Questão
ID 2537324Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Artigo de Jornal
Ano: 2016 Banca: ITA - Instituto Tecnológico de Aeronáutica Órgão: Instituto Tecnológico de Aeronáutica
Texto 1: A mídia realmente tem o poder de manipular as pessoas?
Por Francisco Fernandes Ladeira
1 À primeira vista, a resposta para a pergunta que intitula este artigo 2 parece simples e óbvia: sim, a
2 mídia é um poderoso instrumento de manipulação. A ideia de que o frágil cidadão comum é impotente frente
3 aos gigantescos e poderosos conglomerados da comunicação é bastante atrativa intelectualmente.
4 Influentes nomes, como Adorno e Horkheimer, os primeiros pensadores a realizar análises mais sistemáticas
5 sobre o tema, concluíram que os meios de comunicação em larga escala moldavam e direcionavam as
6 opiniões de seus receptores. Segundo eles, o rádio torna todos os ouvintes iguais ao sujeitá-los,
7 autoritariamente, aos idênticos programas das várias estações. No livro Televisão e Consciência de Classe,
8 Sarah Chucid Da Viá afirma que o vídeo apresenta um conjunto de imagens trabalhadas, cuja apreensão é
9 momentânea, de forma a persuadir rápida e transitoriamente o grande público. Por sua vez, o psicólogo
10 social Gustav Le Bon considerava que, nas massas, o indivíduo deixava de ser ele próprio para ser um
11 autômato sem vontade e os juízos aceitos pelas multidões seriam sempre impostos e nunca discutidos.
12 Assim, fomentou-se a concepção de que a mídia seria capaz de manipular incondicionalmente uma
13 audiência submissa, passiva e acrítica.
14 Todavia, como bons cidadãos céticos, devemos duvidar (ou ao menos manter certa ressalva) de
15 proposições imediatistas e aparentemente fáceis. As relações entre mídia e público são demasiadamente
16 complexas, vão muito além de uma simples análise behaviorista de estímulo/resposta. As mensagens
17 transmitidas pelos grandes veículos de comunicação não são recebidas automaticamente e da mesma
18 maneira por todos os indivíduos. Na maioria das vezes, o discurso midiático perde seu significado original na
19 controversa relação emissor/receptor. Cada indivíduo está envolto em uma “bolha ideológica”, apanágio de
20 seu próprio processo de individuação, que condiciona sua maneira de interpretar e agir sobre o mundo.
21 Todos nós, ao entramos em contato com o mundo exterior, construímos representações sobre a realidade.
22 Cada um de nós forma juízos de valor a respeito dos vários âmbitos do real, seus personagens,
23 acontecimentos e fenômenos e, consequentemente, acreditamos que esses juízos correspondem à
24 “verdade”. [...]
25 [...] A mídia é apenas um, entre vários quadros ou grupos de referência, aos quais um indivíduo
26 recorre como argumento para formular suas opiniões. Nesse sentido, competem com os veículos de
27 comunicação como quadros ou grupos de referência fatores subjetivos/psicológicos (história familiar,
28 trajetória pessoal, predisposição intelectual), o contexto social (renda, sexo, idade, grau de instrução, etnia,
29 religião) e o ambiente informacional (associação comunitária, trabalho, igreja). “Os vários tipos de receptor
30 situam-se numa complexa rede de referências em que a comunicação interpessoal e a midiática se
31 completam e modificam”, afirmou a cientista social Alessandra Aldé em seu livro A construção da política:
32 democracia, cidadania e meios de comunicação de massa. Evidentemente, o peso de cada quadro de
33 referência tende a variar de acordo com a realidade individual. Seguindo essa linha de raciocínio, no original
34 estudo Muito Além do Jardim Botânico, Carlos Eduardo Lins da Silva constatou como telespectadores
35 do Jornal Nacional acionam seus mecanismos de defesa, individuais ou coletivos, para filtrar as informações
36 veiculadas, traduzindo-as segundo seus próprios valores. “A síntese e as conclusões que um telespectador
37 vai realizar depois de assistir a um telejornal não podem ser antecipadas por ninguém; nem por quem
38 produziu o telejornal, nem por quem assistiu ao mesmo tempo que aquele telespectador”, inferiu Carlos
39 Eduardo.
Adaptado de: http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/a-midia-realmente-tem-o-poder-de-manipular-as-pessoas/. (Publicado em 14/04/2015, na edição 846. Acesso em 13/07/2016.)
Texto 2: Vídeos falsos confundem o público e a imprensa
Por Jasper Jackson, tradução de Jo Amado.
1 Cerca de duas horas depois da divulgação dos atentados de terça-feira (22/03) em Bruxelas,
2 apareceu um vídeo no YouTube, sob a alegação de que seriam imagens do circuito fechado de televisão
3 (CCTV), mostrando uma explosão no aeroporto Zaventem, da cidade. As imagens rapidamente se
4 espalharam pelas redes sociais e foram divulgadas por alguns dos principais sites de notícias. Depois desse,
5 surgiu outro vídeo, supostamente mostrando uma explosão na estação de metrô Maelbeek, próxima ao
6 Parlamento Europeu, e ainda um outro, alegando ser do aeroporto.
7 Entretanto, nenhum dos vídeos era o que alegava ser. Os três vídeos eram gravações de 2011, dois
8 de um atentado ao aeroporto Domodedovo, de Moscou, e um de uma bomba que explodiu numa estação de
9 metrô de Minsk, capital da Belarus.
10 As imagens distorcidas dos clipes do circuito fechado de televisão foram convertidas de cor em
11 preto e branco, horizontalmente invertidas, novamente etiquetadas e postadas como se tivessem surgido dos
12 acontecimentos do dia. Embora a conta do YouTube que compartilhou as imagens com falsos objetivos tenha
13 sido rapidamente tirada do ar, outros veículos as reproduziram dizendo que eram de Bruxelas.
14 Os vídeos ilusórios são exemplos de um fenômeno que vem se tornando cada vez mais comum em
15 quase todas as matérias importantes que tratam de acontecimentos violentos e que ocorrem rapidamente.
16 Reportagens falsas ou ilusórias espalham-se rapidamente pelas redes sociais e são acessadas por
17 organizações jornalísticas respeitáveis, confundindo ainda mais um quadro já incrivelmente confuso.
18 A disseminação e divulgação de falsas informações não têm nada de novo, mas a internet tornou
19mais fácil plantar matérias e provas falsas e ilusórias, que serão amplamente compartilhadas pelo Twitter e
20 pelo Facebook.
21 Alastair Reid, editor administrativo do site First Draft, que é uma coalizão de organizações que se
22 especializam em checar informações e conta com o apoio do Google, disse que parte do problema é que
23 qualquer pessoa que publique em plataformas como o Facebook tem a capacidade de atingir uma audiência
24 tão ampla quanto aquelas que são atingidas por uma organização jornalística. “Pode tratar-se de alguém
25 tentando desviar propositalmente a pauta jornalística por motivos políticos, ou muitas vezes são apenas
26 pessoas que querem os números, os cliques e os compartilhamentos porque querem fazer parte da conversa
27 ou da validade da informação”, disse ele. “Eles não têm quaisquer padrões de ética, mas têm o mesmo tipo
28 de distribuição.”
29 Nesse meio tempo, a rápida divulgação das notícias online e a concorrência com as redes sociais
30 também aumentaram a pressão sobre as organizações jornalísticas para serem as primeiras a divulgar cada
31 avanço, ao mesmo tempo em que eliminam alguns dos obstáculos que permitem informações equivocadas.
32 Uma página na web não só pode ser atualizada de maneira a eliminar qualquer vestígio de uma
33 mensagem falsa, mas, quando muitas pessoas apenas se limitam a registrar qual o website em que estão
34 lendo uma reportagem, a ameaça à reputação é significativamente menor que no jornal impresso. Em muitos
35 casos, um fragmento de informação, uma fotografia ou um vídeo são simplesmente bons demais para checar.
36 Alastair Reid disse: “Agora talvez haja mais pressão junto a algumas organizações para agirem
37 rapidamente, para clicar, para ser a primeira… E há, evidentemente, uma pressão comercial para ter aquele
38 vídeo fantástico, aquela foto fantástica, para ser de maior interesse jornalístico, mais compartilhável e tudo
39 isso pode se sobrepor ao desejo de ser certo.”
Adaptado de: http://observatoriodaimprensa.com.br/terrorismo/videos-falsos-confundem-o-publico-e-a-imprensa/. (Publicado originalmente no jornal The Guardian em 23/3/2016. Acesso em 30/03/2016.)
A Questão 30 refere-se aos Textos 1 e 2.
Pode-se afirmar corretamente que tanto o Texto 1 quanto o Texto 2