Questão
ID 2889305Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Emprego dos Tempos Verbais
Ano: 2025 Banca: FUNDATEC - Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências Órgão: Prefeitura Municipal de Soledade
Capricho do propósito
Por Fabrício Carpinejar
- — Ninguém está olhando.
- Foi assim que minha mãe me ensinou a escrever em casa, aos 6 anos, depois que recebi
- um diagnóstico de retardo mental. A escola já tinha jogado a toalha para a minha alfabetização.
- Éramos ela e eu, formávamos uma ilha nessa tarefa. Ela tirou licença do trabalho para
- me atender nos dois turnos. Acreditava tranquilamente no meu talento, eu percebia pelos seus
- olhos doces e amendoados sobre as folhas.
- — Não tenha pressa, ninguém está olhando, siga seu instinto — ela me orientava.
- A mãe aliviou os meus ombros da pressão, da competição da turma, do medo de não
- corresponder às expectativas.
- Ela contava com a certeza do meu potencial, antevia que o processo apenas aconteceria
- com um ritmo e estímulos diferentes do padrão.
- Eu errava na sala de aula não porque não compreendia, mas porque me desesperava com
- as respostas dos outros – rápidas e automáticas. A facilidade dos colegas se transformava na
- minha dificuldade.
- Durante dois meses, a figura materna criou jogos educativos para me dar prazer na hora
- de decifrar as sílabas. A alegria da descoberta não deveria ser imposta ou invasiva. Não poderia
- ser abolida pela obrigação de saber.
- Se eu rastejava, de repente, passei a voar. Fui do inferno ao céu sem escalas. Nem
- engatinhei, nem andei, tamanha a absorção do processo pedagógico. Engolia alturas de
- parágrafo em parágrafo.
- Em vez de soletrar ou gaguejar, comecei a ler de um golpe, num único fôlego. A mãe se
- espantou com o meu clique. É como se ela tivesse apertado algum botão dentro de mim,
- ajudando-me a emergir devoto da língua portuguesa.
- Para quem estava fadado ao analfabetismo por limitações cerebrais, ter se tornado
- escritor é, mais do que uma ironia do destino, o capricho do propósito, a prova maior de nossa
- capacidade de superação.
- Não nascemos nos amando. É alguém que nos serve de espelho. É alguém que nos inspira
- a nos amar. Para nascer o amor-próprio, basta que uma só pessoa confie em nós.
- Por mais que eu me ame, nunca chegarei aos pés do amor que minha mãe sente por mim.
(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/carpinejar/noticia/2025/11/capricho-do-proposito-cmhov3ks50233013bh5tkssrm.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
Assinale a alternativa que apresenta uma forma verbal conjugada no pretérito imperfeito do indicativo, assim como a palavra “errava” no trecho a seguir:
“Eu errava na sala de aula”.