Questão
ID 2598874Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Transformação de Oração Reduzida em Desenvolvida e Vice-versa
Ano: 2019 Banca: FUNDATEC - Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências Órgão: Prefeitura Municipal de Três Palmeiras
Instrução: As questões de números 01 a 09 referem-se ao texto abaixo.
Ferrante, Starnone e a linguagem da ascensão social
01___Ferrante, Starnone e a linguagem da ascensão social
02___literário, usaria essas duas palavras para denunciar um suspeito parentesco entre os
03___romancistas italianos Elena Ferrante e Domenico Starnone. Ok, não seria uma acusação
04___original. Não são novidade os boatos que sugerem que por trás das aventuras de Lenu e Lila
05___na Tetralogia napolitana (Biblioteca Azul) estaria a pena de Starnone ou de sua esposa, a
06___tradutora Anita Raja. As pistas são muitas: uma investigação do jornalista Claudio Gatti, que
07___sugeriu que o patrimônio de Raja condizia mais com os ganhos de uma escritora best-seller,
08___como Ferrante, do que com os modestos rendimentos de uma tradutora; a leitura espelhada
09___dos romances adúlteros Dias de abandono (Biblioteca Azul), de Ferrante, e Laços (Todavia),
10___de Starnone; a investigação de uma trupe de físicos da Universidade de Roma, que recorreu a
11___um software especial para analisar os romances de Ferrante e concluiu que era “altamente
12___provável” que tivessem sido escritos por Starnone. Mas nenhuma dessas evidências me
13___parecem tão conclusivas quanto essas duas palavras: “vagido” e “escandir”. Vou tentar
14___explicar.
15___O Houaiss ensina que “vagido” é o “choro da criança recém-nascida”, o “som que se
16___assemelha a esse choro”, “lamento, gemido”. Confesso que não conhecia essa palavra até lê
17___la repetidas vezes nos quatro volumes da Tetralogia napolitana. Lá, as crianças não
18___choramingavam ou faziam birra, mas vagiam – ora em italiano, ora em dialeto napolitano.
19___Lenu, a narradora dos livros, parecia gostar de verbos declarativos esdrúxulos. Os
20___personagens não afirmavam, diziam ou exclamavam – eles escandiam. O significado de
21___escandir eu conhecia – contar as sílabas poéticas de um verso –, mas nunca havia me
22___deparado com ele em outro lugar que não uma aula de literatura. “Escandir” também significa
23___pronunciar as palavras com esmero, quase declamá-las. Nunca me espantou que Lenu
24___gostasse de palavras difíceis como “vagido” e “escandir”. O que espantou foi topar com essas
25___duas palavras – “vagido” e “escandir” – em Assombrações (Todavia), romance de Starnone
26___recém-publicado no Brasil. (Vale lembrar que tanto a Tetralogia de Ferrante como o romance
27___de Starnone foram traduzidos por Maurício Santana Dias).
28___O verbo “escandir” aparece numa das cenas mais bonitas do livro, quando Mallarico
29___leva o neto para passear pela Nápoles de sua infância e começa a se lembrar de como os
30___professores se esforçavam para ensinar italiano a meninos proletários educados em dialeto.
31___Os mestres repreendiam as crianças que diziam (e sentiam) “’a raggia”, em dialeto. O correto
32___– e o italiano – era “ira”. Mas a raiva proletário-napolitana não cabia no italiano refinado: “a
33___língua napolitana que se falava no Vasto, no Pendino, no Mercato – os bairros onde eu
34___crescera e, antes de mim, tinham crescido meu pai, meus avós e bisavós, talvez todos os
35___meus antepassados – não conhecia a palavra ira, a ira de Aquiles e de outros que agiam
36___dentro dos livros, mas apenas ’a raggia. A gente desta cidade, pensei, destes bairros, praças,
37___ruas, becos e banquinhas do porto, cheia de cansaço, de cargas e descargas ilegais,
38___se arraggiava, não ficava irada”, reflete. Mallarico não troca apenas o dialeto napolitano pelo
39___italiano. Ele também troca a brutalidade de Nápoles por Milão, uma metrópole europeia, e, em
40___vez de se formar operário como seus antepassados, aprende o ofício de ilustrador. Quando ele
41___volta a Nápoles, voltam também o dialeto e as memórias do que ele poderia ter sido se não
42___tivesse fugido de sua classe social. E, para conseguir ser aceito em outra classe social, ele
43___precisou aprender a escandir bem as palavras em italiano.
44___Ok, talvez a repetição de palavras como “vagido” e “escandir” e do tema da ascensão
45___social pela linguagem não seja uma prova assim tão inquestionável do estranho parentesco de
46___Ferrante e Starnone/Raja. Mas não deixa de ser curioso que o tema da ascensão social – da
47___ascensão social sentida como uma dolorosa traição das origens – se repita nos dois autores
48___Tanto Ferrante quanto Starnone se esmeram no uso da linguagem: envolvem o leitor com
49___uma prosa densa e vigorosa e, além disso, politizam as palavras. A linguagem, afinal, não é
50___apenas a matéria-prima da literatura; ela também é uma cerca que separa os homens de
51___acordo com sua origem (geográfica e social), uma cerca de arame farpado, dessas que as
52___crianças mais corajosas tentam atravessar, esgarçando os fios metálicos para passar o corpo
53___sem muitos arranhões. Suspeito que é isso que Lenu e Mallarico façam quando narram suas
54___histórias: botam as mãos no material frio que os mantinha apartados e o moldam até dar-lhe
55___uma forma onde caibam eles, suas origens e, felizmente, nós, os leitores.
Disponível em: https://epoca.globo.com/ruan-de-sousa-gabriel/ferrante-starnone-a-linguagem-da-ascensao
social-23265491 - Adaptação.
Na linha 42, o trecho “para conseguir ser aceito em outra classe social” é uma oração reduzida. Sua correta expansão é dada por: