Questão
ID 65964Disciplina: Pedagogia
Assunto: Teorias Curriculares Pós-críticas
Ano: 2025 Banca: PERFIL - ENADE Órgão: Primeiro Simulado Pnd
Um coletivo de professores de português e espanhol, em um processo de autoformação, decide estudar abordagens decoloniais para o ensino de línguas e literaturas. O grupo parte do incômodo com currículos que ainda se centram majoritariamente em autores e perspectivas da Europa (Portugal e Espanha), tratando as produções latino-americanas como apêndices ou derivações. Um dos textos de base para o estudo é um artigo da pesquisadora Catherine Walsh, que discute a diferença entre multiculturalidade, interculturalidade e decolonialidade:
'O multiculturalismo, em sua vertente liberal, reconhece a diversidade cultural, mas muitas vezes a folcloriza, promovendo a tolerância sem questionar as estruturas de poder. A interculturalidade, em uma perspectiva funcional, busca o diálogo e a integração entre as culturas, mas pode ser cooptada por lógicas de mercado que visam apenas a incluir a diversidade para torná-la consumível. A perspectiva decolonial, por sua vez, vai além. Ela parte do reconhecimento de que o conhecimento, o poder e o ser foram historicamente marcados pela matriz colonial de poder. Essa matriz estabeleceu o homem branco europeu como o padrão universal de humanidade e seu conhecimento como o único válido (episteme), relegando os saberes de povos indígenas e afrodescendentes a meras crenças ou folclore (doxa). Uma pedagogia decolonial no ensino de línguas e literaturas, portanto, não se contenta em 'adicionar' um autor indígena ou uma autora negra ao cânone. Ela busca ativamente desafiar a 'colonialidade do saber', questionando os próprios critérios que definem o que é 'literatura' ou 'conhecimento válido'. Isso implica em trazer para o centro do currículo as epistemologias do Sul, as filosofias ameríndias, os saberes corporificados na oralidade, e em ler o próprio cânone europeu a contrapelo, evidenciando seu lugar de enunciação e seus silenciamentos.'
À luz dessa fundamentação, o coletivo de professores avalia algumas propostas para a renovação de sua prática pedagógica.
I. A proposta de criar uma unidade didática intitulada 'Literaturas outras', que inclua a leitura do livro 'Ideias para adiar o fim do mundo', de Ailton Krenak, e poemas da cubana Nancy Morejón, representa uma prática alinhada ao pensamento decolonial, pois centraliza epistemologias não europeias.
II. A manutenção do currículo atual, que foca 90% do tempo em autores de Portugal e Espanha, já é uma atitude decolonial, desde que se mencione brevemente, em uma aula, que existem autores em outros países.
III. Uma prática decolonial efetiva seria abolir completamente o estudo de autores como Camões ou Cervantes, por representarem o pensamento do colonizador, e focar apenas em produções pré-colombianas.