Questão 764149

Língua Portuguesa · 2006

Questão

ID 764149

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Possibilidades de Paralelismo

Ano: 2006 Banca: Fundação CESGRANRIO Órgão: Ministério da Defesa - Aeronáutica


Texto II

A fábula da cidade

Uma casa é muito pouco para um homem; sua

verdadeira casa é a cidade. E os homens não amam as

cidades que os humilham e sufocam, mas aquelas que

parecem amoldadas às suas necessidades e desejos,

5 humanizadas e oferecidas – uma cidade deve ter a medida

do homem.

É possível que, pouco a pouco, os lugares cordiais

da cidade estejam desaparecendo, desfigurados pelo

progresso e pela técnica, tornados monstruosos pela

10 conspiração dos elementos que obrigam as criaturas a

viver como se estivessem lutando, jungidas a um certo

número de rituais que as impedem de parar no meio

de uma calçada para ver uma criança, ou as levam a

atravessar uma rua como se estivessem fugindo da morte.

15 Em cidades assim, a criatura humana pouco ou

nada vale, porque não existe entre ela e a paisagem a

harmonia necessária, que torna a vida uma coisa digna.

E o habitante, escravizado pelo monstro, vai-se repetindo

diariamente, correndo para as filas dos alimentos, dos

20 transportes, do trabalho e das diversões, proibido de

fazer algo que lhe dê a certeza da própria existência.

(...)

Para que se ame uma cidade, é preciso que ela

se amolde à imagem e semelhança de seus munícipes,

25 possua a dimensão das criaturas humanas. Isso não

quer dizer que as cidades devam ser pequenas; significa

apenas que, nas mudanças e transfigurações, elas

crescerão pensando naqueles que as habitam e

completam e as tornam vivas. Pois o homem é para a

30 cidade como o sangue para o corpo – fora disso, dessa

harmoniosa circulação, há apenas cadáveres e ruínas.

O habitante deve sentir-se livre e solidário, e não

um guerreiro sozinho, um terrorista em silêncio. Deve

encontrar na paisagem os motivos que o entranham à

35 vida e ao tempo. E ele não quer a paisagem dos turistas,

onde se consegue a beleza infensa dos postais

monumentalizados; reclama somente os lugares que lhe

estimulem a fome de viver, sonegando-o aos cansaços e

desencantos. Em termos de subúrbio, ele aspira ao bar

40 debaixo de árvores, com cervejinha gelada e tira-gosto, à

praça com play-ground para crianças, à retreta coroada

de valsas.

Suprimidas as relações entre o habitante e seu

panorama, tornada incomunicável a paisagem, indiferente

45 a cidade à fome de simpatia que faz alguém preferir uma

rua à outra, um bonde a um ônibus, nada há mais que

fazer senão alimentar-se a criatura de nostalgia e guar-

dar no fundo do coração a imagem da cidade comunicante,

o reino da comunhão humana onde se poderia dizer “bom

50 dia” com a convicção de quem sabe o que isso significa.

LEDO, Ivo. A Cidade e os Dias.

Assinale a opção em que NÃO há correspondência entre a passagem transcrita e o sentido a ela atribuído.

Alternativas da questão 764149
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