Questão 2598876

Língua Portuguesa · 2019

Questão

ID 2598876

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Possibilidades de Paralelismo

Ano: 2019 Banca: FUNDATEC - Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências Órgão: Prefeitura Municipal de Três Palmeiras


Instrução: As questões de números 01 a 09 referem-se ao texto abaixo.

Ferrante, Starnone e a linguagem da ascensão social

01___Ferrante, Starnone e a linguagem da ascensão social

02___literário, usaria essas duas palavras para denunciar um suspeito parentesco entre os

03___romancistas italianos Elena Ferrante e Domenico Starnone. Ok, não seria uma acusação

04___original. Não são novidade os boatos que sugerem que por trás das aventuras de Lenu e Lila

05___na Tetralogia napolitana (Biblioteca Azul) estaria a pena de Starnone ou de sua esposa, a

06___tradutora Anita Raja. As pistas são muitas: uma investigação do jornalista Claudio Gatti, que

07___sugeriu que o patrimônio de Raja condizia mais com os ganhos de uma escritora best-seller,

08___como Ferrante, do que com os modestos rendimentos de uma tradutora; a leitura espelhada

09___dos romances adúlteros Dias de abandono (Biblioteca Azul), de Ferrante, e Laços (Todavia),

10___de Starnone; a investigação de uma trupe de físicos da Universidade de Roma, que recorreu a

11___um software especial para analisar os romances de Ferrante e concluiu que era “altamente

12___provável” que tivessem sido escritos por Starnone. Mas nenhuma dessas evidências me

13___parecem tão conclusivas quanto essas duas palavras: “vagido” e “escandir”. Vou tentar

14___explicar.

15___O Houaiss ensina que “vagido” é o “choro da criança recém-nascida”, o “som que se

16___assemelha a esse choro”, “lamento, gemido”. Confesso que não conhecia essa palavra até lê

17___la repetidas vezes nos quatro volumes da Tetralogia napolitana. Lá, as crianças não

18___choramingavam ou faziam birra, mas vagiam – ora em italiano, ora em dialeto napolitano.

19___Lenu, a narradora dos livros, parecia gostar de verbos declarativos esdrúxulos. Os

20___personagens não afirmavam, diziam ou exclamavam – eles escandiam. O significado de

21___escandir eu conhecia – contar as sílabas poéticas de um verso –, mas nunca havia me

22___deparado com ele em outro lugar que não uma aula de literatura. “Escandir” também significa

23___pronunciar as palavras com esmero, quase declamá-las. Nunca me espantou que Lenu

24___gostasse de palavras difíceis como “vagido” e “escandir”. O que espantou foi topar com essas

25___duas palavras – “vagido” e “escandir” – em Assombrações (Todavia), romance de Starnone

26___recém-publicado no Brasil. (Vale lembrar que tanto a Tetralogia de Ferrante como o romance

27___de Starnone foram traduzidos por Maurício Santana Dias).

28___O verbo “escandir” aparece numa das cenas mais bonitas do livro, quando Mallarico

29___leva o neto para passear pela Nápoles de sua infância e começa a se lembrar de como os

30___professores se esforçavam para ensinar italiano a meninos proletários educados em dialeto.

31___Os mestres repreendiam as crianças que diziam (e sentiam) “’a raggia”, em dialeto. O correto

32___– e o italiano – era “ira”. Mas a raiva proletário-napolitana não cabia no italiano refinado: “a

33___língua napolitana que se falava no Vasto, no Pendino, no Mercato – os bairros onde eu

34___crescera e, antes de mim, tinham crescido meu pai, meus avós e bisavós, talvez todos os

35___meus antepassados – não conhecia a palavra ira, a ira de Aquiles e de outros que agiam

36___dentro dos livros, mas apenas ’a raggia. A gente desta cidade, pensei, destes bairros, praças,

37___ruas, becos e banquinhas do porto, cheia de cansaço, de cargas e descargas ilegais,

38___se arraggiava, não ficava irada”, reflete. Mallarico não troca apenas o dialeto napolitano pelo

39___italiano. Ele também troca a brutalidade de Nápoles por Milão, uma metrópole europeia, e, em

40___vez de se formar operário como seus antepassados, aprende o ofício de ilustrador. Quando ele

41___volta a Nápoles, voltam também o dialeto e as memórias do que ele poderia ter sido se não

42___tivesse fugido de sua classe social. E, para conseguir ser aceito em outra classe social, ele

43___precisou aprender a escandir bem as palavras em italiano.

44___Ok, talvez a repetição de palavras como “vagido” e “escandir” e do tema da ascensão

45___social pela linguagem não seja uma prova assim tão inquestionável do estranho parentesco de

46___Ferrante e Starnone/Raja. Mas não deixa de ser curioso que o tema da ascensão social – da

47___ascensão social sentida como uma dolorosa traição das origens – se repita nos dois autores

48___Tanto Ferrante quanto Starnone se esmeram no uso da linguagem: envolvem o leitor com

49___uma prosa densa e vigorosa e, além disso, politizam as palavras. A linguagem, afinal, não é

50___apenas a matéria-prima da literatura; ela também é uma cerca que separa os homens de

51___acordo com sua origem (geográfica e social), uma cerca de arame farpado, dessas que as

52___crianças mais corajosas tentam atravessar, esgarçando os fios metálicos para passar o corpo

53___sem muitos arranhões. Suspeito que é isso que Lenu e Mallarico façam quando narram suas

54___histórias: botam as mãos no material frio que os mantinha apartados e o moldam até dar-lhe

55___uma forma onde caibam eles, suas origens e, felizmente, nós, os leitores.

Disponível em: https://epoca.globo.com/ruan-de-sousa-gabriel/ferrante-starnone-a-linguagem-da-ascensao

social-23265491 - Adaptação.



No trecho “as memórias do que ele poderia ter sido se não tivesse fugido de sua classe social” (l. 41–42), a conjunção ‘se’ traduz a ideia de ______________ e poderia ser substituída por ____________ desde que ___________ feitas alterações no período.

Assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas do trecho acima.

Alternativas da questão 2598876
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