Questão 2497902

Língua Portuguesa · 2021

Questão

ID 2497902

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Artigo de Opinião

Ano: 2021 Banca: DIRENS AERONÁUTICA - Diretoria de Ensino da Aeronáutica Órgão: Academia da Força Aérea


TEXTO II

A VERDADEIRA LEI DE GÉRSON

Raul Marinho Gregorin

Você se lembra daquele célebre comercial do

cigarro Vila Rica, onde nosso tricampeão Gérson falava

a famosa frase: “...Porque você tem que levar

vantagem em tudo, cerrrto?”. A frase teve tanto

5 impacto que acabou sendo criada a “Lei de Gérson”, que

simboliza o oportunismo e a falta de escrúpulos típicas de

uma grande parcela de nossa sociedade. (...)

Concordo que nossa postura oportunista

realmente contribui para nos manter neste estado de

10 atraso econômico e cultural em que vivemos. Só que a

“Lei de Gérson”, na verdade é muito mais antiga que o

próprio. No excelente livro “Mauá, Empresário do

império”, de Jorge Caldeira (Ed. Companhia das Letras),

percebe-se que há quase duzentos anos atrás esta lei já

15 era cumprida. Aliás, essa deve ser a lei mais antiga do

Brasil, pois desde as capitanias hereditárias nossa

história é pontilhada de exemplos de oportunismo e falta

de escrúpulos. A própria escravidão não deixa de ser

uma mostra do viés ético de nossa sociedade desde

20 tempos imemoriais, mas isso já é outra história.

Eu não conheço a biografia do Gérson, muito

menos do publicitário que criou a frase e o comercial do

Vila Rica. Mas acho muito improvável que o Gérson real

seja um oportunista sanguinário como ficou sendo sua

25 imagem. Nem acredito que o diretor de criação da

agência poderia imaginar que esta frase seria usada mais

de vinte anos depois para designar esta nossa

característica.

Nossa língua é ferina. Quando a Volkswagen

30 lançou o Fusca com teto solar no final da década de ‘60’,

as vendas despencaram depois que passou a ter a

conotação de “carro de chifrudo”. A VASP na década de

70 criou um voo noturno ligando São Paulo ao Guarujá

para atender aos executivos que deixavam suas famílias

35 no balneáreo e passavam a semana trabalhando na

capital. O nome do voo era “Corujão” devido ao horário.

Não demorou muito, o voo passou a ser apelidado de

“Cornudão”, pelo fato das esposas ficarem na praia

enquanto os maridos ficavam na cidade. A VASP teve

40 que cancelar a linha por falta de passageiros.

E óbvio que a VW tinha introduzido o teto solar

baseado no fato do Brasil ser um país quente e

ensolarado, perfeito para aquele opcional. Só que o

consumidor preferia ficar passando calor a ser visto

45 dirigindo um carro com um buraco no teto para “deixar os

chifres de fora”. O voo corujão era perfeito,

especialmente na época em que não havia Piaçaguera e,

para chegar ao Guarujá de carro na alta temporada, o

motorista tinha que enfrentar horas de fila na balsa. Mas

50 era melhor demorar oito ou dez horas de carro do que ir

de avião, em meia hora, num voo chamado “Cornudão”...

Com o comercial do Gérson foi a mesma coisa.

Levar vantagem em tudo não significa que os outros tem

que levar desvantagem. O oportunismo foi incorporado à

55 frase por quem a leu/ouviu, não por quem a

escreveu/disse. O problema é que passou a ficar (para

usar um conceito atual) “politicamente incorreto” levar

vantagem em alguma coisa.

Na verdade, parece que nossa sociedade se

60 divide em dois grandes blocos: um que leva vantagem

em tudo (no sentido pejorativo) e outro que não pode

levar vantagem em nada. Acontece que dá para levar

vantagem em tudo sem fazer com que os outros saiam

em desvantagem. Você não precisa esmagar a outra

65 parte para sair ganhando.

(http://www.geocities.ws/cp_adhemar/leidegerson.html. Acesso em: 10

abril 2017. Texto revisado conforme a nova ortografia.)



TEXTO I

O HOMEM CORDIAL

Marco A Rossi

É de 1936 o livro “Raízes do Brasil”, do historiador

Sérgio Buarque de Holanda. Nele está contida a ideia de

“homem cordial”, uma das maiores contribuições já

realizadas para a compreensão do Brasil e dos brasileiros.

5 O “homem cordial”, resultado de um cruzamento entre a

cultura colonial e o improviso de um país para sempre

inacabado, é afetuoso, interesseiro e autoritário; adora

obter vantagens em tudo, detesta regras, vive em busca de

atalhos favoráveis; não vê problema no que faz de errado,

10 embora seja raivoso na hora de apontar os erros dos

outros. Variação muito mal-humorada de um tipo único de

homo brasiliensis, o “homem cordial” é avesso ao esforço

metódico e à concentração; prefere o circunstancial, a

moda do momento e o jeito mais rápido de conquistar aquilo

15 que deseja. Adepto do “curtir a vida adoidado”, o homo

brasiliensis encarnado no “homem cordial” sofre muito

diante de compromissos que exijam dispêndio de energia e

tempo – na cultura humana do juro, opta sempre por curtir

hoje e pagar amanhã, em vez de investir agora para

20 saborear depois por tempo indeterminado e mais tranquilo.

A impessoalidade no trato, as regras universais, a ética

como parâmetro para a tomada de decisões, o antever dos

desdobramentos de sua ação sobre a vida e o planeta, o

incentivo ao fortalecimento de instituições públicas e

25 sociais, nada disso agrada ao “homem cordial”, que não

esconde amar o familiarismo nas relações sociais, as

regras particulares, a moral privada, o “salve-se quempuder”,

o apelo a saídas pessoais diante de problemas e

questões que são, de superfície e de fundo, coletivas. Em

30 1936, Sérgio Buarque de Holanda apontava esses traços

culturais brasileiros como uma barreira intransponível para

a democracia. E hoje? Creio que a atualidade da ideia de

“homem cordial” salta aos olhos de quem observa com

interesse o país. Resta saber o tamanho desse malfazejo

35 espólio.

(Fonte: Marco. A .Rossi. Acesso 10/01/2013 às 12:30 p.m

http://travessia21.blogspot.com.br/2013/01/o-homem-cordial.html.)

Assinale a alternativa correta com relação aos elementos da estrutura dos textos I e II.

Alternativas da questão 2497902
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