Questão
ID 924423Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Ironia
Ano: 2018 Banca: ACEP - Associação Catarinense de Estudos e Pesquisas Órgão: Prefeitura Municipal de Aracati
RECADO AO SENHOR 903 (Rubem Braga)
- Vizinho,
- Quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador, que me mostrou a carta em
- que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal - devia ser
- meia-noite - e a sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira
- razão. O regulamento do prédio é explícito e, se não o fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia. Quem
- trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e
- músicas no 1003. Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem
- o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros. Eu,
- 1003, me limito a Leste pelo 1005, a Oeste pelo 1001, ao Sul pelo Oceano Atlântico, ao Norte pelo 1004, ao alto
- pelo 1103 e embaixo pelo 903 - que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o
- Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e
- bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em
- diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão; ao meu número) será
- convidado a se retirar às 21h45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7h pois às 8h15 deve deixar o 783 para
- tomar o 109 que o levará até o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305. Nossa vida, vizinho, está toda
- numerada; e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita,
- ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas - e prometo silêncio...Mas que me seja permitido
- sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: "Vizinho, são três
- horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou". E o outro respondesse: "Entra, vizinho, e come de meu pão
- e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela". E o
- homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções para
- agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade entre os
- humanos, e o amor e a paz.
(Rubem Braga. "Para gostar de ler". São Paulo: Ática, 1991)
Na frase “Todos esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis” (l. 10-11), o autor