Questão
ID 2438540Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Gradação
Ano: 2015 Banca: Colégio Militar de Fortaleza Órgão: Colégio Militar de Fortaleza
TEXTO 4
O QUASE ACIDENTE
01 ----------As duas irmãs foram olhar a situação mais de perto e, avançando alguns passos para dentro
02----da serraria, viram que a corda estava enrolada em alguma outra coisa, um volume considerável
03----junto à tora. Quando observaram com maior nitidez, espiando por trás do capataz Flacutono,
04----conseguiram distinguir que o tal volume era Charles. Ele estava amarrado à tora com tanta corda
05----que parecia um casulo extremamente apavorado. Voltas e mais voltas da corda cobriam sua boca
06----para que ele não conseguisse emitir nenhum som, mas seus olhos estavam descobertos e ele os
07----fixava com terror na serra, cada vez mais próxima.
08 ----------“É, seu porcariazinho”, dizia o capataz Flacutono, “até agora você deu sorte, evitando as
09----minhas garras de chefe, mas a canja acabou. Mais um acidente e você estará em nossas mãos; e este
10----vai ser o pior acidente da serraria. Imagine só como o Senhor vai ficar contrariado quando souber
11----que seu sócio foi retalhado em tábuas humanas. Vamos lá, seu sortudo, empurre essa tora para junto
12----da serra!”
13 ----------Violet e Sunny avançaram mais alguns passos. Chegaram tão perto que, com o braço
14----esticado, dava para tocar o capataz Flacutono – não que desejassem fazer coisa tão repulsiva, é
15----claro ─ , e então viram Klaus. Ele estava manejando os controles da máquina de serrar, descalço,
16----com seus olhos arregalados e sem expressão, fixos no capataz.
---------------[...]
17---------- “Não, Klaus!”, pediu Violet. “Não!”
18----------“Quiutu!”, gritou Sunny.
19 ----------“Suas palavras de nada adiantarão”, disse o capataz Flacutono. “Estão vendo?”
20----------Sunny viu: seu irmão caminhava descalço para a tora, como se as irmãs não lhe houvesse
21----dito nada. Mas Violet não estava prestando atenção em Klaus. Ela olhava para o capataz Flacutono
22----e pensava em tudo o que ele falara. O terrível capataz tinha razão, é claro. As palavras das duas
23----Baudelaire não hipnotizadas de nada adiantariam. No entanto, Violet sabia que algumas palavras
24----ajudariam. O livro que estava segurando lhe havia dito que existia uma palavra para impor
25----obediência a Klaus e outra palavra para tirá-lo da hipnose.
-------------[...]
26----------Ao lembrar-se de que Klaus respondera “Sim, senhor” logo antes de dormir, Violet se deu
27----conta de que devia ter usado, ela própria, a palavra de impor obediência. Acelerou o cérebro,
28----esforçando-se por lembrar a conversa.
29 ----------“Continue empurrando, seu anão sortudo”, disse o capataz Flacutono, e Violet lembrou-se na
30----mesma hora.
31---------- Sortudo.
32---------- “Sortudo!”, gritou a Baudelaire mais velha. “Empurre a tora para longe da serra, Klaus!”
33---------- “Sim, senhor”, disse Klaus de modo sereno.
34---------- “Sortudo!”, rosnou o capataz. “Empurre a tora de volta para a serra!”
35---------- “Sortudo!”, gritou Violet. “Afaste a tora!”
36---------- “SORTUDO!”, berrou outra voz do vão da porta, “Não dê ouvidos a suas irmãs”. Todos se
37----viraram para ver a Dra. Orwell, que surgira na entrada acompanhada de Shirley, à espreita por trás
38----da hipnotizadora.
--------------[...]
39 ----------Violet olhou para o irmão, em seguida para a Dra. Orwell, e num desabafo de suas frustradas
40----intenções atirou ao chão o pesado livro. Ela precisava agora, e desesperadamente, da palavra capaz
41----de anular a hipnose de seu irmão, mas não tinha a menor ideia de qual poderia ser. [...] Depois de
42----tantas vezes terem escapado por um triz das perfídias do Conde Olaf, aquele parecia ser o momento
43----do terrível triunfo dele (ou, no caso, dela). De todas as situações em que ela e seus irmãos se viram
44----envolvidos, aquela parecia ser a mais desgraçadamente irregular, pensou Violet. Era a mais
45----desgraçadamente desproporcional. A mais desgraçadamente extravagante. A mais desgraçadamente
46----excessiva. E, ao pensar em todas essas palavras, ocorreu-lhe aquela que tiraria Klaus da hipnose,
47----aquela que simplesmente poderia salvar a vida de todos eles.
48 ----------“Exorbitante!”, gritou, o mais alto que pôde, a fim de que o som da palavra se sobrepusesse
49----à barulheira terrível produzida pela serra.
50 ----Klaus piscou, e em seguida olhou em toda a sua volta como se alguém tivesse acabado de
51----lançá-lo no meio da serraria. “Onde estou?”, perguntou.
(SNICKET, Lemony. Serraria Baixo-Astral. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, págs. 139/148. Texto adaptado. )
No trecho: “Era a mais desgraçadamente desproporcional. A mais desgraçadamente extravagante. A mais desgraçadamente excessiva.” (L. 44/46), a repetição do termo destacado é utilizada para: