Questão
ID 562258Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Indicativo
Ano: 2010 Banca: ACEP - Associação Catarinense de Estudos e Pesquisas Órgão: Banco do Nordeste do Brasil
Uma Esperança
- Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim
- nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.
- Houve o grito abafado de um de meus filhos:
- — Uma esperança! E na parede bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas
- esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem
- ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra
- e verde não podia ser.
- — Ela quase não tem corpo, queixei-me.
- — Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava
- das duas esperanças.
- Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente
- uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.
- — Ela é burrinha, comentou o menino.
- — Sei disso, respondi um pouco trágica.
- — Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.
- — Sei, é assim mesmo.
- — Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.
- — Sei, continuei mais infeliz ainda.
- Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do
- lar para que não apagasse.
- — Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.
- Andava mesmo devagar — estaria por acaso ferida? Ah! não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem
- sido sempre assim comigo.
- Foi então que farejando o mundo que é comível saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me
- parecia a aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós
- também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa,
- sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:
- — É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...
- — Mas ela vai esmigalhar a esperança! Respondeu o menino com ferocidade.
- — Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros — falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo
- cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe
- diria apenas: — você faça o favor de facilitar o caminho da esperança.
- O menino, morta a aranha, fez um trocadilho com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo
- televisão, ouviu e riu de prazer. Não há dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.
- Mas como é bonito o inseto: mas pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso
- explica porque eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.
- Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta pousara no meu braço. Não senti nada, de
- tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço
- e pensei: “e essa agora? Que devo fazer?” Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido
- em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada.
LISPECTOR, Clarice. Uma Esperança. Jornal do Brasil, 10 de maio de 1969.
Na frase “Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita” ( ℓ . 15), o verbo sublinhado: