Questão
ID 2450057Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Possibilidades de Paralelismo
Ano: 2019 Banca: FUNDATEC - Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências Órgão: Prefeitura Municipal de Faxinal do Soturno
Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.
O futuro da cultura na era dos computadores
O professor e especialista em política cultural Teixeira Coelho discute o que pode acontecer com cultura e a arte em um mundo polarizado e dominado pelas novas tecnologias
01 Revista: Com a globalização, imaginamos um mundo em que as culturas regionais
02 seriam soterradas por manifestações de potências como os EUA. No entanto, parece
03 haver um leve renascimento e uma diversificação da identidade cultural. As redes
04 sociais diluíram um pouco dessa influência massificadora?
05 TC: Eu chamo essas redes de antissociais, porque elas promovem a divisão, o ódio e a situação
06 do 50-50, dois grupos que se opõem frontalmente. Temos como exemplos o Brexit, os Estados
07 Unidos e o Brasil.
08 Não sei se houve uma diluição da influência da indústria cultural. Se pesquisarmos serviços de
09 streaming de vídeo, podemos encontrar uma série finlandesa, sueca ou até brasileira, mas a
10 média dos produtos é bastante codificada. Sim, é possível ter uma brecha para manifestações
11 diferentes. Isso aconteceu, por exemplo, com a E. L. James, que escreveu 50 Tons de Cinza. Ela
12 pulou as barreiras da editora, da distribuição, da livraria e da crítica e entrou no mercado. O que
13 nós ganhamos com seus livros eu não sei, mas ela ganhou muito. Não discuto que essas brechas
14 podem vir a ser usadas de maneira criativa, mas não é o que acontece no momento.
15 Todo mundo ficou muito entusiasmado com a internet pela possibilidade de transgredir as
16 barreiras e a censura dos estados, só que isso não aconteceu. Às vezes, não temos uma censura
17 política ou religiosa, mas batemos de frente com uma barreira econômica. Ainda estamos na
18 infância desse instrumento novo e sem uma noção clara de para onde vamos. Hoje é possível
19 fazer o seu filme e colocar no YouTube. É fácil. Só não sei se o saldo da iniciativa aponta para a
20 diversificação das manifestações artísticas. A globalização não conseguiu pasteurizar tudo, mas
21 também não temos a liberdade que pensamos que teríamos no início.
22 Revista: A obra de arte vai sobreviver ___ novidades tecnológicas, vai continuar
23 contundente e questionadora ou pode se tornar mais massificada e inócua?
24 TC: A questão é saber se a arte que conhecemos na modernidade da civilização ocidental, crítica
25 e questionadora, vai continuar a existir. O questionamento está sendo cerceado. Um desafio para
26 a arte, por exemplo, é o politicamente correto. Não só a censura exterior continua existindo,
27 mas há também a censura interior do artista. Aquela arte que veio ___ tona no final do século
28 XIX estava livre do Estado, da igreja, dos partidos políticos e do comprador burguês. O pintor
29 Monet, por exemplo, passou a fazer o que queria. Se alguém comprava uma obra dele, ótimo,
30 se não, tudo bem. Ele tinha condições de fazer isso, claro, mas esse tipo de arte, que tem a
31 função de fazer as pessoas pensarem, corre perigo de desaparecer.
32 Os exemplos do que é chamado de arte tecnológica hoje não vão muito além de um passatempo
33 intelectual desenraizado. Os instrumentos tecnológicos atuais não impedem que a arte continue
34 a existir. Mas os primórdios dessa arte digital ou computacional não possuem resultados nem
35 próximos de algo como um Picasso, um Monet, ou a arte dos Estados Unidos dos anos 1960, que
36 era extremamente questionadora.
37 Revista: A maneira como tomamos decisões é cultural. Escolhemos uma coisa porque
38 aprendemos que é melhor ou mais ética do que outra. Uma máquina que toma decisões
39 a partir de conceitos éticos "universais" será capaz de mudar nossa expressão
40 cultural?
41 TC: A maneira como tomamos decisões é realmente uma questão cultural, de hábito. Não
42 existem conceitos universais. E o livre arbítrio do ser humano é ilusão. Hoje, estão oferecendo
43 empregos para quem conseguir "injetar" ética em um algoritmo. O grande problema dessa
44 cultura computacional é que não existe como injetar uma ética de escolha em um algoritmo
45 simplesmente porque a humanidade não é capaz de identificar ou de concordar quanto a seus
46 valores. Não podemos esperar que a cultura computacional resolva um problema que não
47 conseguimos equacionar no nosso dia ___ dia.
48 A maneira como tomamos decisões pode mudar de acordo com nossas origens e com nossa
49 etnia, por exemplo, e uma máquina de inteligência artificial poderá modificar isso. Só que não é
50 algo que vá acontecer rapidamente. Se o mundo tiver tempo para que o processo siga seu curso,
51 e não sei se temos esse tempo pela frente, é possível que haja uma homogeneização. Neste
52 momento, porém, estamos elogiando a diversidade, que significa valores diferentes, conflitos e
53 discórdia. A pergunta é: queremos culturas homogêneas?
(Revista Época – 18/11/2019 - www.revistaepoca.com.br – adaptação.)
Quantas outras alterações deveriam, obrigatoriamente, ser feitas caso substituíssemos a palavra “arte” por sua forma plural no seguinte trecho “mas esse tipo de arte, que tem a função de fazer as pessoas pensarem, corre perigo de desaparecer”, retirado do texto?