Questão 537678

Língua Portuguesa · 2004

Questão

ID 537678

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Inferência Textual

Ano: 2004 Banca: CESPE CEBRASPE - Centro de Seleção e de Promoção de Eventos UnB Órgão: Agência Nacional de Telecomunicações


Texto para os itens de 1 a 10

Sem espelho falante

1 A vida em Estouros, povoado a 290 km de Belo Horizonte, segue um ritmo que parece eterno. Não é necessário relógio.

Acorda-se com o raiar do Sol e dorme-se quando as estrela s começam a surgir. Os homens trabalham a terra e as mulheres cuidam

da casa e dos filhos. Nas refeições, as famílias se alimentam daquilo que a terra lhes devolve. Os jornais só aparecem para

4 embrulhar encomenda. Estouros é um lugar sem aquele eletrodoméstico que ocupa o lugar central na residência da maioria dos

brasileiros — um aparelho de TV. O que é a TV?

O menino Carlos, 10 anos, sete irmãos criados por um lavrador, que todos os dias caminha 12 km para ir à escola e

7 voltar, explica: “É uma caixa de som com um espelho na frente.” O irmão mais velho, Wilson, já viu TV nas redondezas. Mas,

se pudesse, Wilson não compraria um aparelho. Uma égua de 3 anos teria maior utilidade: “Eu descansaria das pernas. A gente

anda sempre a pé ou no caminhão do leite.” Wilson assistiu à exibição de um programa de reportagens ao vivo e ficou de olhos

10 esbugalhados. Não se conforma até hoje: “A gente vê batida de carro, roubo”, espanta-se. “Aqui não tem nada disso.

Tem bandido que mata a pessoa à toa. Aqui a gente mata porco. E para comer.”

É mesmo estranha a vida sem o espelho falante do pequeno morador. Serra Velha, em Santa Catarina, com 300 habitantes

13 e 60 casas, é um povoado encravado em uma montanha e seu acesso é restrito a uma única estrada. Ali nunca se ouviu falar do

pacote do ministro da Fazenda. Tampouco de Roberto Carlos ou Pelé. O ídolo naquelas paragens é o professor Santanor, único

na região, proprietário de uma caminhonete que faz 30 km por hora como velocidade máxima. Pessoa mais bem informada da

16 cidade, o professor não sabe o nome do cidadão que exerce o cargo de presidente da República.

Esse país indiferente à passagem do tempo, mais pobre e menos confortável, mas pacífico, integra uma das mais

bem-sucedidas utopias nacionais. A do Brasil rural, de pessoas simples e valores estabelecidos, de pequenos heróis e pequenos

19 vilões naturais em qualquer parte. É um país delicioso de ver e explorar, como descobriram as novelas rurais que a TV produz

e eles não vêem. Mas é uma utopia urbana achar que o povo desses lugares quer ficar assim. TV é eletricidade, eletricidade é

progresso e não há como preferir um lampião de querosene a uma lâmpada, nem é possível achar que o cidadão que não sabe o

22 nome do presidente é mais feliz do que aquele capaz de recitar a lista de todos os ocupantes do Planalto de 1964 para cá.

Há seis meses, em Lagoa do Oscar, lugarejo do interior de Minas, correu o boato de que, enfim, os postes de luz

chegariam ao local. Foi um alvoroço. O roceiro Domingos, um senhor já de meia-idade, percorreu 110 km apenas para fazer uma

25 troca. Entregou uma espingarda nova para um muambeiro, que lhe deu uma TV portátil trazida do Paraguai. O roceiro aguardou

quatro meses pela luz. Como ela não veio, vendeu a TV para um caminhoneiro. Mas não desistiu. “As crianças só falam do dia

em que terão uma TV em casa”, diz.

28 Com 3.000 moradores, a 700 km de Salvador, Muquém é outro exemplo. Ali não existe luz elétrica, água encanada nem

rede de esgoto. Mas tem TV. Um aparelho, de propriedade da prefeitura, ligado a um gerador a óleo dísel. Todos os dias, um

funcionário pega o televisor de 20 polegadas em um barraco onde ele fica trancado e o transporta até a praça da cidade. Ali, cercada

31 com arames farpados, a TV fica ligada das 6 da tarde até às 11 da noite. Até o prefeito acha um absurdo. “É um luxo gastar

dinheiro com isso”, reconhece. Mas não há alternativa. Desde que a TV foi instalada, no final de 1991, é sucesso absoluto. Nos

dias normais, reúne 30 pessoas na praça. Em grandes momentos, passa de 80.

Veja, 5/1/1994 (com adaptações).

Os itens seguintes apresentam adaptações de passagens dos parágrafos do texto, na ordem em que estes se apresentam. Julgue-os quanto à correção gramatical.



Apesar de o prefeito de Muquém, na Bahia, achar um absurdo gastar dinheiro público com distração, em um lugar onde não existe luz elétrica, água encanada nem rede de esgoto, todos os dias um funcionário leva um aparelho de TV até a praça da cidade para a população se divertir das 18 às 23 horas.

Alternativas da questão 537678
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