Questão
ID 2592286Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Inferência Textual
Ano: 2023 Banca: INEPAM - Instituto Nacional Especializado em Pesquisas e Apoio aos Municípios Órgão: Prefeitura Municipal de Adamantina
O texto a seguir se refere às questões de 01 a 04.
Pavia e Inácio atravessaram o jardim na direção da casa. Subiram os quatorze degraus de uma escada dupla, que levava à porta da entrada, e desapareceram no vão escuro que a porta fazia.
A noite caíra.
A quinta do duque passara insensivelmente das vacilações do crepúsculo para as trevas decididas das sete horas de um dia curto.
As moitas de bambus condensavam-se amontoados impenetráveis de escuridão; os gramados do parque alargavam-se, confundindo-se com as alamedas de areia numa vasta toalha de crepe; para longe, recortavam-se as montanhas negras. Dir-se-ia que a natureza acabava de cobrir-se de lutuosos merinós, se não fosse o cetim azulado do firmamento, e se não chovesse o riso das estrelas.
Entretanto, reinava movimento no meio da noite. Os numerosos habitantes da quinta do duque, lacaios e protegidos, recolhiam-se naquela ocasião às suas habitações agrupadas em aldeia, nos fundos do palácio. Consumiam a última atividade do diário, preparando-se para o repouso confortante da noite. Na massa de habitações acumuladas ao norte do parque, que fundiam-se com a noite, começavam a aparecer pontos luminosos. Era a candeia de um sótão, o bico de gás de uma sala de jantar ou a vela de um quartinho.
Quando acabaram de acender-se as luzes também o movimento cessou. Principiaram-se os serões.
Levemos o leitor a um deles.
Uma rua, ou melhor, um estreitíssimo beco, esmagado entre duas paredes crivadas de janelas iluminadas ou não, é o caminho que conduz ao coração desse povoado da quinta.
No extremo dessa viela úmida e escura está uma porta aberta. Entremos..
É uma sala miserável, pobremente mobiliada. Das paredes caem flâmulas de papel da casa gemem míseros trastes, sobrecarregados de ninharias. Pelas mesas há vasos de fantasia arabescados de rachas e esfoladuras sobre uns tapetes de lã felpudos e muito anchos; pelas cadeiras, retalhos de pano e objetos de costura.
A um canto, conversam baixinho um velho e uma velha. Estão sentados em cadeiras, ao lado de uma pequena mesa. Sobre a mesa há uma vela que bate-lhes no rosto e clareia a toda a luz as rugas das duas fisionomias.
Trocam vivamente palavras.
O velho, com dedo médio unido ao polegar, como apertando uma pitada, faz gestos de quem sabe o que diz, e a velha encara-o através de uns grandes óculos de aros pretos, aprovando com a cabeça, e fala de vez em quando, agitando a agulha que tem na destra e a costura que sustenta na mão esquerda.
Em outro lado da sala vê-se, toda encurvada sobre si uma mocinha. Acha-se sobre um banco com os joelhos cruzados, repuxando-Ihe muito o vestido que comprime-Ihe as formas. Dedilha febrilmente um cabo de crochet de osso branco.
De tempos a tempos levanta o rosto com os olhos semicerrados e sacode para trás a vasta cabeleira negra e esparsa, que quer escorregar-lhe para o crochet.
É uma formosa criaturinha, feições de criança, ar distraído, um tanto carnuda sob uma epiderme sem irritações. Parece não ter quatorze anos ainda e podia usar vestido curto.
Eis mais ou menos o que diziam os velhos:
— Sim, sim — falava o marido — é preciso. Se não garantirmos o futuro daquela menina, aceitássemos oferecimentos do Pavia, cometeríamos um crime.
— Um verdadeiro crime — afirmou a velha.
— Por um tolo escrúpulo não se há de perder um bom dinheiro.
— Tão bom dinheiro... — reforçou a velha, batendo com a cabeça.
— Demais, o lucro não será só para nossa afilhada, o nosso netinho terá o seu quinhão...
— Sim senhor... Sim senhor...
— Já vê que fiz bem em responder ao Pavia que sim...
— Muito bem. A nossa afilhada assim terá um futuro. A proteção do sr. Duque não é qualquer coisa... Ah! quem me dera que eu ainda fosse fresquinha como antigamente...
(POMPEIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em 01 dez. 2023.)
"Ah! quem me dera que eu ainda fosse fresquinha como antigamente...". Com essa fala, a personagem expressa seu desejo de: