Questão 507542

Língua Portuguesa · 2023

Questão

ID 507542

Disciplina: Língua Portuguesa

Assuntos: Reescrita e Reorganização de Textos de Diferentes Gêneros e Níveis de Formalidade, Reorganização e Reescrita de Orações e Períodos

Ano: 2023 Banca: Fundação CESGRANRIO Órgão: Petrobras Transporte S/A


O afogado mais bonito do mundo


1 \(\quad\) Sou antropófago. Devoro livros. Quem me ensinou foi Murilo Mendes: livros são feitos com a carne

e o sangue dos que os escreveram. Os hábitos de

antropófago determinam a maneira como escolho livros. Só leio livros escritos com sangue. Depois que

os devoro, deixam de pertencer ao autor. São meus

porque circulam na minha carne e no meu sangue.

2 \(\quad\) É o caso do conto “O Afogado Mais Bonito do

Mundo”, de Gabriel García Márquez. Ele escreveu.

Eu li e devorei. Agora é meu. Eu o reconto.

3 \(\quad\) É sobre uma vila de pescadores perdida em nenhum lugar, o enfado misturado com o ar, cada novo

dia já nascendo velho, as mesmas palavras ocas, os

mesmos gestos vazios, os mesmos corpos opacos, a

excitação do amor sendo algo de que ninguém mais

se lembrava...

4 \(\quad\) Aconteceu que, num dia como todos os outros,

um menino viu uma forma estranha flutuando longe no mar. E ele gritou. Todos correram. Num lugar

como aquele até uma forma estranha é motivo de

festa. E ali ficaram na praia, olhando, esperando. Até

que o mar, sem pressa, trouxe a coisa e a colocou

na areia, para o desapontamento de todos: era um

homem morto.

5 \(\quad\) Todos os homens mortos são parecidos porque

há apenas uma coisa a se fazer com eles: enterrar. E,

naquela vila, o costume era que as mulheres preparassem os mortos para o sepultamento. Assim, carre-

garam o cadáver para uma casa, as mulheres dentro,

os homens fora. E o silêncio era grande enquanto o

limpavam das algas e líquens, mortalhas verdes do

mar.

6 \(\quad\) Mas, repentinamente, uma voz quebrou o silêncio. Uma mulher balbuciou: “Se ele tivesse vivido entre nós, ele teria de ter curvado a cabeça sempre ao

entrar em nossas casas. Ele é muito alto...”.

7 \(\quad\) Todas as mulheres, sérias e silenciosas, fizeram

sim com a cabeça.

8 \(\quad\) De novo o silêncio foi profundo, até que uma outra voz foi ouvida. Outra mulher... “Fico pensando em

como teria sido a sua voz... Como o sussurro da brisa? Como o trovão das ondas? Será que ele conhecia aquela palavra secreta que, quando pronunciada,

faz com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque

no cabelo?” E elas sorriram e olharam umas para as

outras.

9\(\quad\) De novo o silêncio. E, de novo, a voz de outra

mulher... “Essas mãos... Como são grandes! Que

será que fizeram? Brincaram com crianças? Navegaram mares? Travaram batalhas? Construíram casas?

Essas mãos: será que elas sabiam deslizar sobre o

rosto de uma mulher, será que elas sabiam abraçar e

acariciar o seu corpo?”

10 \(\quad\) Aí todas elas riram que riram, suas faces vermelhas, e se surpreenderam ao perceber que o enterro

estava se transformando numa ressurreição: sonhos

esquecidos, que pensavam mortos, retornavam, cinzas virando fogo, os corpos vivos de novo e os rostos

opacos brilhando com a luz da alegria.

11 \(\quad\) Os maridos, de fora, observavam o que estava

acontecendo e ficaram com ciúmes do afogado, ao

perceberem que um morto tinha um poder que eles

mesmos não tinham mais. E pensaram nos sonhos

que nunca haviam tido, nos poemas que nunca haviam escrito, nos mares que nunca tinham navegado,

nas mulheres que nunca haviam desejado.

12\(\quad\) A história termina dizendo que finalmente enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma.


ALVES, R. Sobre como da morte brota a vida. F. de São Paulo. Cotidiano. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 20 abr. 2023. Adaptado.

A reescrita de “Eu li e devorei. Agora é meu. Eu o reconto” (parágrafo 2) que preserva o seu sentido no texto é:

Alternativas da questão 507542
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