Questão
ID 2737057Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Fatores de Próclise
Ano: 2025 Banca: Legalle Concursos Órgão: Prefeitura Municipal de Arroio do Padre
Para responder às questões 01 a 10, leia o texto abaixo.
As nossas muitas mentiras
- As mentiras nos acompanham desde sempre,
- sendo a mais antiga a do bebê quando descobre que o
- choro dissimulado antecipa a chegada da mamadeira.
- Uma mentira inocente, mas já com clara perspectiva de
- tirar vantagem dela.
- No mesmo grupo da inocência, encontra-se a que
- nasce da nossa tendência de agradar, evitando que o
- nosso interlocutor se sinta diminuído, mesmo que tenha
- merecido por fazer uma das perguntas mais cretinas da
- interação pessoal: "Você lembra de mim?". A resposta
- positiva é uma mentira inocente, mas carrega uma dose
- latente de desespero quando quem perguntou é mais
- que um chato comum e acrescenta: "Se lembra de
- onde?".
- Luis Fernando Verissimo, numa crônica genial
- sobre o assunto, concluiu que a melhor solução diante
- dessa enrascada é sair correndo. Por mais que essa
- atitude pareça maluca, comparada com o
- constrangimento potencial do superchato será uma
- bênção.
- O também saudoso Ariano Suassuna, num contexto
- real, assumiu que o escritor mente para suportar a
- opressão do cotidiano feliz, marcado pela monotonia
- maçante, admitindo que tudo o que é ruim de viver é bom
- de contar. E ele ria, dizendo que festejava a mentira
- criativa, essa que não tem possibilidade de magoar
- ninguém.
- A história que ele usava para ilustrar essa mentira
- era maravilhosa: o filho do maior produtor de mel de
- Pernambuco, quando perguntado o que seu pai tinha
- feito para alcançar esse prodígio, confessou: "Meu pai
- conseguiu um cruzamento raro da abelha com o
- vagalume, de modo que, com uma lanterna na bunda,
- elas trabalham dia e noite!".
- O problema é que, sendo a mentira um campo
- minado, além do permanente risco de desmascaramento
- (o que sempre será uma punição merecida para o
- mentiroso), muitas vezes ela está eivada de sentimentos
- inferiores, como ressentimento e inveja.
- Esse grupo que sofre visceralmente com o sucesso
- alheio está sempre desperdiçando, na busca do
- desmerecimento do outro, uma energia que poderia
- utilizar para tornar-se uma pessoa mais interessante.
- Como não consegue, contenta-se com o convívio
- solidário e inútil dos frustrados crônicos.
- Sendo a inveja um sentimento inesgotável e que
- viraliza em todas as atividades humanas, nem a ciência,
- que devia ser o templo da verdade, é poupada. Foi a
- sensação desagradável que tive ao ler um artigo
- científico em que todas as coisas colocadas lá são
- verdadeiras, mas as verdades mais relevantes foram
- omitidas.
- A modernidade, cumprindo a sina de não desistir
- sempre que for possível piorar, tem produzido o
- mentiroso ideológico, que, travestido de formador de
- opinião, se dá ao trabalho de catar dentro da mesma
- notícia só a parte que lhe interessa.
- É o legítimo sabotador da verdade, que, contando
- com a reconhecida escassez de neurônios dos seus
- incautos seguidores, ainda desfila o cinismo de quem fes-
- teja a fraudulenta isenção do rótulo de mentiroso.
- E então, na busca obstinada pela atrofia cerebral
- coletiva, produziu-se o fanático, esse escravo intelectual
- que, tendo desistido de ser melhor, contenta-se com
- difundir o que nem ele acredita e assume com altivez a
- sua insignificância absoluta e definitiva. Por alguma
- estranha razão, não lhe tem faltado parceria.
Autor: JJ Camargo GZH (adaptado).
Acerca das colocações pronominais da língua portuguesa, nos trechos não lhe tem faltado parceria (l.67) e contenta-se com difundir o que nem ele acredita (l.64-65), o nome das colocações pronominais sublinhadas é, respectivamente: