Questão
ID 869320Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Casos Obrigatórios de Crase
Ano: 2015 Banca: Fundação CESGRANRIO Órgão: Petrobras Distribuidora
A pátria de chuteiras
O estilo de jogo e as celebrações dos torcedores
são publicamente reconhecidos no Brasil como
traços nacionais. Em um plano, temos o tão celebrado
“futebol-arte” glorificado como a forma genuína de
5 nosso suposto estilo de jogo, e o entusiasmo e os
diversos modos de torcer como características típicas
de ser brasileiro. Mas, no plano organizacional, não
enaltecemos determinados aspectos, uma vez que
eles falam de algo indesejado na resolução de obs-
10 táculos da vida cotidiana. Nesse sentido, tais traços
do famoso “jeitinho” brasileiro não são considerados
como representativos do Brasil que idealizamos.
Repetido diversas vezes e vendido para o exterior
como uma das imagens que melhor retrata o
15 nosso país, o epíteto “Brasil: país do futebol” merece
uma investigação mais cuidadosa. Essa ideia foi uma
“construção” histórica que teve um papel importante
na formação da nossa identidade. Internamente a utilizamos,
quase sempre, com um viés positivo, como
20 uma maneira de nos sentirmos membros de uma nação
singular, mais alegre.
Não negamos a sua força nem sua eficácia simbólica,
mas começamos a questionar o papel dessa
representação na virada do século, bem como a atual
25 intensidade de seu impacto no cotidiano brasileiro.
Se a paixão pelo futebol é um fenômeno que ocorre
em diversos países do mundo, o que nos diferencia
seria a forma como nos utilizamos dele para construirmos
nossa identidade e conquistas em compe-
30 tições internacionais? Observemos, no entanto, que
ser um aficionado não significa necessariamente se
valer do futebol como metáfora do país.
A Copa do Mundo possui uma estrutura narrativa
que estimula os nacionalismos. O encanto da com-
35 petição encontra-se justamente no fato de “fingirmos”
acreditar que as nações estão representadas por 11
jogadores. O futebol não é a nação, mas a crença de
que ele o é move as paixões durante um Mundial.
Mas, ao compararmos a situação atual com a car-
40 ga emocional de 1950 e 1970, especulamos sobre a
possibilidade de estarmos assistindo a um declínio do
interesse pelo futebol como emblema da nação.
O jogador que veste a camisa nacional também
representa clubes da Europa, além de empresas
45 multinacionais. As marcas empresariais estão amal-
gamadas com o fenômeno esportivo. As camisas e
os produtos associados a ele são vendidos em todas
as partes do mundo. Esse processo de desterritorialização
do ídolo e do futebol cria um novo processo
50 de identidade cultural. Ao se enaltecer o futebol como
um produto a ser consumido em um mercado de entretenimento
cada vez mais diversificado, sem um
projeto que o articule a instâncias mais inclusivas, o
que se consegue é esgarçar cada vez mais o vínculo
55 estabelecido em décadas passadas.
Se o futebol foi um dos fatores primordiais de
integração nacional, sendo a seleção motivo de orgulho
e identificação para os brasileiros, qual seria o
seu papel no século 21? Continuar resgatando sen-
60 timentos nacionalistas por meio das atuações da seleção
ou estimulá-los despertando a população para
um olhar mais crítico sobre o papel desse esporte na
vida do país?
HELAL, R. Ciência Hoje, n. 314. Rio de Janeiro: SBPC e Instituto Ciência Hoje. Maio de 2014. p. 18-23. Adaptado.
De acordo com a norma-padrão da língua portuguesa, o emprego do sinal indicativo da crase só é possível em: