Questão 739285

Língua Portuguesa · 2004

Questão

ID 739285

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Objetividade e Subjetividade na Comunicação

Ano: 2004 Banca: CESPE CEBRASPE - Centro de Seleção e de Promoção de Eventos UnB Órgão: Instituto Rio Branco


Texto II – itens de 16 a 20 e 29-30

1____Além de serem interdependentes, identidade e

diferença partilham uma importante característica: elas são o

resultado de atos de criação lingüística. Isso significa dizer que

4 não são “elementos” da natureza, que não são essências, que

não são coisas que estejam simplesmente aí, à espera de serem

reveladas ou descobertas, respeitadas ou toleradas. A identidade

7 e a diferença têm de ser ativamente produzidas. Somos nós que

as fabricamos no contexto de relações culturais e sociais. Elas

são criadas por meio de atos de linguagem.

10___Como ato lingüístico, a identidade e a diferença estão

sujeitas a certas propriedades que caracterizam a linguagem em

geral. Por exemplo, segundo o lingüista Saussure, a linguagem

13 é, fundamentalmente, um sistema de diferenças, os

elementos — os signos — que constituem uma língua não têm

qualquer valor absoluto. Reencontramos, aqui, não a idéia de

16 diferença como produto, mas como a operação ou o processo

básico de funcionamento da língua e, por extensão, de

instituições culturais e sociais, como a identidade, por exemplo.

19___Derrida acrescenta a isso a idéia de traço: o signo

carrega sempre não apenas o traço daquilo que ele substitui,

mas também o traço daquilo que ele não é, ou seja,

22 precisamente a diferença.

A identidade, tal como a diferença, é uma relação

social. Sua definição — discursiva e lingüística — está sujeita a

25 vetores de força, a relações de poder. A afirmação da

identidade e a enunciação da diferença traduzem o desejo dos

diferentes grupos sociais, assimetricamente situados, de garantir

28 o acesso privilegiado aos bens sociais. O poder de definir a

identidade e de marcar a diferença não pode ser separado das

relações mais amplas de poder.

Tomaz Tadeu da Silva. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2 0 0 0 , p. 76 (com adaptações) .

Texto III – itens de 21 a 30

1____A ética contemporânea faz grande alvoroço em torno

das diferenças culturais. Sua concepção do outro tem em vista

essencialmente esse tipo de diferenças. E seu grande ideal é a

4 coexistência tranqüila das comunidades culturais, religiosas,

nacionais etc., a recusa da “exclusão”.

Mas é preciso sustentar que essas diferenças não têm

7 qualquer interesse para o pensamento, não são mais que a

evidente multiplicidade infinita da espécie humana, a qual é tão

flagrante entre mim e meu primo de Lyon como entre a

10 comunidade xiita do Iraque e os cowboys do Texas.

O embasamento objet ivo (ou à maneira de

historiador) da ética contemporânea é o culturalismo, a

13 fascinação verdadeiramente turística pela multiplicidade dos

hábitos, dos costumes, das crenças. E especialmente pela

inevitável bizarria das formações imagin árias (religiões,

16 representações sexuais, formas de encarnação da autoridade...).

Sim, o essencial da “objetividade” ét ica provém de uma

sociologia vulgar, diretamente herdada do espanto colonial

19 diante dos selvagens, ficando entendido que os selvagens estão

também entre nós (drogados dos subúrbios, comunidades

religiosas, seitas: todo o aparato jornalístico da ameaçadora

22 alteridade interna), ao que a ética, sem mudar o dispositivo de

investigação, opõe seu “reconhecimento” e seus trabalhadores

sociais.

25___Contra essas descrições fúteis (tudo o que nos contam

ali é uma realidade ao mesmo tempo evidente e por si mesma

inconsistente), o pensamento verdadeiro deve afirmar o

28 seguinte: sendo as diferenças o que há, e toda verdade sendo o

vir-a-ser do que ainda não é, as diferenças são precisamente o

que toda verdade deposita, ou faz aparecer, como insignificante.

31 Nenhuma situação concreta é esclarecida em razão do

“reconhecimento do outro”. Em toda configuração coletiva

moderna, há pessoas de toda parte, que comem

34 diferentemente, falam múltiplos idiomas, usam diferentes

chapéus, praticam diferentes ritos, têm uma relação complicada

e variável com a coisa sexual, amam a autoridade ou a

37 desordem; e assim segue o mundo.

A. Badiou. Ética: um ensaio sobre a consciência do mal. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995, p. 40-1 (com adaptações).

Com relação aos textos II e III, julgue os itens seguintes.



No texto II, o autor assume que as relações de poder permeiam a construção de identidade, ao passo que, no texto III, essas relações são sugeridas pelos julgamentos de valor ali presentes, sem que, no entanto, seja ressaltada a relação assimétrica entre os grupos sociais.

Alternativas da questão 739285
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