Questão
ID 562254Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Artigo Indefinido
Ano: 2010 Banca: ACEP - Associação Catarinense de Estudos e Pesquisas Órgão: Banco do Nordeste do Brasil
Uma Esperança
- Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim
- nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.
- Houve o grito abafado de um de meus filhos:
- — Uma esperança! E na parede bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas
- esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem
- ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra
- e verde não podia ser.
- — Ela quase não tem corpo, queixei-me.
- — Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava
- das duas esperanças.
- Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente
- uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.
- — Ela é burrinha, comentou o menino.
- — Sei disso, respondi um pouco trágica.
- — Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.
- — Sei, é assim mesmo.
- — Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.
- — Sei, continuei mais infeliz ainda.
- Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do
- lar para que não apagasse.
- — Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.
- Andava mesmo devagar — estaria por acaso ferida? Ah! não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem
- sido sempre assim comigo.
- Foi então que farejando o mundo que é comível saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me
- parecia a aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós
- também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa,
- sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:
- — É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...
- — Mas ela vai esmigalhar a esperança! Respondeu o menino com ferocidade.
- — Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros — falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo
- cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe
- diria apenas: — você faça o favor de facilitar o caminho da esperança.
- O menino, morta a aranha, fez um trocadilho com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo
- televisão, ouviu e riu de prazer. Não há dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.
- Mas como é bonito o inseto: mas pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso
- explica porque eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.
- Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta pousara no meu braço. Não senti nada, de
- tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço
- e pensei: “e essa agora? Que devo fazer?” Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido
- em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada.
LISPECTOR, Clarice. Uma Esperança. Jornal do Brasil, 10 de maio de 1969.
No trecho “Não uma aranha, mas me parecia a aranha” (. 24-25), a troca do artigo indefinido pelo artigo definido instaura um efeito de sentido que pode ser descrito como: