Questão
ID 629667Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Ironia
Ano: 2022 Banca: QUADRIX - Instituto Quadrix Órgão: Conselho Regional de Serviço Social da 7ª Região
Texto para os itens de 1 a 20.
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1-------Inevitavelmente eu me lembro daquela fraseInevitavelmente eu me lembro daquela frase
horrorosa, não sei de que autor, sobre pessoas que se
reuniam na noite de 31 de dezembro “para providenciar a
4-passagem do ano”.passagem do ano”.
------- Para muitos de nós, os inquietos, os desorganizados,
a festa de fim de ano acaba sendo isso: mais uma providência
7--a tomar. Outro problema. E ao lado dessa vaga alegria, dessaa tomar. Outro problema. E ao lado dessa vaga alegria, dessa
escassa boa vontade de Natal, há um outro sentimento mais
frequente que nos assalta diante das vitrinas enfeitadas: a
10--aflição de Natal. Recebo alguns cartões, raríssimos presentes,aflição de Natal. Recebo alguns cartões, raríssimos presentes,
e me quedo perplexo. As árvores artificiais, as estrelas
artificiais, todo esse mau gosto colorido das vitrinas, que a
13--princípio é alegre, acaba sendo aflitivo: o Comércio faz umaprincípio é alegre, acaba sendo aflitivo: o Comércio faz uma
estranha ofensiva contra o Consumidor, que recua, hesita,
avança, foge, preso às peias de um orçamento medíocre.
16--------“Comprem, comprem”! A Publicidade faz sua grande“Comprem, comprem”! A Publicidade faz sua grande
farra de fim de ano, e nós é que devemos pagá-la. Uma garrafa
de bebida deixa de ser uma garrafa de bebida, é um mimo
19--envolvido em cores álacres, cercado de frases festivas eenvolvido em cores álacres, cercado de frases festivas e
exclamações: assim todas as coisas perdem seu ar honesto e
vulgar, afetam uma gratuita alegria e convencional boa
22--vontade. E a burguesia faz surrealismo sem o saber. Que existevontade. E a burguesia faz surrealismo sem o saber. Que existe
de mais tocante e louco do que receber votos de feliz Natal e
grandioso Ano Bom não de uma pessoa, mas de uma firma
25--comercial, um banco, um ser jurídico? Não é o homem dacomercial, um banco, um ser jurídico? Não é o homem da
empresa que nos saúda alegremente, de cristão para cristão: é
a própria sociedade anônima que se faz afetuosa, que exprime
28--os bons sentimentos que empolgam seu espírito de estatutoos bons sentimentos que empolgam seu espírito de estatuto
ou sua alma de balancete.
Sei que o remédio é sentar diante de uma folha de
31--papel e fazer uma lista de amizades com endereços parapapel e fazer uma lista de amizades com endereços para
mandar cartões; e, quando possível, mimos. Mas para isso é
preciso ser inconsciente ou ter essa estranha coragem de fazer
34--um balancete sentimental, admitir ou demitir pessoas de nossaum balancete sentimental, admitir ou demitir pessoas de nossa
lista, pesar a lembrança das criaturas humanas dentro de nosso
peito, misturar saudade com consideração, conveniência,
37--consideração, gratidão por algum serviço ou fineza, com amorconsideração, gratidão por algum serviço ou fineza, com amor
ou simpatia gratuitos. É uma tarefa que sempre parecerá dura
a qualquer pessoa sensível e ao mesmo tempo odiosa e
40--melancólica. Há os esquecimentos, as omissões...melancólica. Há os esquecimentos, as omissões...
E na rua as lojas oferecem brilhantes aparelhos
elétricos, livros, discos, cestas abundantes de comeres e
43--beberes, facilidades de pagamento, falsos abonos, combeberes, facilidades de pagamento, falsos abonos, com
imensos papais-noéis de sorriso comercial — toda uma
alucinada orgia mercantil — em nome do menino Jesus,
46--menino tão pobrezinho que se tivesse nascido num morro domenino tão pobrezinho que se tivesse nascido num morro do
Rio estaria talvez internado, se tivesse sorte para arranjar uma
vaga naquele hospital que a prefeitura tem para crianças
49--doentes e miseráveis — Hospital Jesus...doentes e miseráveis — Hospital Jesus...
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Rubem Braga. O menino. In: Correio da Manhã, dez. 1952.
Internet: <cronicabrasileira.org.br> (com adaptações).
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Acerca das ideias e dos aspectos linguísticos do texto, julgue os itens de 1 a 7.
No último parágrafo, o autor faz uso de ironia, especialmente ao indicar o nome do hospital em que talvez estaria internado o menino Jesus caso nascesse em um morro do Rio.