Questão
ID 2494949Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Uso de Sinônimos
Ano: 2014 Banca: URCA - Universidade Regional do Cariri Órgão: Prefeitura Municipal de Várzea Alegre
A LIÇÃO DA VENEZUELA AO BRASIL
Há alguma coisa fundamentalmente errada quando a Venezuela demonstra estar mais avançada do que o Brasil em algum ponto. Mas foi isso que ocorreu na semana passada, com os venezuelanos chocados com o assassinato de Mônica Spear, exmiss e atriz de enorme popularidade. Ela e o marido foram mortos a tiros por assaltantes na frente da filha de cinco anos. O presidente venezuelano Nicolás Maduro convocou os governadores e os prefeitos das principais cidades do país para anunciar a busca de um “novo modelo que combata verdadeiramente a criminalidade”. Mas o mais marcante, o gesto que colocou a Venezuela à frente do Brasil na disposição de conter a criminalidade, foi o aperto de mãos entre Maduro e o chefe da oposição, Henrique Capriles. Eles puseram de lado uma hostilidade profunda e selaram um pacto contra o banditismo, reconhecendo que o combate ao crime é um interesse nacional acima das ideologias e das disputas partidárias.
Nós brasileiros também estamos em estado de choque com as cenas de barbárie vindas do Maranhão, onde bandidos degolaram, escalpelaram e esquartejaram rivais em uma penitenciária, enquanto seus comparsas na rua incendiaram uma menina de seis anos que viajava com a mãe em ônibus urbano. A desnorteadora diferença em relação à Venezuela é que aqui a presidente Dilma Rousseff nem se tocou. Pior ainda, preocupada em não ferir as suscetibilidades de seus aliados locais do clã Sarney, que há décadas dominam a política maranhense, não disse palavra sobre os episódios degradantes.
Premida pelos protestos de junho do ano passado, a presidente propôs pactos para resolver todos os problemas nacionais nas áreas dos transportes, da saúde, da educação, da política e da economia. Por vagos, inconsequentes, esses pactos sumiram no ar sem deixar rastro. Deseja-se mais sorte ao pacto entre governo e a oposição na Venezuela. Mas não é esse o ponto. A questão que se coloca teimosamente é: por que nunca no Brasil foi proposto um pacto nacional contra o crime? Porque a cada demonstração de vitória da barbárie contra a civilização, como a da semana passada no Maranhão, as autoridades se escondem atrás de uma cortina de fumaça de eufemismos e se recusam a encarar o fato de que os bandidos declararam guerra aos brasileiros – e estão vencendo.
Bastaria a cena da menina tentando em vão livrar-se das chamas acesas pelos bandidos no Maranhão para que, nem que fosse por intenção meramente eleitoreira, o mundo oficial brasileiro, a começar pela presidente da República, demonstrasse justa indignação. Seriam aplaudidos se, a exemplo da Venezuela, todos tivessem se unido em um pacto nacional contra o crime – seja ele cometido por bandidos, por policiais degenerados ou pelos responsáveis por sistemas prisionais que submetem os condenados a condições sub-humanas em celas superlotadas. Não dá mais para fingir que o Brasil vive tempos de paz. Até a Venezuela acordou.
In: Revista Veja. Editora Abril, Ed. 2356 – ano 47 – n. 3 – 15 de janeiro de 2014, pag. 14
“Porque a cada demonstração de vitória da barbárie contra a civilização...”. O termo pode ser substituído, sem alterar o sentido, por: