Questão
ID 831019Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Possibilidades de Paralelismo
Ano: 2005 Banca: FESMP RN - Fundação Escola Superior do Ministério Público do RS Órgão: Ministério Público do Rio Grande do Norte
SAUNA COMPULSÓRIA
No Brasil, se "o hábito não faz o monge", muitas vezes é causa de atraso. O medo
de modificar costumes inadequados a nossa realidade faz que permaneçamos estacionados
e ultrapassados pelos novos tempos. Outros povos, com concepções mais arejadas e maior
grau de discernimento, não titubearam em deixar para trás esse hábito surrealista (1).
05 Criou-se entre nós a idéia equivocada (2) de que um homem só está bem vestido quando
abafa o corpo com um paletó e aprisiona a garganta com uma gravata, esse indefectível
(3) adereço (4) de cores, tamanhos e estampas variados. Os defensores incondicionais do
terno se esquecem de que sua elegância fica seriamente comprometida com a alta temperatu-
ra.É só o termômetro se aproximar de 30 graus para começarem as sessões de tortu-
10 ra sob o sol: camisas encharcadas, rostos e testas molhados, o suor descendo em bicas pe-
lo corpo inteiro. Nada mais constrangedor e anti-higiênico do que um colarinho irreme-
diavelmente amarelado. Muitas vezes, o suor rompe os limites da camisa e produz man-
chasde diversas formas e tamanhos nas costas de alguns infelizes.
Mais lógico seria que, ao serem bombardeados nas ruas, nos ônibus, nos trens e
15 nos escritórios por esse calor insuportável, os homens reagissem com camisas sóbrias (5)
e calças leves, mais apropriadas à estação. Não se trata de uma apologia (6) às bermudas,
longe disso. É apenas a constatação de que não há nenhum impedimento estético
(7), moral ou social no fato de se trabalhar com uma confortável camisa esporte aliada a
um adequado par de calças. Há respeitáveis exemplos da viabilidade (8) dessa tese. Os
20 que têm idade ou memória suficientes ainda se lembram de quando um presidente da
República - Jânio Quadros - se apresentou à nação envergando elegantes modelos safá-
ri, numa subversão radical dos centenários costumes palacianos. A atitude, no entanto,
em nada diminuiu a imagem de autoridade que o presidente precisa ostentar, da mesma
forma que as exibições do presidente Collor, em trajes esportivos, não afetaram - ao
25 contrário, puderam até ajudar - sua popularidade.
Pode parecer estranho que essas propostas venham justamente de quem, no
exercício de suas atividades diárias, se vê obrigado a usar as togas e becas típicas dos
magistrados, as chamadas "vestes talares (9)". Com bom senso, no entanto, não haverá
contradição. Os tribunais de Justiça, é claro, devem se cercar de usos que reflitam a gra-
30 vidade (10) e a importância das tarefas que são realizadas ali. Por isso, é conveniente
que todos os que trabalham nos tribunais se apresentem nos julgamentos com trajes que
exteriorizem o objetivo de promover e distribuir justiça. Concordo ainda com o argu-
mento de que a grandeza dos tribunais aconselha que as pompas (11) tradicionais e
milenares sejam respeitadas. Mas isso não impede que magistrados, promotores e ad-
35 vogados - como costuma acontecer nos dias de calor intenso - tirem os paletós antes
de colocar togas e becas. De resto, não existe nenhuma inconveniência de que traba-
lhos em foros, cartórios e atividades de acompanhamento e andamento de processos
sejam realizados por advogados e magistrados, por exemplo, sem gravatas. Se isso
pode ocorrer sem maiores constrangimentos no ambiente austero (12) dos tribunais,
40 por que não pode acontecer também nas repartições públicas, indústrias, estabeleci-
mentos comerciais e de prestação de serviços?
Não é lógico se manterem hábitos sem se saber ao certo quais são seus funda-
mentos. Os tempos são outros, exigem novas concepções (13), novos posicionamentos
sociais. Precisamos ter coragem para pôr abaixo o que não tem razão de ser. As novas
45 realidades exigem atitudes mais arejadas. Literalmente. Chega de sauna compulsória
(14) em roupa de gala(15). Abaixo a gravata, essa argola no pescoço dos que se di-
zem civilizados. Tenho esperança de que, brevemente, sem traumas, recalques ou
compromissos com o passado, poderemos finalmente ir para o trabalho em roupa es-
porte na tentativa de driblar o desconforto de nossos verões encasacados (...)
NICANOR FISCHER
Revista VEJA, 09.01.91.
Vocabulário:
(1) Surrealista – Fora da realidade.
(2) Equivocado – Enganoso, distorcido.
(3) Indefectível – Que tem que existir; irrevogável; que não falha, inevitável.
(4) Adereço – Enfeite, ornamento.
(5) Sóbrio – Não exagerado; razoável, equilibrado.
(6) Apologia – Elogio, louvor.
(7) Estético – Relativo à beleza, à harmonia.
(8) Viabilidade – Possibilidade de acontecer, de ser aplicado, de ser feito.
(9) Talar – Que desce até o calcanhar.
(10) Gravidade – Seriedade, sisudez, austeridade.
(11) Pompa – Grande luxo, imponência.
(12) Austero – Severo, sério, rigoroso, exigente.
(13) Concepção – Ideia, conceito, ponto de vista, opinião.
(14) Compulsório – Obrigatório.
(15) Roupa de gala – Traje para solenidades.
"A atitude, no entanto, em nada diminuiu a imagem de autoridade que..." (L.22/23)
Assinale a letra onde a troca da expressão destacada na passagem acima altera o seu sentido básico da frase: