Questão 956107

Língua Portuguesa · 2012

Questão

ID 956107

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Crônica

Ano: 2012 Banca: FADESP - Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa Órgão: Prefeitura Municipal de Castanhal


COM BASE NA LEITURA DO TEXTO “EU SEI, MAS NÃO DEVIA”, ASSINALE A ALTERNATIVA QUE COMPLETA CORRETAMENTE AS QUESTÕES DE 01 A 09.

Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti

  1. Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
  2. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista
  3. que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para
  4. fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E,
  5. porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida
  6. que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
  7. A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A
  8. tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode
  9. perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do
  10. trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e
  11. dormir pesado sem ter vivido o dia.
  12. A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra,
  13. aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não
  14. acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler
  15. todo dia da guerra, dos números, da longa duração. [...]
  16. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a
  17. lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer
  18. fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará
  19. mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas
  20. filas em que se cobra.
  21. A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver
  22. anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A
  23. ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
  24. A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro
  25. de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural.
  26. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se
  27. acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos
  28. cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
  29. A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas,
  30. tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta
  31. acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
  32. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o
  33. trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de
  34. semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque
  35. tem sempre sono atrasado.
  36. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se
  37. acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para
  38. poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que,
  39. gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Disponível em: <http://www.releituras.com/mcolasanti_eusei.asp>.Acesso em: 7 maio 2012.



O texto “Eu sei, mas não devia” é um(a)

Alternativas da questão 956107
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