Questão 831020

Língua Portuguesa · 2005

Questão

ID 831020

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Verbos com Mais de Uma Regência com Mudança de Sentido

Ano: 2005 Banca: FESMP RN - Fundação Escola Superior do Ministério Público do RS Órgão: Ministério Público do Rio Grande do Norte


SAUNA COMPULSÓRIA

No Brasil, se "o hábito não faz o monge", muitas vezes é causa de atraso. O medo

de modificar costumes inadequados a nossa realidade faz que permaneçamos estacionados

e ultrapassados pelos novos tempos. Outros povos, com concepções mais arejadas e maior

grau de discernimento, não titubearam em deixar para trás esse hábito surrealista (1).

05 Criou-se entre nós a idéia equivocada (2) de que um homem só está bem vestido quando

abafa o corpo com um paletó e aprisiona a garganta com uma gravata, esse indefectível

(3) adereço (4) de cores, tamanhos e estampas variados. Os defensores incondicionais do

terno se esquecem de que sua elegância fica seriamente comprometida com a alta temperatu-

ra.É só o termômetro se aproximar de 30 graus para começarem as sessões de tortu-

10 ra sob o sol: camisas encharcadas, rostos e testas molhados, o suor descendo em bicas pe-

lo corpo inteiro. Nada mais constrangedor e anti-higiênico do que um colarinho irreme-

diavelmente amarelado. Muitas vezes, o suor rompe os limites da camisa e produz man-

chasde diversas formas e tamanhos nas costas de alguns infelizes.

Mais lógico seria que, ao serem bombardeados nas ruas, nos ônibus, nos trens e

15 nos escritórios por esse calor insuportável, os homens reagissem com camisas sóbrias (5)

e calças leves, mais apropriadas à estação. Não se trata de uma apologia (6) às bermudas,

longe disso. É apenas a constatação de que não há nenhum impedimento estético

(7), moral ou social no fato de se trabalhar com uma confortável camisa esporte aliada a

um adequado par de calças. Há respeitáveis exemplos da viabilidade (8) dessa tese. Os

20 que têm idade ou memória suficientes ainda se lembram de quando um presidente da

República - Jânio Quadros - se apresentou à nação envergando elegantes modelos safá-

ri, numa subversão radical dos centenários costumes palacianos. A atitude, no entanto,

em nada diminuiu a imagem de autoridade que o presidente precisa ostentar, da mesma

forma que as exibições do presidente Collor, em trajes esportivos, não afetaram - ao

25 contrário, puderam até ajudar - sua popularidade.

Pode parecer estranho que essas propostas venham justamente de quem, no

exercício de suas atividades diárias, se vê obrigado a usar as togas e becas típicas dos

magistrados, as chamadas "vestes talares (9)". Com bom senso, no entanto, não haverá

contradição. Os tribunais de Justiça, é claro, devem se cercar de usos que reflitam a gra-

30 vidade (10) e a importância das tarefas que são realizadas ali. Por isso, é conveniente

que todos os que trabalham nos tribunais se apresentem nos julgamentos com trajes que

exteriorizem o objetivo de promover e distribuir justiça. Concordo ainda com o argu-

mento de que a grandeza dos tribunais aconselha que as pompas (11) tradicionais e

milenares sejam respeitadas. Mas isso não impede que magistrados, promotores e ad-

35 vogados - como costuma acontecer nos dias de calor intenso - tirem os paletós antes

de colocar togas e becas. De resto, não existe nenhuma inconveniência de que traba-

lhos em foros, cartórios e atividades de acompanhamento e andamento de processos

sejam realizados por advogados e magistrados, por exemplo, sem gravatas. Se isso

pode ocorrer sem maiores constrangimentos no ambiente austero (12) dos tribunais,

40 por que não pode acontecer também nas repartições públicas, indústrias, estabeleci-

mentos comerciais e de prestação de serviços?

Não é lógico se manterem hábitos sem se saber ao certo quais são seus funda-

mentos. Os tempos são outros, exigem novas concepções (13), novos posicionamentos

sociais. Precisamos ter coragem para pôr abaixo o que não tem razão de ser. As novas

45 realidades exigem atitudes mais arejadas. Literalmente. Chega de sauna compulsória

(14) em roupa de gala(15). Abaixo a gravata, essa argola no pescoço dos que se di-

zem civilizados. Tenho esperança de que, brevemente, sem traumas, recalques ou

compromissos com o passado, poderemos finalmente ir para o trabalho em roupa es-

porte na tentativa de driblar o desconforto de nossos verões encasacados (...)

NICANOR FISCHER

Revista VEJA, 09.01.91.

Vocabulário:

(1) Surrealista – Fora da realidade.

(2) Equivocado – Enganoso, distorcido.

(3) Indefectível – Que tem que existir; irrevogável; que não falha, inevitável.

(4) Adereço – Enfeite, ornamento.

(5) Sóbrio – Não exagerado; razoável, equilibrado.

(6) Apologia – Elogio, louvor.

(7) Estético – Relativo à beleza, à harmonia.

(8) Viabilidade – Possibilidade de acontecer, de ser aplicado, de ser feito.

(9) Talar – Que desce até o calcanhar.

(10) Gravidade – Seriedade, sisudez, austeridade.

(11) Pompa – Grande luxo, imponência.

(12) Austero – Severo, sério, rigoroso, exigente.

(13) Concepção – Ideia, conceito, ponto de vista, opinião.

(14) Compulsório – Obrigatório.

(15) Roupa de gala – Traje para solenidades.



"As novas realidades exigem atitudes mais arejadas." (L.44/45)

Trocando-se o verbo destacado na passagem acima por outro, nem sempre sinônimo seu, aparece construção com regência incorreta na letra:

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