Questão
ID 2934214Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Relação de Causa e Consequência
Ano: 2025 Banca: DECORP Órgão: Prefeitura Municipal de Rodrigues Alves
Leia o texto e responda às questões 01 e 02.
Os Sertões” (1902) – “A terra”
O sertão é, antes de tudo, um forte. E, no entanto, não se delineia no horizonte como colosso de montanha: estende-se, plano, monótono, com rarefeitas capoeiras, pedregais dispersos, vargedos cinzentos de catinga, onde a vida vegetal se economiza em espinhos, e a animal, em silêncios e bruscos arranques.
A atmosfera, ali, acusa extremos: ora o calor padece combustão de fornalha, ora a friagem desce, cortante, sobre currais de pedra. A terra, rachada, exibe fendas que, em tempo de chuva, revertem-se em riachos repentinos, devorando-se depois na sede do estio. Tudo é contraste. E, desse atrito de opostos, emerge o homem sertanejo: de musculatura seca, olhar de rasga-mar, temperado pela penúria, convertido em fusível vivo do ambiente.
O geólogo encontra, no solo, filões de quartzo que reverberam luz ao meio-dia; o biólogo anota metamorfoses de caatinga que, em poucas horas, veste-se de verde garça, só para morrer em súbita poeira; o historiador, enfim, descobrirá, sob cada lajedo de tapuia, sangue degredado, quilombola, bandeirante — cadastro épico que fez do Nordeste risca de coragem no mapa.
Mas o sertanejo não decifra tratados. Carrega nos ombros ferrugem de seca secular; sabe, pela intuição, que o palmo de chão, se não dá milho, dá mandacaru, e dele tirará seiva para seguir viagem. Quando a borrasca repreende o céu, cobre-se cedo, invoca santos e, embainhada a faca, espera retumbar trovão. Se a chuva falha, ergue novena, suplica e segue. Não é resignado: é resistente.
Assim se forjou a marcha de Canudos — povoado-milagre que, de meia dúzia de tapera, engordou-se em arraial onde a terra, recalcitrante, parecia jorrar fartura. Ali, Antônio Conselheiro ergueu o estandarte da fé em aparição messiânica, e, reunindo flagelados de seca e justiça, fez surgir exército que desafiou tropas legais.
A epopéia, que findará em estrepitoso canhoneio, começa, pois, na geografia. O sertão arma o homem, arma a guerra. E, quando a República, erguida nas salas de decreto do Rio, lança-lhe batalhões, estes, primeiro, hão de combater a terra — só depois, o jagunço. O calor racha o fuzil; a caatinga, áspera, rasga o fardamento; a distância consome mantimentos antes de chegar a pólvora.
Acima de tudo, paira silêncio lúgubre, cortado por aboios longínquos. É o sertão: palavra que não cabe em dicionário, porque muda consoante a hora do dia, a estação do ano, a sina do viajante. Nele, o passo humano mede-se em sufoco — mas, na mesma medida, a terra lhe injeta fôlego de quadrilátero heroico.
Eis por que a campanha de Canudos não deve ser lida apenas como guerra civil: é síntese de geologia, climatologia, sociologia e, por trás de tudo, drama metafísico. A natureza, nessa lonjura, é personagem; o homem, mero contra regra a quem cabe, no entanto, a glória de insistir.
Fonte: CUNHA, Euclides da. Os sertões. Rio de Janeiro: Laemmert, 1902. (Adaptado)
Segundo o autor, o sertão contribui para a formação do jagunço sobretudo ao: