Questão 2561408

Língua Portuguesa · 2014

Questão

ID 2561408

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Estrangeirismo

Ano: 2014 Banca: FGV - Fundação Getúlio Vargas Órgão: Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas


Texto I

Francisco, os gays e a doutrina

“Se alguém que é gay procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá‐lo?” A declaração do Papa Francisco, pronunciada durante uma entrevista à imprensa no final de sua visita ao Brasil, ecoou como um trovão mundo afora. Nela, existe mais forma que substância – mas a forma conta.

A homossexualidade é um tabu no Vaticano. Bento XVI, o antecessor de Francisco, escreveu apenas oito anos atrás que a homossexualidade é uma “desordem objetiva” e “uma forte inclinação dirigida para um pecado mortal intrínseco”. Francisco não contestou Bento XVI – e talvez concorde com ele. Contudo, usou o termo coloquial “gay”, algo antes impensável, e colocou o acento em outro lugar: “Quem sou eu para julgá‐lo?”

Francisco deslocou o problema. Sob a lógica de sua declaração revolucionária, o problema não é de substância (ser gay), mas de circunstância (viver à luz de Deus). Ele não foi além disso. Entretanto, nas dioceses distantes, a frase provocará debates, e muitos a interpretarão como uma licença implícita para ordenar padres que são gays, mas celibatários. “Não fale, não pergunte”: essa foi a orientação de Bill Clinton que começou a abrir as portas das forças armadas americanas aos gays. Francisco disse quase o mesmo.

“Quem sou eu para julgá‐lo?” – isso, dito pelo Papa, não é pouca coisa. O impacto da declaração não está confinado às fronteiras da Igreja. Em dezenas de países, especialmente nos da África, existem leis contra gays. A Rússia de Vladimir Putin acaba de criar uma lei desse tipo. Estados e governos querem a prerrogativa de “julgar” – e de punir! – a orientação sexual das pessoas. Quando a Igreja ensaia rever sua anacrônica posição sobre os homossexuais, algo de relevante está acontecendo.

Na África do Sul, o arcebispo anglicano Desmond Tutu, uma das mais destacadas figuras da luta contra o apartheid, lidera uma campanha internacional de denúncia das leis antigays. Ele declarou que repudiaria “um Deus homofóbico”. Francisco ficou bem longe disso, mas suas palavras anunciam o fim de um tempo de escuridão. A pergunta que emerge delas é bem simples: se o Papa não tem o direito de “julgar” os gays, quem são as autoridades políticas para fazê‐lo?

(Axé Silva, O Mundo, setembro 2013)



Na grafia do vocábulo inglês apartheid, o autor emprega um tipo de letra (itálico) para mostrar que se trata de um estrangeirismo; o mesmo não acontece com o vocábulo gay, provavelmente porque

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