Questão 2899958

Língua Portuguesa · 2025

Questão

ID 2899958

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Preciosismo

Ano: 2025 Banca: Instituto Legatus - Legatus Órgão: Prefeitura Municipal de Piripiri


Texto 1 - E o caga-lume deu à luz um pirilampo

Alguma dessas redes sociais em que bilionários americanos nos mantêm em cativeiro me apresenta, como compensação pela solicitude de minha servidão, um vídeo em que o linguista português Marco Neves conversa com seu compatriota sobre vaga-lumes.

Ou melhor: sobre caga-lumes, como se diz com mais frequência em Portugal. Ou pirilampos, se optarmos pela palavra majoritariamente usada por lá. Na verdade, a conversa era sobre essa diversidade: por que um inseto tão pequeno se cerca dessa riqueza vocabular?

Tudo indica que o caga-lume nasceu primeiro. O Houaiss situa o registro de estreia do termo em 1587, cerca de 200 anos antes de seu irmão mais educado, o vaga-lume, pousar pela primeira vez numa página impressa.

Presidiu o nascimento do vaga-lume a velha disposição do eufemismo –a força que leva vocábulos populares tidos como chulos a ganharem versões atenuadas ou disfarçadas.

Pena que o Houaiss, bom dicionário brasileiro de elevada ambição lusofônica, tropece ao registrar caga-lume como "brasileirismo". Pode ter sido traído pela fonte da datação da palavra, a obra histórica "Notícia do Brasil", de Gabriel Soares de Sousa.

Trata-se de um dos mais importantes trabalhos do século 16 sobre a terra brasílica, também conhecido como "Descrição verdadeira de todo o Estado pertencente à Coroa de Portugal, da fertilidade dessa província, de todas as aves, animais, peixes, bichos, plantas, que nelas há, e dos costumes dos seus naturais".

Por mais que houvesse novidades brasileiras em penca na obra de Soares de Sousa, a palavra "caga-lume", de raízes lusitanas tanto na etimologia quanto no gosto pela expressão crua, não seria uma delas – mesmo porque, àquela altura, praticamente só os colonizadores falavam tal língua por aqui. O dicionário Priberam classifica caga-lume, de modo mais plausível, como regionalismo português.

Há fortes evidências de que era a palavra preferida dos lusoparlantes d’além-mar para chamar o bichinho que pisca no escuro – embora tivesse a concorrência de um termo também pitoresco como luze-cu – até que, em fins do século 17, um grupo de intelectuais liderados pelo conde da Ericeira achou que aquilo não ficava bem.

Essa é a história contada por Marco Neves a Ricardo Araújo Pereira – a de como alguns portugueses cultos, dispostos a "civilizar" a língua espontânea do povo, criaram em laboratório com elementos gregos a palavra "pirilampo".

Esse tipo de intervenção não costuma dar certo. No caso, deu – e muito. Isto é, em Portugal.

No Brasil, onde o vaga-lume domina a cena, pirilampo é uma palavra de ranço preciosista, parnasiano. "Por que não nasci eu um simples vagalume?", escreveu Machado de Assis para fechar seu famoso soneto "Círculo vicioso".

Texto de Sérgio Rodrigues (adaptado), publicado em 12/11/25 e disponível em https://www1.folha.uol.com.br/ colunas/sergio-rodrigues/2025/11/ - Acesso em 13 de novembro de 2025.



Na seleção lexical “alguns portugueses cultos [...] criaram em laboratório com elementos gregos a palavra ‘pirilampo’”, o autor traz ao texto um efeito de sentido que ironiza o (a)

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