Questão 2832240

Língua Portuguesa · 2023

Questão

ID 2832240

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Lírico

Ano: 2023 Banca: UNESC - UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE Órgão: Câmara Municipal de Ermo


O texto seguinte servirá de base para responder às questões de 1 a 3.

Nem surgisse um olhar de piedade ou de amor

Nem houvesse uma branca mão que apaziguasse minha fronte palpitante...

Eu estaria sempre como um círio queimando para o céu a minha fatalidade

Sobre o cadáver ainda morno desse passado adolescente.

Talvez no espaço perfeito aparecesse a visão nua

Ou talvez a porta do oratório se fosse abrindo misteriosamente...

Eu estaria esquecido, tateando suavemente a face do filho morto

Partido de dor, chorando sobre o seu corpo insepultável.

Talvez da carne do homem prostrado se visse sair uma sombra igual à minha

Que amasse as andorinhas, os seios virgens, os perfumes e os lírios da terra

Talvez... mas todas as visões estariam também em minhas lágrimas boiando

E elas seriam como óleo santo e como pétalas se derramando sobre o nada.

Alguém gritaria longe: - "Quantas rosas nos deu a primavera!..."

Eu olharia vagamente o jardim cheio de sol e de cores noivas se enlaçando

Talvez mesmo meu olhar seguisse da flor o voo rápido de um pássaro

Mas sob meus dedos vivos estaria a sua boca fria e os seus cabelos luminosos.

Rumores chegariam a mim, distintos como passos na madrugada

Uma voz cantou, foi a irmã, foi a irmã vestida de branco! - a sua voz é fresca como o orvalho...

Beijam-me a face - irmã vestida de azul, por que estás triste?

Deu-te a vida a velar um passado também?

Voltaria o silêncio - seria uma quietude de nave em Senhor Morto

Numa onda de dor eu tomaria a pobre face em minhas mãos angustiadas

Auscultaria o sopro, diria à toa - Escuta, acorda

Por que me deixaste assim sem me dizeres quem eu sou?

E o olhar estaria ansioso esperando

E a cabeça ao sabor da mágoa balançando

E o coração fugindo e o coração voltando

E os minutos passando e os minutos passando...

No entanto, dentro do sol a minha sombra se projeta

Sobre as casas avança o seu vago perfil tristonho

Anda, dilui-se, dobra-se nos degraus das altas escadas silenciosas

E morre quando o prazer pede a treva para a consumação da sua miséria.

É que ela vai sofrer o instante que me falta

Esse instante de amor, de sonho, de esquecimento

E quando chega, a horas mortas, deixa em meu ser uma braçada de lembranças

Que eu desfolho saudoso sobre o corpo embalsamado do eterno ausente.

Nem surgisse em minhas mãos a rósea ferida

Nem porejasse em minha pele o sangue da agonia...

Eu diria - Senhor, por que me escolheste a mim que sou escravo

Por que me chagaste a mim cheio de chagas?

Nem do meu vazio te criasses, anjo que eu sonhei de brancos seios

De branco ventre e de brancas pernas acordadas

Nem vibrasses no espaço em que te moldei perfeita...

Eu te diria - Por que vieste te dar ao já vendido?

Oh, estranho húmus deste ser inerme e que eu sinto latente

Escorre sobre mim como o luar nas fontes pobres

Embriaga o meu peito do teu bafo que é como o sândalo

Enche o meu espírito do teu sangue que é a própria vida!

Fora, um riso de criança - longínqua infância da hóstia consagrada

Aqui estou ardendo a minha eternidade junto ao teu corpo frágil!

Eu sei que a morte abrirá no meu deserto fontes maravilhosas

E vozes que eu não sabia em mim lutarão contra a Voz.

Agora porém estou vivendo da tua chama como a cera

O infinito nada poderá contra mim porque de mim quer tudo

Ele ama no teu sereno cadáver o terrível cadáver que eu seria

O belo cadáver nu cheio de cicatriz e de úlceras.

Quem chamou por mim, tu, mãe? Teu filho sonha...

Lembras-te, mãe, a juventude, a grande praia enluarada...

Pensaste em mim, mãe? Oh, tudo é tão triste

A casa, o jardim, o teu olhar, o meu olhar, o olhar de Deus...

E sob a minha mão tenho a impressão da boca fria murmurando

Sinto-me cego e olho o céu e leio nos dedos a mágica lembrança

Passastes, estrelas... Voltais de novo arrastando brancos véus

Passastes, luas... Voltais de novo arrastando negros véus...

?Vinicius de Moraes?. em: Moraes, V. de. Poesia completa e prosa. 4a ed., rio de Janeiro, nova aguilar, 2004.



Assinale a alternativa que melhor descreva o sentimento do eu lírico no poema O Olhar para Trás de Vinicius de Moraes:

Alternativas da questão 2832240
Pular para o conteúdo principal