Questão
ID 739324Disciplina: História
Assuntos: América Latina na Segunda Metade do Século XX: Revoluções, Transformações e Permanências
Ano: 2004 Banca: CESPE CEBRASPE - Centro de Seleção e de Promoção de Eventos UnB Órgão: Instituto Rio Branco
Há algo que não se pode dizer do século XX: que foi um tempo de brumas, silêncios e mistérios. Tudo nele foi a céu aberto, agressivamente iluminado, escancarado e estridente. E, no entanto, ele é ainda um enigma — um claro enigma, parafraseando Drummond —, e dele não podemos fazer o necrológio completo. E porque findou como uma curva inesperada da história, em um astucioso desencontro do que achávamos ser o futuro, turvou nossa memória e nosso olhar. E tornou-se pedra e esfinge, com um brilho que ainda cega e desafia.
O século XX foi, sem dúvida, um século das utopias. O seu andamento coincidiu com a máxima expansão das categorias fundamentais do mundo moderno — sujeito e trabalho —, eixos que presidiram a atualização e exasperaram os limites do liberalismo e do socialismo, as duas grandes utopias da modernidade. E talvez por isso exiba uma característica única e contraditória: parece ter sido o mais preparado e explicado pelos séculos anteriores e, simultaneamente, o que mais distanciou a humanidade de seu passado, mesmo o mais próximo, decretando o caráter obsoleto de formas de vida e sociabilidade consolidadas durante milênios.
O século XX sancionou o Estado-nação como a forma, por excelência, de organização das sociedades em peregrinação para o futuro e em busca de transparência. Os Estados nacionais ergueram-se como personagens privilegiadas de uma história humana cada vez mais cosmopolita, para lembrar Kant, modificando de forma radical a paisagem do mundo. Com eles, o direito assumiu progressivamente a condição de um idioma universal, reagindo sobre o passado e destruindo velhas estruturas hierárquicas fundadas em privilégios e na tradição.
Mas o século XX não é apenas um tempo de esperanças. É também o século do medo e das tragédias injustificáveis. A dura realidade dos interesses provoca dois grandes conflitos mundiais, um tenso período de guerra fria e uma interminável série de guerras localizadas. Um século de violência dos que oprimem e dos que se revoltam.
Rubem Barboza Filho. Século XX: uma introdução (em forma de prefácio). Apud: Alberto Aggio e Milton Lahuerta (Org.). Pensar o século XX. São Paulo: Unesp, 2003, p. 15–9 (com adaptações) .
Considerando o texto acima, julgue os itens seguintes, relativos ao cenário histórico do mundo contemporâneo.
Ainda que próximo dos EUA, especialmente em termos comerciais, o Brasil da segunda metade da década de 40 do século XX - governo Gaspar Dutra - procurou manter-se eqüidistante no cenário de polarização ideológica e de retórica demasiado agressiva da guerra fria, eximindo-se de assumir atitudes políticas que pudessem significar comprometimento ou ruptura com as superpotências.