Questão
ID 1565329Disciplina: História
Assunto: Conceitos Gerais da Primeira República
Ano: 2022 Banca: MPE GO - Ministério Público de Goiás Órgão: Ministério Público do Estado de Goiás
O texto a seguir é um fragmento do romance “Esaú e Jacó”, do escritor brasileiro Machado de Assis. Essa obra aborda parte importante da história do Brasil. Leia o texto a seguir com atenção para responder à questão 18.
“Referido o que lá fica atrás, Custódio confessou tudo o que perdia no título e na despesa, o mal que lhe trazia a conservação do nome da casa, a impossibilidade de achar outro, um abismo, em suma. Não sabia que buscasse; faltava-lhe invenção e paz de espírito. Se pudesse, liquidava a confeitaria. E afinal que tinha ele com política? Era um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguesado, respeitado, e principalmente respeitador da ordem pública ...
– Mas o que é que há? perguntou Aires.
– A república está proclamada. – Já há governo?
– Penso que já; mas diga-me V. Excia.: ouviu alguém acusar-me jamais de atacar o governo? Ninguém.
Entretanto ... Uma fatalidade! Venha em meu socorro, Excelentíssimo. Ajude-me a sair deste embaraço. A tabuleta está pronta, o nome todo pintado “Confeitaria do Império”, a tinta é viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho, para então fazer outro. Eu, se a obra não estivesse acabada, mudava de título, por mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei? V. Excia. crê que, se ficar “Império”, venham quebrar-me as vidraças?
– Isso não sei.
– Realmente, não há motivo; é o nome da casa, nome de trinta anos, ninguém a conhece de outro modo ...
– Mas pode pôr “Confeitaria da República” ...
– Lembrou-me isso, em caminho, mas também me lembrou que, se daqui a um ou dois meses, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou hoje, e perco outra vez o dinheiro.
– Tem razão ... Sente-se.
– Estou bem.
– Sente-se e fume um charuto. Custódio recusou o charuto, não fumava. Aceitou a cadeira. Estava no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades lhe chamariam a atenção, se não fosse o atordoamento do espírito. Continuou a implorar o socorro do vizinho. S. Excia., com a grande inteligência que Deus lhe dera, podia salvá-lo. Aires propôs-lhe um meio-termo, um título que iria com ambas as hipóteses,
– “Confeitaria do Governo”. – Tanto serve para um regime como para outro.
– Não digo que não, e, a não ser a despesa perdida ... Há, porém, uma razão contra. V. Excia. sabe que nenhum governo deixa de ter oposição. As oposições, quando descerem à rua, podem implicar comigo, imaginar que as desafio, e quebrarem-me a tabuleta; entretanto, o que eu procuro é o respeito de todos.”
(ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. São Paulo: Companhia das Letras, 2012)
Acerca do texto acima, assinale a alternativa com uma interpretação incorreta das ideias tratadas pelo autor: