Questão 2497792

Língua Portuguesa · 2016

Questão

ID 2497792

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Inferência Textual

Ano: 2016 Banca: DEPENS - Departamento de Ensino da Aeronáutica Órgão: Academia da Força Aérea


TEXTO VI

LEITE DERRAMADO

“Um homem muito velho está num leito de hospital.

E desfia a quem quiser ouvir suas memórias. Uma saga

familiar caracterizada pela decadência social e econômica,

tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos

dois séculos.”

Não sei por que você não me alivia a dor. Todo

dia a senhora levanta a persiana com bruteza e joga sol

no meu rosto. Não sei que graça pode achar dos meus

esgares, é uma pontada cada vez que respiro. Às vezes

5 aspiro fundo e encho os pulmões de um ar insuportável,

para ter alguns segundos de conforto, expelindo a dor.

Mas bem antes da doença e da velhice, talvez minha

vida já fosse um pouco assim, uma dorzinha chata a me

espetar o tempo todo, e de repente uma lambada atroz.

10 Quando perdi minha mulher, foi atroz. E qualquer coisa

que eu recorde agora, vai doer, a memória é uma vasta

ferida. Mas nem assim você me dá os remédios, você é

meio desumana. Acho que nem é da enfermagem,

nunca vi essa cara sua por aqui. Claro, você é a minha

15 filha que estava na contraluz, me dê um beijo. Eu ia

mesmo lhe telefonar para me fazer companhia, me ler

jornais, romances russos. Fica essa televisão ligada o

dia inteiro, as pessoas aqui não são sociáveis. Não

estou me queixando de nada, seria uma ingratidão com

20 você e com o seu filho. Mas se o garotão está tão rico,

não sei por que diabos não me interna em uma casa de

saúde tradicional, de religiosas. Eu próprio poderia

arcar com viagem e tratamento no estrangeiro, se o seu

marido não me tivesse arruinado.

(BUARQUE, Chico. Leite derramado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 10 – 11.)



O discurso do personagem só NÃO nos permite afirmar que ele:

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