Questão
ID 2954830Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Contraposição
Ano: 2026 Banca: FUNDATEC - Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências Órgão: Prefeitura Municipal de Agudo
Amor
Por José Henrique Bortoluci
- Dayanna Louise é uma professora de 40 anos, nascida em Carpina, no interior de
- Pernambuco. Mulher trans, doutoranda em educação pela Universidade Federal de Sergipe, ela
- é também ativista dos direitos LGBTQIAPN+ e da educação pública. Ela me fala das armadilhas
- do amor na vida e na educação: “Eu não me reconheci como um corpo dissidente; quem
- começou a me reconhecer foram os outros. Um exemplo clássico: eu sempre queria brincar com
- as meninas, e as pessoas diziam que era errado. Quando ia à casa da minha avó, ficava isolada
- porque não podia brincar com minhas primas e não queria brincar com meus primos. Na
- adolescência, parei de me olhar no espelho. Eu internalizava a culpa por essas violências, por
- esse ciclo que vinha de muito tempo”.
- “Depois, teve uma virada de chave que tornou tudo mais complicado para mim, que foi
- quando minha família começou a se aproximar de igrejas neopentecostais. Então, eu passei a
- ser levada para as ‘correntes de libertação’ da Igreja Universal. Lembro que eu tinha uns
- 11, 12 anos, e minha família me levava do interior para a capital, para a matriz da Igreja
- Universal no Recife. E a lógica era: ‘Olha, o que está acontecendo é que você tem um espírito
- dentro de você, um espírito maligno’. E aí eu comecei a acreditar naquilo”.
- “Na adolescência, era mais difícil acessar outras informações, outros conceitos sobre as
- possibilidades de vida, então aquilo era o que chegava até mim. Eu não conseguia achar
- contrapontos. Eu entendo que existe um processo contraditório na relação que tenho com minha
- família, porque é claro que existe muita violência nessa tentativa de ‘curar’ pela fé quem eu era,
- mas entendo também que havia uma motivação genuína, que era o amor. Uma motivação que
- se realiza de maneira torta e injustificável. Era uma sessão de horror. Uma psicóloga me olhou
- e disse: ‘Estou aqui para descobrir o que você é e dizer aos seus pais. Mas, de antemão, se
- confirmar aquilo que eu suspeito, você vai mendigar amor pelo resto da sua vida. Pessoas como
- você não têm direito ao amor’.”.
- “O amor... Se a violência é justificada pelo amor, então eu tenho que desromantizar esse
- amor. Não é aquele amor bíblico que tudo supera, tudo suporta e por aí vai. Estou pensando
- nisso agora: acho que eu tenho acreditado nesse amor cada vez menos. Porque eu senti em
- minha vida o quanto o amor muitas vezes é acionado para justificar o injustificável. A gente vê,
- por exemplo, os debates da extrema direita: é amor a Deus, amor à pátria e à família. Mas, do
- meu lado político, também existem problemas. Parece também que o amor sempre entra nesses
- debates progressistas como uma forma de higienizar a discussão, de amansar as contradições”.
- “Eu venho do serviço social, e lembro que lá tem uma campanha, a única que a categoria
- profissional desenvolveu até hoje sobre pautas de diversidade sexual, que é: ‘O amor fala todas
- as línguas’. Eu pensava: ‘Gente, uma categoria que defende os direitos da classe trabalhadora,
- que defende os direitos humanos e justifica a promoção deles para a população LGBT, mas
- dizendo que o amor fala todas as línguas com um debate que é extremamente bíblico e cristão,
- é um absurdo!’ Eu ainda acho isso”.
(Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/geracao-democracia-parte-vi_a-aula-e-o-truque/ – texto adaptado especialmente para esta prova).
Relacione a Coluna 1 à Coluna 2, associando os trechos do texto às suas respectivas funções argumentativas.
Coluna 1
1. “Se a violência é justificada pelo amor, então tenho que desromantizar esse amor”.
2. “Quando ia à casa da minha avó, ficava isolada porque não podia brincar com minhas primas […]”.
3. “Uma categoria [...] dizendo que o amor fala todas as línguas [...] é um absurdo!”.
Coluna 2
( ) Exemplo concreto que fundamenta experiência pessoal.
( ) Conclusão avaliativa central que explicita a tese do texto.
( ) Ilustração de crítica social.
A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é: