Questão
ID 838757Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Emprego dos Elementos de Sequenciação (Uso de Conectivos)
Ano: 2017 Banca: MPRS - Ministério Público do Rio Grande do Sul Órgão: Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul
Instrução: As questões 1 a 10 estão relacionadas ao texto abaixo.
- Pessoas que vivem em uma mesma sociedade e em uma mesma época partilham um sistema narrativo. Mais do
- que isto, estão inseridas em um regime narrativo. Não se trata exatamente de uma “mentalidade”, segundo a ideia
- que Jacques Le Goff propôs no início da década de 1970. Sua premissa, largamente apoiada em Lucien Febvre,
- depois duramente criticada, era a ........ pessoas que viviam em uma mesma época tendiam a compartilhar uma
- visão do mundo, o que desconsiderava as diferenças culturais engendradas, por exemplo, pelas diferenças sociais –
- lembre-se da famosa afirmação ........ César e o último soldado das suas legiões compartilhavam algo.
- Se, por um lado, as visões de mundo ou culturas podem variar profundamente de um grupo para outro dentro de
- uma mesma sociedade, e se, por outro, é difícil aceitar a operacionalidade da ideia de um “espírito do tempo”
- exterior às pessoas e às condições concretas de existência, não se pode negar totalmente ........ os indivíduos que
- existem e se relacionam em um determinado tempo têm entre si algo que as conecta no plano da linguagem. Trata-
- se, mais do que da língua em si, do complexo sistema através do qual ela organiza a experiência do tempo, ou seja,
- a narrativa.
- O filósofo Paul Ricoeur chamou a atenção para a identidade narrativa a unir homens de um dado contexto.
- Lançando mão da noção de imaginário, refletiu sobre as ferramentas que faziam a ligação entre o “tempo vivido” e o
- “tempo do mundo”. Esta sensibilidade dentro da qual um determinado grupo em uma determinada época se forma é
- fundamental para a conexão entre a experiência do indivíduo e o pertencimento ao mundo. A percepção da
- passagem do tempo e a representação do indivíduo no mundo só podem ocorrer através da narrativa – e esta é,
- obviamente, criação humana, estando sujeita, portanto, a variações no tempo e no espaço.
- Nos grupos humanos, quem fala algo depende, para a sua aceitação ou compreensão, do que Ricoeur chamou de
- “pacto de leitura”, um acordo tácito entre o narrador e o leitor (ou receptor), o que implica a aceitação, por parte da
- comunidade, de certos elementos como marcos do discurso no tempo – daí o reconhecimento ........ todo discurso
- histórico tem em si um elemento ficcional. Assim, a sucessão de gerações ao longo do tempo, cada qual com a sua
- identidade narrativa, seria o que o autor chama de “cadeias de memória”, isto é, de reelaboração narrativa da sua
- experiência no tempo.
- Outro pensador francês, Pierre Bourdieu, chegou a tratar do que qualificou de “contrato de leitura”. Esta ideia
- reforça a noção de que uma determinada geração partilha necessariamente elementos no plano da linguagem que
- tornam os seus indivíduos compreensíveis entre si, estabelecendo, através desta identidade narrativa, uma relação
- peculiar com o tempo. Para Bourdieu, ao se relacionarem através do discurso, os participantes de uma cultura
- lançam mão de “todos os pressupostos do senso comum”.
- Não é difícil concluir que esta identidade narrativa vai ser diretamente afetada pela forma através da qual as
- pessoas se relacionam com a ordenação discursiva da experiência no tempo. Sabemos que nenhum discurso pode
- conter toda a realidade pretérita, uma vez que o passado é composto por situações complexas, e não por textos.
- Portanto, uma identidade narrativa pressupõe a escolha de determinados elementos de maneira arbitrária para
- ordenamento diacrônico no plano da fala ou da escrita, a partir de critérios que são compartilhados – embora
- inconscientemente.
Extraído e adaptado de: ELIAS, Rodrigo.Superinteressante, 30.1.2013. Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/sobre-perder-tempo>.
Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas das linhas 4, 6, 9 e 21, nesta ordem.