Questão 97973

Língua Portuguesa · 2025

Questão

ID 97973

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Uso de Sinônimos

Ano: 2025 Banca: FCPC - Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura Órgão: Universidade Federal do Ceará


  1. Ninguém sabe, exatamente, quando uma legião de brasileiros descobriu que já não era mais possível ter alguma coisa. Passaram a "possuir". Também deixaram de fazer. Querem "realizar".
  2. Para essa gente, oferecer, dar, emprestar, nenhum desses atos generosos sobreviveu à mania contemporânea de "disponibilizar". A língua encheu-se de calos, pela dificuldade de falar palavras simples e diretas, velhas companheiras — exiladas, agora, por uma inexplicável doença semântica.
  3. A moléstia, contagiosa, é agravada pelos anglicismos selvagens de gente desacostumada a ler em português, ou exposta em excesso a obras dolorosamente mal traduzidas. Sintomas comuns dessa necrose linguística são o uso de "escalar", não para montanhas, mas para expressar aumento ou amplificação de alguma coisa; a manifestação do desejo mórbido de "realizar" no lugar de "compreender"; a incapacidade paranoica de começar alguma ação sem o anúncio de que vai "estartar" a pobrezinha. (...)
  4. No país que guarda até hoje traços da Casa grande & senzala, falar enrolado sempre foi um modo de cobrar distinção. Não à toa, no Judiciário, onde até hoje existe elevador exclusivo para "eminentes magistrados", a linguagem tortuosa desfila de queixo erguido e peito estufado. É uma felicidade ver, digo, ganhar impulso o esforço para simplificar a comunicação em lugares como esse.
  5. As estrepolias beletristas do juridiquês deixam no chinelo a fala empolada, que, hoje em dia, nunca "usa", só "utiliza", e não desempenha mais, porque prefere "performar". Tribunais gostam de ser chamados "egrégias cortes", e, ao lhe impor textos incompreensíveis, desculpam-se com "data vênia" e "elevada estima e consideração". Mas vão além: ao entrar no Supremo Tribunal, você descobre, por exemplo, que chegou, segundo digníssimos advogados, ao "pretório excelso".
  6. Barbaridade. Isso não é nome de alguma entidade mitológica, como o tal do "mesmo", o ser misterioso citado nas placas de certos corredores, que devemos verificar se está parado, quem sabe nos espreitando, antes de pegar o elevador. Esse Pretório Excelso existe mesmo, pode perguntar nos tribunais. E, a depender do que anda fazendo, ele um dia pode botar as mãos em você.


SERGIO LEO. A linguagem performática dos possuídos realizadores. Revista do Correio. 20/10/2024. Disponível em:

https://www.correiobraziliense.com.br/revista-do-correio/2024/10/6964579-cronica-cidade-nossa-a-linguagem-performatica-dos-possuidos-realizadores.html

No trecho “A moléstia, contagiosa, é agravada pelos anglicismos selvagens de gente desacostumada a ler em português” (linhas 06-07), a expressão em destaque é utilizada para retomar um elemento anteriormente mencionado por um mecanismo de:

Alternativas da questão 97973
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