Questão
ID 66003Disciplina: Língua Portuguesa
Assuntos: Palatalização, Variação Diacrônica (Variação Temporal)
Ano: 2025 Banca: PERFIL - ENADE Órgão: Quarto Simulado Pnd
Um professor de um curso de Letras, ao discutir a formação do léxico do português, apresenta aos seus alunos o conceito de 'palavra patrimonial' e 'cultismo', utilizando o doblete cheio/pleno, ambos derivados do latim PLENUM. Para aprofundar a discussão, ele se baseia no seguinte texto de um manual de filologia românica:
'A coexistência de dobletes lexicais como cheio e pleno é um testemunho da dupla via de transmissão do léxico latino para o português. A palavra patrimonial, cheio, entrou na língua pela via oral, popular, sofrendo ao longo dos séculos as transformações fonéticas regulares do latim vulgar para o português, como a palatalização do grupo /pl/ inicial (PLENUM > cheo > cheio). Por outro lado, o cultismo, pleno, foi reintroduzido na língua muito mais tarde, a partir do Renascimento, pela via escrita e erudita. Por ter sido 'emprestado' diretamente do latim clássico dos livros, ele não sofreu as mesmas alterações fonéticas, mantendo uma forma muito mais próxima da original. Essa dupla origem resulta em uma diferenciação semântica e estilística no português sincrônico. 'Cheio' é a palavra de uso geral, mais concreta e coloquial ('copo cheio'). 'Pleno', por sua vez, adquiriu um valor mais abstrato, formal e erudito ('silêncio pleno', 'felicidade plena'). A análise diacrônica, portanto, é a chave para explicar uma complexidade da variação lexical e estilística da língua em seu estado atual. A tarefa do professor da Educação Básica é sensibilizar o aluno para essa riqueza, mostrando que a escolha entre 'cheio' e 'pleno' não é indiferente, mas um marcador de registro e de intenção discursiva.'
A partir dessa perspectiva, avalie as seguintes asserções.
I. A palavra 'cheio' é considerada um cultismo porque sua evolução fonética foi interrompida, mantendo-se idêntica à forma latina original.
II. O ensino de vocabulário na escola deve tratar 'cheio' e 'pleno' como sinônimos perfeitos, incentivando seu uso intercambiável em qualquer contexto para simplificar a aprendizagem.
III. A compreensão da origem histórica (diacrônica) do doblete cheio/pleno permite ao falante compreender a sua especialização de uso (sincrônica) no português contemporâneo, desenvolvendo sua competência estilística.