Questão
ID 2777921Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Comparação
Ano: 2024 Banca: FUNDATEC - Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências Órgão: Prefeitura Municipal de Cidreira
De onde vem minha habilidade no futebol
Por Fabrício Carpinejar
- Quem já me viu jogando futebol — sim, eu jogo bem, apesar da minha postura inofensiva
- e cômica de gafanhoto — sabe que evito cair. Não tombo com facilidade. Não rolo no chão. Posso
- levar peteleco no calcanhar, carrinho, trombada, voadora, e faço de tudo para me manter de pé.
- Cambaleio, porém jamais me entrego. Tento me segurar em corrimões imaginários ou nas costas
- dos meus adversários.
- Eu mesmo me driblo, se for o caso. Prefiro seguir adiante a cavar uma falta ou um pênalti
- e parar o jogo.
- Minha resiliência partiu de um trauma, que me condicionou a jamais beijar o gramado na
- boca.
- A quadra da escola em que estudei no Ensino Fundamental — Escola Municipal Imperatriz
- Leopoldina, no bairro Petrópolis — era simplesmente de piche e brita.
- Uma BR seria mais convidativa. Uma pista de aeroporto seria mais confortável.
- As pedras saltavam do solo escuro, pequenas lâminas e facas refletindo o sol.
- Cair ali somente em último caso. Não fingia, não me dava ao luxo de fazer cera.
- Eu me desequilibrava, tonteava, e permanecia ereto, de queixo erguido, aos trancos e
- barrancos.
- Tinha que sobreviver. Tinha noção do quanto custaria cada queda. Ficaria absolutamente
- esfolado, como presunto fatiado em guilhotina de açougue.
- Você não se machucava, você se acidentava. Tão grave quanto cair de uma moto.
- As feridas terminavam absolutamente infeccionadas com o betume.
- Havia a necessidade de limpar a pele com água oxigenada — e como ardia — e depois
- pincelar camadas de mercúrio-cromo — e como ardia.
- As sequelas continuavam doendo na hora de tomar o banho e de dormir.
- Minha habilidade com a bola foi forjada a evitar aquela sensação da calça colando no corpo.
- Nenhum band-aid era capaz de cobrir os ferimentos. Ao me machucar, sofria para colocar
- ou tirar a roupa.
- Isso quando o abrigo não rasgava por inteiro e vinha o suplício. Pois meus irmãos e eu
- contávamos com um par de abrigos para o ano, e os pais não compravam outro.
- Se estragávamos um deles em nossas peladas indevidas durante o recreio, a família
- mandava para a costureira com o propósito cafona de colocar remendo de couro.
- Começava o bullying. Vivíamos vestidos para uma festa junina.
- Lembro que uma vez rasguei os fundilhos da calça descendo um barranco e, para minha
- surpresa, recebi de volta a peça com um remendo de couro no traseiro.
- Eu entrava na escola já com uma sela embutida em mim. Diante da piada pronta, precisava
- ser, pelo menos, rápido como um cavalo nas notas, e nunca lento como um burro.
(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/carpinejar/noticia/2024/04/de-onde-vem-a-minha-habilidade-no-futebol-cluwxbocp00bg01czsf1xfzxe.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
No fragmento “Diante da piada pronta, precisava ser, pelo menos, rápido como um cavalo nas notas, e nunca lento como um burro”, retirado do texto, o autor utiliza duas vezes a figura de linguagem denominada: