Questão 2851101

Língua Portuguesa · 2023

Questão

ID 2851101

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Ironia

Ano: 2023 Banca: ICECE - Instituto Cearense de Educação, Cultura e Ecologia Órgão: Prefeitura Municipal de Horizonte


Leia o texto abaixo para resolver as questões de 01 a 03.

HISTÓRIA ALEGRE – RACHEL DE QUEIROZ

1 Era um arigó de cara larga, largo de ombros, largo de passos, riso mais largo ainda. Vestia uma

2 roupa surrada, as calças remendadas no joelho, tamanco no pé. Mas a sua alegria não era apenas

3 a famosa alegria de homem sem camisa: era mais complexa, de causa mais filosófica. Ela não

4 gozava a simples satisfação animal de viver; sentia-se um predestinado, um querido dos deuses.

5 “- Homem, não vê, dona – eu sempre fui pessoas de sorte. Desde o começo. Minha mãe teve onze

6 filhos, veio o garotilho e matou três num dia só, depois mais três foram morrendo de um em um,

7 de doença de criança, e quando apareceu o paratifo no 32, matou o resto. Quero dizer, matou o

8 resto menos eu. Fiquei sozinho com os velhos. Continuei vivendo nem sei como, que por esse

9 tempo esmirrado, amarelo, comedor de terra. Lá pelos quinze anos foi que comecei a botar corpo

10 de homem; também comia tanto que até fazia vergonha. E mode não ver a velha ralhar, acabado

11 o almoço eu ia na bodega escondido e comprava de bolacha o tostão que tinha no bolso, pra

12 poder confortar o estômago. Comendo em casa alheia, saía sempre com fome. Sim, por esse

13 tempo o velho meu já tinha morrido de uma dor que lhe deu, bem aqui no vazio – lá nele. Minha

14 mãe foi lavar roupa na casa duma gente rica, e eu tive que ir trabalhar à distância de dez léguas,

15 num açude do governo. Porque me esqueci de dizer que era seca brava, nesse ano em que meu

16 pai morreu. Aí a velha também deu pra ficar doente – era uma dor, era um cansaço, uma falta

17 de fôlego – com pouco foi-se embora também, dizia ela que pra junto do finado e dos dez anjos

18 que tinha no céu. Isso ela falava quando já estava variando, a bem dizer de vela na mão. E eu,

19 acabou-se o serviço do açude, houve um inverninho escasso, me encostei nuns tios, trabalhando

20 com eles. Mas sempre com esta minha sorte esquisita, quando dei fé morreu o tio, a família se

21 espalhou, a viúva minha tia foi morar com o genro. Desta vez fiquei só no mundo. Me meti com

22 uns tangerinos, levando gado do Quixeramobim para a cidade. Trabalho ingrato, porque com

23 esses anos ruins o gado não engorda nem bota força, cai à toa, é raro se chegar com o lote de

24 reses inteiro. Sempre morre um bocado em caminho. Com vinte e dois anos, fiquei noivo de uma

25 moça. E lá vem a sorte de sempre. Quero dizer...” [...] Mas não digo à senhora que minha sina

26 é de sempre acabar só? Minha mulher morreu, mas era uma moça boa, trabalhadeira, me fez

27 muita falta, que eu lhe tinha amizade e ela a mim. Continuei uns tempos na estrada e por duas

28 vezes escapei de morrer de desastre; primeiro foi um trole que virou com todos os meus

29 companheiros, justamente no dia que eu tinha faltado ao serviço. Depois um trem doido que

30 apareceu fora do horário, pegou a turma toda num corte de linha, escapamos por milagre, com

31 as costas enterradas na barreira e os carros passando, tirando fogo no peito da gente. Chegou

32 50, 51, cada vez pior, trabalho acabou-se, a necessidade atacou todo mundo, acabei resolvendo

33 me chegar para cá, arrumei o dinheiro da passagem e embarquei num pau-de-arara desses. A

34 senhora não viu falar num caminhão que virou na serra, com quarenta e seis pessoas dentro?

35 Pois eu vinha nele. Saiu gente ferida, uns morreram, outros aleijaram – mas eu escapei sem

36 quebrar uma unha que fosse.” (Deu a gargalhada clara e feliz.) “Não é uma sorte engraçada?

37 Acho que a pessoa mais feliz do que eu, neste mundo não há. Agora trabalho numa pedreira; lido

38 com dinamite, que é objeto perigoso danado. Os outros todos têm medo, menos eu. Sei que se

39 aquele diabo estourar de mau jeito, pode pegar os companheiros, a mim não pega. Não é corpo

40 fechado, não é reza, nunca fui homem de usar patuá; é sorte mesmo, sorte feliz. Dizia finada

41 minha mãe que era o anjo-da-guarda; quando eu era menino talvez fosse; mas hoje em dia, Deus

42 que me perdoe se for pecado, não acredito que o anjo-da-guarda fosse andar atrás dum bicho

43 feio e ruim que nem eu... E hoje estou por aqui, rolando... Por ora me dou bem, neste Rio de

44 Janeiro. Casar não me caso mais, nem mesmo sigo moda de ajuntar, que aqui se usa muito. Gosto

45 duma moça, mas falar a verdade, tenho medo... com essa sorte que eu tenho... A gente afinal de

46 contas não gosta de ver os outros morrer... mormente se tem amizade, não é mesmo, dona? Deixa

47 a pobrezinha continua vivendo...”



Fundamentados no texto de Rachel de Queiroz, “História Alegre” (página 1) o título é um exemplo de qual figura de linguagem?

Alternativas da questão 2851101
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