horas aos domingos.

  2. Use deslocamento e intervalos para leitura leve e revisão. Fichas, resumos e questões objetivas cabem nesses espaços.

  3. Reserve um dia do fim de semana para produção escrita. Escrever exige bloco longo e cabeça descansada, e não cabe em trinta minutos de fim de noite.

  4. Aceite ciclos. Semanas de trabalho intenso vão render menos, e tudo bem. O que derruba candidato não é a semana fraca, é abandonar o plano depois dela.

Quem se dá bem nessa carreira

O Itamaraty descreve o perfil desejado do funcionário do Serviço Exterior Brasileiro: interesse em questões internacionais e em conhecer outras culturas, dedicação para a promoção dos interesses do Brasil no exterior e forte compromisso com o serviço público. Valorizam-se profissionais que saibam trabalhar sob pressão.

Vale acrescentar o que a estrutura da carreira impõe. Transferência entre países se chama remoção, acontece duas vezes por ano e segue as prioridades da política externa, não só a preferência do diplomata. É imprescindível, nas palavras do próprio Instituto, a disposição de servir o Brasil em qualquer lugar do mundo. Quem tem raiz familiar rígida ou precisa de previsibilidade geográfica costuma sofrer.

Um dado que ajuda a dimensionar o perfil histórico da carreira: nos últimos trinta anos, mulheres representaram em média 23,5% dos candidatos aprovados no concurso.

Como o Portal Concursos entra na sua preparação

Nenhuma plataforma substitui a leitura de fundo que o CACD exige, e seria desonesto sugerir isso. O que uma estrutura de estudo bem montada resolve é a parte mensurável da preparação: volume de questões objetivas para a primeira fase, disciplina de revisão e correção de texto para a segunda.

No banco de questões do Portal Concursos dá para filtrar por banca, ano, disciplina, assunto e nível de dificuldade, com comentários de professores e estatística de acerto por disciplina, o que ajuda a encontrar o ponto fraco entre as oito matérias da primeira fase. Para quem vai enfrentar as provas escritas, a correção de redação disponível no plano Premium 2.0 permite escrever com frequência e receber retorno, que é o único jeito conhecido de melhorar produção textual. E a mentoria individual serve para o que planilha nenhuma resolve sozinha: decidir o que estudar primeiro quando a lista de leitura é maior que o ano.

Vale olhar também os cursos direcionados para as disciplinas de base, como português, história e direito, que aparecem tanto no CACD quanto nos concursos de oficial e assistente de chancelaria.

Por onde começar

Confira primeiro se você preenche o requisito de nacionalidade, porque ele é absoluto e não tem exceção. Depois baixe o último edital do CACD e o Guia de Estudos do Instituto Rio Branco. Leia o conteúdo programático das oito disciplinas e marque, com honestidade, quais delas você nunca estudou. Essa lista define se a sua preparação começa em nível de fundação ou já em ritmo de prova.

É um concurso longo, e é justamente por isso que começar com o mapa certo economiza mais tempo do que qualquer técnica de estudo.

Perguntas frequentes sobre a carreira diplomática e o CACD

Qual faculdade preciso fazer para ser diplomata?

Qualquer uma. O requisito é apresentar diploma registrado de conclusão de curso de graduação de nível superior, sem exigência de área específica. Cursos como relações internacionais, direito, história e economia ajudam no conteúdo do concurso, mas não são obrigatórios.

Estrangeiro ou brasileiro naturalizado pode ser diplomata?

Não. A carreira diplomática é privativa de brasileiros natos, conforme o art. 12, § 3º, inciso V, da Constituição Federal e o art. 36 da Lei nº 11.440/2006. Quem tem dupla nacionalidade pode concorrer desde que uma delas seja a de brasileiro nato.

Existe idade máxima para o concurso de diplomata?

Não existe limite máximo de idade para inscrição no CACD. O Instituto Rio Branco informa apenas a idade mínima de dezoito anos para a investidura no cargo, mesmo requisito básico previsto na Lei nº 8.112/1990 para cargos públicos federais.

Quantas fases tem o concurso para diplomata?

São três fases. A primeira é uma prova objetiva de certo ou errado com oito disciplinas, a segunda reúne provas escritas em português, inglês, história do Brasil, geografia, política internacional, economia, direito e espanhol ou francês, e a terceira é a etapa final de classificação.

Quanto ganha um diplomata no início da carreira?

O Itamaraty informa que o salário inicial bruto de terceiro-secretário previsto no edital do CACD de 2022 era de R$ 19.199,06. O valor vigente deve ser conferido no edital da edição atual e nas tabelas oficiais, porque muda com reajustes e reestruturações da carreira.

Quais idiomas caem no CACD?

Inglês na primeira e na segunda fase, e espanhol ou francês na segunda fase. O Itamaraty informa que não está prevista a exigência de outros idiomas nas próximas edições, porque inglês, espanhol e francês cobrem o maior número de países nas relações diplomáticas brasileiras.

O que é o Curso de Formação de Diplomatas?

É o curso obrigatório para o terceiro-secretário recém empossado, com duração de três ou quatro semestres e carga horária integral. O aluno já recebe o subsídio do cargo a partir da entrada em exercício e, no último semestre, combina aulas pela manhã com estágio no período da tarde.

Existe programa de ação afirmativa no concurso de diplomata?

Sim. Desde 2002 o Instituto Rio Branco mantém o Programa de Ação Afirmativa, que concede bolsas-prêmio de R$ 30.000,00 a candidatos negros com bom desempenho nas primeiras etapas que não alcançaram a média final, com possibilidade de renovação conforme marcos de desempenho.

Além de diplomata, quais são os outros cargos do Itamaraty?

O Serviço Exterior Brasileiro tem também o assistente de chancelaria, cargo de nível médio de apoio técnico e administrativo, e o oficial de chancelaria, de nível superior, que atua na análise técnica e na gestão administrativa ligadas com a política externa.

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