Questão
ID 537461Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Dêitico
Ano: 2014 Banca: CESPE CEBRASPE - Centro de Seleção e de Promoção de Eventos UnB Órgão: Agência Nacional de Telecomunicações
1 --------------As traduções são muito mais complexas do que se imagina.
------Não me refiro a locuções, expressões idiomáticas, gírias, flexões
------verbais, declinações e coisas assim. Isso pode ser resolvido de uma
4 ---maneira ou de outra, se bem que, muitas vezes, à custa de intenso
------sofrimento por parte do tradutor. Refiro-me à impossibilidade de
------encontrar equivalências entre palavras aparentemente sinônimas,
7 ---unívocas e univalentes. Por exemplo, um alemão que saiba português
------responderá sem hesitação que a palavra da língua portuguesa
------“amanhã” quer dizer “morgen”. Mas coitado do alemão que vá para
10 --o Brasil acreditando que, quando um brasileiro diz “amanhã”, está
------realmente querendo dizer “morgen”. Raramente está. “Amanhã” é
------uma palavra riquíssima e tenho certeza de que, se o Grande Duden
13 --fosse brasileiro, pelo menos um volume teria de ser dedicado a ela
------e a outras que partilham da mesma condição.
---------------“Amanhã” significa, entre outras coisas, “nunca”, “talvez”,
16 --“vou pensar”, “vou desaparecer”, “procure outro”, “não quero”, “no
------próximo ano”, “assim que eu precisar”, “um dia destes”, “vamos
------mudar de assunto” etc. e, em casos excepcionalíssimos, “amanhã”
19 --mesmo. Qualquer estrangeiro que tenha vivido no Brasil sabe que
------são necessários vários anos de treinamento para distinguir qual o
------sentido pretendido pelo interlocutor brasileiro, quando ele responde,
22 --com a habitual cordialidade, que fará tal ou qual coisa amanhã. O
------caso dos alemães é, seguramente, o mais grave. Não disponho de
------estatísticas confiáveis, mas tenho certeza de que nove em cada dez
25 --alemães que procuram ajuda médica no Brasil o fazem por causa de
------“amanhãs” casuais que os levam, no mínimo, a um colapso nervoso,
------para grande espanto de seus amigos brasileiros.
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João Ubaldo Ribeiro. A vida é um eterno amanhã. In: Um brasileiro em Berlim. 1993 (com adaptações).
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Em relação às ideias e a aspectos linguísticos do texto acima, julgue os itens subsequentes.
O pronome “ele” (l.21) tem como referente “Qualquer estrangeiro que tenha vivido no Brasil” (l.19).