Questão
ID 647910Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Crônica
Ano: 2014 Banca: IDECAN - Instituto de Desenvolvimento Educacional, Cultural e Assistencial Nacional Órgão: Departamento Estadual de Trânsito de Rondônia
Texto
Retrato falado
Uma das coisas que não entendo é retrato falado. Em filme policial americano, no retrato falado sai sempre a cara do criminoso, até o último cravo. Mas na vida real, que nada tem de filme americano, o retrato falado nunca tem o menor parentesco com a cara do cara que acaba sendo preso.
– Atenção. Aqui está um retrato falado do homem que estamos procurando. Foi feito de acordo com a descrição de dezessete testemunhas do crime. Decorem bem a sua fisionomia. Está decorada?
– Sim, senhor.
– Então, procurem exatamente o contrário deste retrato. Não podem errar.
Imagino os problemas que não deve ter o artista encarregado dos retratos falados na polícia. Um homem sensível obrigado a conviver com a imprecisão de testemunhas e as rudezas da lei.
– O senhor mandou me chamar, delegado?
– Mandei, Lúcio. É sobre o seu trabalho. Os seus últimos retratos falados...
– Eu sei, eu sei. É que estou numa fase de transição, entende? Deixei o hiper‐realismo e estou experimentando com uma volta as formas orgânicas e...
– Eu compreendo, Lúcio. Mas da última vez que usamos um retrato falado seu, a turma prendeu um orelhão.
O pior deve ser as testemunhas que não sabem descrever o que viram.
– O nariz era assim, um pouco, mais ou menos como seu, inspetor.
– E as sobrancelhas? As sobrancelhas são importantes.
– Sobrancelhas? Não sei... como as suas, inspetor.
– E os olhos?
– Os olhos claros, como os...
– Já sei. Os meus. O queixo?
– Parecido com o seu.
– Inspetor, onde é que o senhor estava na noite do crime?
– Cala a boca e desenha, Lúcio.
E há os indecisos.
– Era chinês.
– Tem certeza?
– Ou era chinês ou tinha dormido mal.
E deve haver a testemunha literária!
– Nariz adunco, como de uma ave de rapina. A testa escondida pelos cabelos em desalinho. Pelos seus olhos, vez que outra, passava uma sombra como uma má lembrança. A boca de uma sensualidade agressiva mas ao mesmo tempo tímida, algo reticente nos cantos, com uma certa arrogância no lábio superior que o lábio inferior refutava e o queixo desmentia. Narinas vívidas, como as de um velho cavalo. Mais não posso dizer porque só o vi por dois segundos.
Os sucintos:
– Era o Charles Bronson com o nariz da Maria Alcina.
– Tipo Austregésilo de Athayde, mas com bigodes mexicanos.
– Uma miniatura de cachorro boxer, comandante da Varig e beque do Madureira.
– Bota aí: a testa do Jaguar, o nariz do Mitterrand, a boca do porteiro do antigo Fred’s e o queixo da Virgínia Woolf. Uma orelha da Jaqueline Kennedy e a outra, estranhamente, do neto do Getty.
– A Emilinha Borba de barba depois de um mal voo na ponte aérea com o Nélson Ned.
E há as surpresas.
– Bom, era um cara comum. Sei lá. Nariz reto, boca do tamanho médio, sem bigode. Ah, e um olho só, bem no meio
da testa.
O ciclope ataca outra vez!
Experimente você dar as características para o retrato falado de alguém.
– Os olhos de Sandra Brea. Um pouco menos sobrancelha. O nariz de Claire Bloom de 15 anos atrás. A boca de Cláudia Cardinale. O queixo da Elizabeth Savala. Um seio de Laura Antonelli e outro da Sydne Rome. As pernas da Jane Fonda.
– Feito. Mas quem é essa?
– Não sei, mas se encontrarem, tragam‐na para mim depressa. E viva!
(Luis Fernando Veríssimo. Retrato falado. In: PINTO, Manuel da Costa. Crônica brasileira contemporânea. São Paulo: Salamandra, 2008.)
Releia o seguinte trecho da crônica e analise a validade das afirmações: “Em filme policial americano, no retrato falado sai sempre a cara do criminoso, [...]” (1º§).
I. Os termos que compõem esse trecho estão ordenados, do ponto de vista sintático, na ordem indireta.
II. A expressão “retrato falado” desempenha a função sintática de sujeito do verbo “sair”.
III. A vírgula foi usada depois da expressão “em filme policial americano” para isolar uma informação deslocada.
Está(ão) correta(s) a(s) afirmativa(s)