Questão 2638220

Língua Portuguesa · 2022

Questão

ID 2638220

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Pronomes de Tratamento

Ano: 2022 Banca: FEPESE - Fundação de Estudos e Pesquisas Socioeconômicos Órgão: Prefeitura Municipal de Pinhalzinho


Leia o texto.

Carta a uma jovem senhora que, estando em uma roda em que dava aos presentes o tratamento de “você” se dirigiu ao autor chamando-o “o senhor”:

— Senhora.

Aquele a quem chamastes senhor aqui está, de peito magoado, a cara triste, para vos dizer que senhor ele não é, de nada, nem de ninguém.

Bem o sabeis, por certo, que a única nobreza do plebeu está em não querer esconder sua condição, e esta nobreza tenho eu. Assim se entre tantos senhores ricos e nobres a quem chamáveis «você» escolhestes a mim para tratar de «senhor», é bem de ver que só poderíeis ter encontrado essa senhoria nas rugas de minha testa e na prata dos meus cabelos. Senhor de muitos anos, eis aí; o território onde eu mando é no país do tempo que foi. Essa palavra “senhor”, no meio de uma frase, ergueu entre nós dois um muro frio e triste.

Vi o muro, e calei. Não é de muito, eu juro, que me acontece essa tristeza; mas também não era a vez primeira. De começo eram apenas os «brotos» ainda mal núbeis que me davam senhoria; depois assim começaram a tratar-me as moças de dezoito a vinte, com essa mistura de respeito, confiança, distância e desprezo que é o sabor dessa palavra melancólica. Sim, eu vi o muro; e, astuto ou desanimado, calei. Mas havia na roda um rapaz de ouvido fino e coração cruel; ele instou para que repetisses a palavra; fingistes não entender o que ele pedia, e voltastes a dizer a frase sem usar nem «senhor», nem «você». Mas o danado insistiu, e denunciou o que ouvira, e que, no embaraço de vossa delicadeza, evitáveis repetir. Todos riram, inclusive nós dois. A roda era íntima, e o caso era de riso.

O que não quer dizer que fosse alegre; é das tristezas que rimos de coração mais leve. Vim para casa, e como sou um homem forte, olhei-me ao espelho; e como tenho minhas fraquezas, fiz um soneto. Não vou escrevê-lo aqui; não cabe na coluna. Para vos dar o tom, direi que no fim do segundo quarteto eu confesso que às vezes já me falece valor «para enfrentar o tédio dos espelhos”; e no último terceto digo a mim mesmo: “Volta, portanto a cara e vê de perto – a cara, a tua cara verdadeira – ó Braga envelhecido, envilecido”.

Sim, a velhice é coisa vil; Bilac o disse em prosa, numa crônica, ainda que nos sonetos ele almejasse envelhecer sorrindo. Não sou Bilac; e nem me dá consolo, mas tristeza, pensar que as musas desse poeta andam por aí hoje encanecidas e murchas, se é que ainda andam e já não desceram todas à escuridão do túmulo. Vivem apenas, eternamente moças e lindas, na música de seus versos, cheios de sol e outras estrelas. Mas a verdade (ouvi, senhora, esta confissão de um senhor ido e vivido, ainda que mal e tristemente), a verdade é o instante. E vosso instante é de graça, juventude e extraordinária beleza. Tendes todos os direitos; sois um belo momento da aventura do gênero humano sobre a terra. De trás de meu muro frio eu vos saúdo e canto. Mas ser senhor é triste; eu sou, senhora, e humildemente, o vosso servo.

(Rubem Braga)



Identifique abaixo as afirmativas verdadeiras ( V ) e as falsas ( F ), considerando o texto.

( ) Os verbos e os pronomes usados pelo autor ao se dirigir à jovem denotam um tom cerimonioso.

( ) Há no texto o uso de vocativo por quatro vezes.

( ) O autor presume que a jovem sabe qual a única nobreza de um plebeu.

( ) Os risos alegres da roda de amigos fizeram o autor não se olhar no espelho.

( ) Na frase: “Bilac o disse em prosa”, o pronome enclítico retoma a frase “velhice é vil”.

Assinale a alternativa que indica a sequência correta, de cima para baixo.

Alternativas da questão 2638220
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