Questão
ID 578423Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Casos Especiais de Crase
Ano: 2024 Banca: FUNDATEC - Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências Órgão: Câmara Municipal de Piracicaba
O poder dos nomes compostos
Por Fabrício Carpinejar
- Meus pais _____ nomes compostos, seus irmãos _____ nomes compostos.
- Na família paterna, além de meu pai Luiz Carlos Verzoni Nejar, _____ os tios Luiz Paulo
- Verzoni Nejar e Sady José Verzoni Nejar (in memoriam), e as tias Maria do Carmo Abott, Maria
- Cristina Nejar, Maria da Graça Nejar e Rosa Maria Nejar.
- Do tronco materno, minha mãe é Maria Elisa Carpi, minha tia é Cléa Ana Carpi.
- Do mesmo modo, as primas da minha esposa são Maria: Maria Clara, Maria Geralda, Maria
- Lúcia, Maria Elisabeth, Maria Teresinha e Maria de Lourdes. Das dez gestações, seis são
- mulheres, com o batismo semelhante.
- Os nomes das pessoas mais antigas são compridos como fazendas. São extensos como
- estradas. Carregava-se uma lógica genealógica de prefixos na família grande. Como um princípio
- de ordenação, de hierarquia do caçula ao primogênito.
- Eu acho bonita a existência desses seres gêmeos de nome. Gêmeos do cartório.
- Você contava com um nome suplente. Um nome secreto. Um nome para ser guardado.
- Um nome para ser economizado.
- A família chamava de um jeito, os amigos de outro. O trabalho destacava uma forma de
- nominação, a intimidade escolhia outra. Você desfrutava de uma versatilidade em diferentes
- ambientes. Não se enjoava de si, dispunha de mais de uma maneira de se declarar.
- Meu pai prefere o Carlos — o Luiz passa a ser o seu duplo escondido. Minha mãe privilegia
- a Maria — a Elisa é sua alma reservada.
- Quem tem hoje três irmãos, e pensa que os pais exageraram na dose, não faz ideia da
- multidão de crias pela casa. Um quarto sozinho era uma sandice, um desejo nababesco, uma
- realidade impossível. Você se via dividindo as camas, os armários, os cadernos, os livros, as
- roupas, os brinquedos.
- Prevalecia uma reação de manada. O nome coletivo nem sempre facilitava. Quando um
- dos filhos era repreendido, todos olhavam.
- A duplicidade não acontecia devido .... um problema de memória dos pais, numa
- dificuldade de listar um por um da prole fértil, ou por indecisão sobre o significado dos nomes,
- ou por ausência de criatividade, ou num ato diplomático para compor dissidências e agradar ....
- gregos e troianos. Tratava-se de um fundamento de sobrevivência do legado, assinalando uma
- homenagem a um parente — vô ou vó, bisavô ou bisavó.
- Representava um artifício de perpetuação familiar. Havia a necessidade de preservar a
- memória sofrida dos antecessores, numa resistência genética a partir da escrita.
- Evitava-se a repetição dos nomes paterno e materno, com o acréscimo de Júnior, por
- exemplo. Procurava-se beneficiar gerações mais remotas.
- O nome em comum correspondia também a um recurso para mitigar perdas. Diante da
- alta taxa de mortalidade infantil, nunca se sabia quem iria chegar .... fase adulta.
- Assim se criava uma dinastia de Luiz, ou João, ou Pedro, bem como uma escadinha de
- Maria ou Ana.
- Observando com atenção os meus pais aos seus 85 anos, entendo cada vez mais o motivo
- de seus nomes numerosos. Foi providencial para o tamanho de suas tarefas. Nada veio fácil para
- eles. Tiveram que ser vários ao longo da vida, um exército de versões para se revezar na
- resiliência. Atravessaram uma guerra mundial, a Guerra Fria e as duas enchentes que
- devastaram Porto Alegre.
(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/carpinejar/noticia/2024/06/o-poder-dos-nomes-compostoshtml – texto adaptado especialmente para esta prova).
Considerando o emprego do acento indicativo de crase, assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas pontilhadas das linhas 26, 28 e 36.