Questão 2731007

Língua Portuguesa · 2020

Questão

ID 2731007

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Inferência Textual

Ano: 2020 Banca: IESES - Instituto de Estudos Superiores do Extremo Sul Órgão: Câmara Municipal de Biguaçu


“Prezado João Condé: Exigiu você que eu escrevesse, manu propria, nos espaços brancos deste seu exemplar de Sagarana, uma explicação, uma confissão, uma conversa, a mais extensa, possível — o imposto João Condé para escritores, enfim. Ora, nem o assunto é simples, nem sei eu bem o que contar. Mirrado pé de couve, seja, o livro fica sendo, no chão do seu autor, uma árvore velha, capaz de transviá-lo e de o fazer andar errado, se tenta alcançar-lhe os fios extremos, no labirinto das raízes. Graças a Deus, tudo é mistério. Algo, porém, tem de ser dito. Ao autor o que é do autor, mas a João Condé o que é de João Condé.

Assim, pois, em 1937 — um dia, outro dia, outro dia... — quando chegou a hora de o Sagarana ter de ser escrito, pensei muito. Num barquinho, que viria descendo o rio e passaria ao alcance das minhas mãos, eu ia poder colocar o que quisesse. Principalmente, nele poderia embarcar, inteira, no momento, a minha concepção-do-mundo.

Tinha de pensar, igualmente, na palavra “arte”, em tudo o que ela para mim representava, como corpo e como alma; como um daqueles variados caminhos que levam do temporal ao eterno, principalmente. Já pressentira que o livro, não podendo ser de poemas, teria de ser de novelas. E — sendo meu — uma série de Histórias adultas da Carochinha, portanto.

Rezei, de verdade, para que pudesse esquecer-me, por completo, de que algum dia já tivessem existido septos, limitações, tabiques, preconceitos, a respeito de normas, modas, tendências, escolas literárias, doutrinas, conceitos, atualidades e tradições — no tempo e no espaço. Isso, porque: na panela do pobre, tudo é tempero. E, conforme aquele sábio salmão grego de André Maurois: um rio sem margens é o ideal do peixe. Aí, experimentei o meu estilo, como é que estaria. Me agradou. De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira. O que eu gostaria de poder fazer (não o que fiz, João Condé!) seria aplicar, no caso, a minha interpretação de uns versos de Paul Éluard: ... “o peixe avança n’água, como um dedo numa luva”... Um ideal: precisão, micromilimétrica. E riqueza, oh! riqueza... Pelo menos, impiedoso, horror ao lugarcomum; que as chapas são pedaços de carne corrompida, são pecados contra o Espírito Santo, são taperas no território do idioma. Mas, ainda haveria mais, se possível (sonhar é fácil, João Condé, realizar é que são elas...): além dos estados líquidos e sólidos, por que não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?!”

(Rosa, João Guimarães. Sagarana. Edição especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. p. 26)

I. O autor da missiva, Guimarães Rosa, explica Condé sua trajetória ao pensar a escritura do livro que começou a ser escrito, segundo o autor, em 1937, sobre o qual não queria que pesassem as imposições normativas. Em suas reflexões, Rosa divaga sobre os mistérios da língua e quanto o incomodam os chavões, que considera perniciosos para a língua.

II. A literatura brasileira está permeada por textos que contêm clichês, coisa que o autor não quer repetir em sua escritura, e, para isso, Condé busca novos caminhos, inclusive usando conceitos de outros famosos, como Maurois e Éluard, que acreditam que a criação literária tem que ser livre, sem margens que a contenham.

III. O universo criativo de Guimarães Rosa, segundo ele, está permeado de seu desejo de não seguir normas e chavões, buscando uma forma de expressão que não esteja contida por regras, usando a língua de uma maneira livre e apaixonada. Por outro lado, menciona a extrema dificuldade em explicar a trajetória criativa desse livro, que ele conta ter sido escrito em forma poética.

Assinale a alternativa que contenha a resposta correta em relação às assertivas e o texto lido:

Alternativas da questão 2731007
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