Questão
ID 940102Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Variação Diamésica (Falado Versus Escrito)
Ano: 2006 Banca: IPAD - Instituto de Planejamento e Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico e Científico Órgão: Prefeitura Municipal de Buíque
OS DOIS MUNDOS DA EXPRESSÃO LINGÜÍSTICA
Existem duas maneiras principais de considerar a fala espontânea frente à escrita. A maioria das pessoas tende a pensar que a língua de verdade, a correta, é a escrita, e que a fala é uma espécie de versão facilitada, e aliás cheia de erros, da escrita. Assim, diz-se que nós falamos vou no correio, mas o “certo” é vou aos correios, que é como se escreve − é assim que se diz isso em português.
Outras pessoas − e entre estas alguns profissionais da lingüística − assumem uma posição radicalmente oposta, e sustentam que a manifestação básica, fundamental da língua é a fala, e a escrita não passa de uma representação gráfica dessa mesma fala. Se há diferenças, estas se devem exclusivamente à força da tradição, que insiste em que temos que dizer vou aos correios.
O curioso é que ambas essas posições são equivocadas; a relação entre a fala e a escrita é muito mais complexa do que elas dão a entender − e muito mais interessante.
“O escrito é o certo?” − As pessoas geralmente não colocam as coisas nesses termos; antes, dizem que existe um “português correto” e um “português errado”. Por exemplo, acreditam que é errado dizer me empresta os disquete, e é certo dizer empreste-me os disquetes. Mas acontece que na vida real esta última construção só ocorre na escrita; embora a maioria dos gramáticos e alguns professores insistam que é assim que é o português correto, ninguém, mas ninguém mesmo, fala desse jeito − exceto em situações extremamente formais, como fazendo um discurso de formatura, mas, convenhamos, um discurso não é realmente fala.
Aquilo que algumas pessoas chamam “português certo” é, portanto, “português escrito”, e a língua que nós todos falamos (nós os 170 milhões de habitantes do Brasil) é denominada, um tanto desrespeitosamente, “português errado”. Mas construções como me empresta os disquete são usadas universalmente − ou seja, por toda a população − em situações normais de fala. Não se trata de “fala inculta”, nem “dialeto rural”, nem “português de morro” − trata-se da nossa língua nativa, a única que nós (os 170 milhões) falamos realmente bem e à vontade.
A outra, que alguns chamam “português certo”, é uma língua que aprendemos na escola, com a dificuldade que todos conhecemos e que usamos (quando usamos) para escrever, mas nunca para conversar. É a língua padrão do Brasil, e, vamos deixar isso claro, precisa ser conhecida também. É a língua usada pelos jornais, livros técnicos, revistas e a maior parte da literatura. Portanto, tem seu lugar seguro no ensino, e o ideal seria que toda a população a conhecesse, a ponto de usá-la com certa facilidade.
PERINI, Mário. A língua do Brasil amanhã e outros mistérios. São Paulo: Parábola, 2004, p.53-55. Adaptado.
Analise as seguintes afirmações, acerca de alguns elementos lingüísticos presentes no Texto 1.
1. No trecho: "Assim, diz-se que nós falamos vou no correio, mas o certo é vou aos correios, que é como se escreve.," a opção pela construção sublinhada indica que o conteúdo do que é dito não é de autoria particular.
2. No trecho: "As pessoas geralmente não colocam as coisas nesses termos; antes, dizem que existe um português correto e um português errado", o termo sublinhado tem valor temporal, indicando que a afirmação de que existe um português correto e um português errado é feita em um momento anterior no tempo.
3. O uso da primeira pessoa do plural no trecho: "trata-se da nossa língua nativa, a única que nós (os 170 milhões) falamos realmente bem e à vontade". indica que o autor se inclui naquilo que enuncia.
4. No trecho: "Mas construções como me empresta os disquete são usadas universalmente − ou seja, por toda a população − em situações normais de fala". a expressão sublinhada introduz uma explicitação.
Estão corretas: