Questão
ID 332379Disciplina: Contabilidade Geral
Assuntos: Contabilidade Comparada, Contabilidade no Contexto Internacional, Exemplificação, Sentidos do texto, Sistemas Contábeis no Âmbito Internacional, Variação Diastrática (Classe Social)
Ano: 2025 Banca: NOSSO RUMO - Instituto Nosso Rumo de Educação e Desenvolvimento Social Órgão: Secretaria de Estado da Fazenda
Profissão ou projetos profissionais
A análise da trajetória histórica da profissão contábil configura-se como um campo investigativo de singular relevância epistemológica. A historiografia desse objeto tem passado por uma significativa transição paradigmática, abandonando abordagens predominantemente técnico-celebratórias em favor de análises mais críticas e contextualizadas. Historicamente, a Contabilidade ocupou posição periférica nos estudos sobre sociologia das profissões e historiografia ocupacional, sendo frequentemente caracterizada como uma profissão emergente e mimética, em contraposição a campos profissionais mais consolidados, como medicina e direito.
A historiografia contemporânea, contudo, expandiu significativamente seu escopo analítico, examinando as intrincadas relações entre a profissão contábil e as dimensões estatais, culturais e econômicas em múltiplas escalas. Essa renovação metodológica evidencia como diferentes contextos nacionais desenvolveram estratégias específicas de legitimação profissional, desde a ênfase britânica em credenciais e reputação pública até a abordagem norte-americana fundamentada em pressupostos científicos.
Um aspecto particularmente notável neste processo é a plasticidade jurisdicional da profissão contábil, que reflete sua capacidade adaptativa frente a novas demandas mercadológicas, exemplificada pelo expressivo crescimento da auditoria corporativa (Boussebaa, 2015). Essa expansão, contudo, não se manifesta de maneira homogênea, sendo condicionada por fatores contextuais e, ocasionalmente, limitada por insuficiências técnicas, como se observou na Contabilidade de custos norte-americana em determinados períodos históricos (Fleischman & Tyson, 1999).
É imperativo, contudo, problematizar a noção de um arquétipo universal de profissionalização bem-sucedida. Walker (1999) argumenta que a consolidação profissional é intrinsecamente dependente da capacidade de um grupo ocupacional em reconhecer e mobilizar estrategicamente as contingências contextuais específicas. Abbott (1988) oferece um marco teórico fundamental para a análise dessa mobilização através do conceito de disputas jurisdicionais, evidenciando a constante renegociação das fronteiras ocupacionais entre profissões correlatas, como contadores, atuários e economistas.
A dimensão geopolítica emerge como elemento crucial na configuração da profissão contábil, particularmente no que concerne às influências do colonialismo e do nacionalismo. Estudos de casos emblemáticos, como Fiji e Trinidade e Tobago, ilustram trajetórias contrastantes de desenvolvimento profissional, revelando tensões significativas entre internacionalização e construção de identidades nacionais (Annisette, 2000; Davie, 2000). Ademais, a historiografia crítica tem iluminado as dimensões de exclusão social na profissão contábil, analisando como marcadores de raça, classe e gênero influenciaram historicamente o acesso e a participação neste campo. As questões de gênero, em particular, evidenciam barreiras estruturais persistentes à participação feminina (Gallhofer, 1998).
A discussão sobre inclusão e diversidade na Contabilidade tem sido amplamente abordada no contexto internacional, especialmente em países anglo-saxônicos (Kornberger et al., 2010; McNicholas et al., 2004). O fato de esse debate estar consolidado em outras regiões evidencia sua relevância e reforça a necessidade de considerá-lo também em outros contextos. No entanto, isso não implica que possamos simplesmente transpor as conclusões desses estudos para a realidade brasileira de forma direta e irrestrita. Uma das limitações recorrentes dessa produção acadêmica é a tendência ao universalismo, ou seja, a adoção de modelos desenvolvidos em contextos específicos sem a devida consideração das particularidades históricas e socioculturais de outras regiões. O caso brasileiro, por exemplo, demanda uma abordagem que reconheça como as desigualdades raciais e de classe estão enraizadas na estruturação da profissão, influenciando o acesso e a progressão na carreira contábil.
No contexto brasileiro, a análise da profissionalização contábil demanda investigações que transcendam a tendência reducionista de adotar modelos exógenos, particularmente o anglo-saxônico, como paradigmas normativos superiores. Ademais, é fundamental evitar generalizações que extrapolem análises circunscritas a determinadas regiões, como São Paulo, tratando-as como representativas da totalidade da realidade nacional. A historiografia da profissão contábil deve incorporar uma abordagem multiescalar, contemplando as dimensões local, regional e nacional, reconhecendo a heterogeneidade e as especificidades socioculturais que moldaram suas distintas trajetórias de institucionalização. Essa abordagem deve transcender a mera identificação dessas diferenças, buscando historicizar os achados em uma perspectiva comparativa. Tal procedimento implica compreender como a profissão contábil se desenvolveu em diferentes localidades do Brasil e como essas variações dialogam com tendências globais, permitindo a construção de análises que evidenciem não apenas as particularidades locais, mas também sua inserção em redes e dinâmicas transnacionais.
A articulação entre a história da Contabilidade e debates mais amplos sobre profissões e transformações sociais aprimora a compreensão das interações entre a Contabilidade, a sociedade e as estruturas de poder. Esta perspectiva amplia a aplicabilidade da pesquisa histórica para além dos limites disciplinares da Contabilidade, permitindo sua articulação com campos correlatos como finanças e atuária. O aprofundamento do exame dessas dinâmicas contribui para o desenvolvimento de marcos teóricos explicativos que transcendem abordagens meramente descritivas, oferecendo uma compreensão mais substantiva sobre as transformações e disputas que permeiam as profissões ao longo do tempo.
VASCONCELOS, Angélica. Além dos números: por uma abordagem crítica e cultural em Contabilidade, finanças e atuária. Revista Contabilidade & Finanças, São Paulo, v. 36, n. 97, p. 4 e 5, 2025. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rcf/a/vxtJVT7HRnXrxm4ggXFMpxG/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 21 set. 2025.
Com base na análise historiográfica da profissão contábil apresentada no texto, assinale a alternativa correta quanto às transformações epistemológicas e contextuais do campo contábil no escopo das ciências sociais aplicadas.