Questão
ID 2438221Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Texto Literário
Ano: 2019 Banca: Colégio Militar de Campo Grande Órgão: Colégio Militar de Campo Grande
Leia o texto III para responder aos itens 06, 07, 08, 09, 10 e 11.
TEXTO III
BRINQUEDOS INCENDIADOS
Uma noite houve um incêndio em um bazar. E, no fogo total, desapareceram consumidos os
seus brinquedos. Nós, crianças, conhecíamos aqueles brinquedos um por um, de tanto 1mirá-los nos
2mostruários — uns, 3pendentes de longos barbantes; outros, apenas entrevistos em suas caixas.
Ah! Maravilhosas bonecas louras, de chapéus de seda! Pianos cujos sons cheiravam a metal e
5 verniz! Carneirinhos 4lanudos, de 5guizo ao pescoço! Piões zumbidores! — e uns bondes com
algumas letras escritas ao contrário, coisa que muito nos seduzia [...].
Às vezes, em um aniversário, ou pelo Natal, conseguíamos receber de presente alguns
bonequinhos 6de celulóide, modestos cavalinhos de lata, bolas de gude, barquinhos sem
possibilidade de navegação... — pois aquelas admiráveis bonecas de seda e 7filó, aqueles batalhões
10 completos de soldados de chumbo, aquelas casas de madeira com portas e janelas, isso não
chegávamos a imaginar sequer para onde iria. Amávamos os brinquedos sem esperança nem
inveja, sabendo que jamais chegariam às nossas mãos, possuindo-os apenas em sonho, como se
para isso, apenas, tivessem sido feitos.
Assim, o bando que passava, de casa para a escola e da escola para casa, parava longo
15 tempo a contemplar aqueles brinquedos e lia aqueles nítidos preços, com seus cifrões e zeros, sem
muita noção do valor — porque nós, crianças, de bolsos vazios, como namorados antigos, éramos
só renúncia e amor. Bastava-nos levar na memória aquelas imagens e deixar 8cravadas nelas, como
setas, os nossos olhos.
Ora, uma noite, correu a notícia de que o bazar incendiara. E foi uma espécie de festa
20 fantástica. O fogo ia muito alto, o céu ficava todo 9rubro, voavam 10chispas e labaredas pelo bairro
todo. As crianças queriam ver o incêndio de perto, não se contentavam com portas e janelas,
fugiam para a rua, onde brilhavam bombeiros entre 11jorros d'água. A elas não interessava nada,
peças de pano, cetins, 12cretones, cobertores, que os adultos lamentavam. Sofriam pelos cavalinhos
e pelas bonecas, os trens e os palhaços, fechados, sufocados em suas grandes caixas. Brinquedos
25 que jamais teriam possuído, sonhos apenas da infância, amor 13platônico.
O incêndio, porém, levou tudo. O bazar ficou sendo um 14fumoso galpão de cinzas.
Felizmente, ninguém tinha morrido — diziam em redor. Como não tinha morrido ninguém?,
pensavam as crianças. Tinha morrido o mundo e, dentro dele, os olhos amorosos das crianças, ali
deixados.
30 E começávamos a 15pressentir que viríam outros incêndios. Em outras idades. De outros
brinquedos. Até que um dia também desaparecéssemos sem socorro, nós brinquedos que somos,
talvez de anjos distantes!
(MEIRELES, Cecília. Janela mágica. 3a edição. São Paulo: Moderna. 2003. Adaptado.)
GLOSSÁRIO
1mirá-los: observá-los.
2mostruários: vitrines.
3pendentes: pendurados.
4lanudos: cobertos de lã.
5guizo: pequena esfera de metal com bolinhas em seu interior que, quando sacudida, produz um som.
6de celulóide: de plástico.
7filó: tecido fino e transparente, em forma de rede.
8cravadas: fixas.
9rubro: de cor vermelha.
10chispas: partículas de fogo.
11jorros: jatos fortes.
12 cretones: tipos de tecidos.
13platônico: diz-se do que tem um caráter ideal; sem interesses materiais.
14fumoso: fumacento.
15pressentir: suspeitar.
A expressão destacada no trecho "Ah! Maravilhosas bonecas louras, de chapéus de seda! Pianos cujos sons cheiravam a metal e verniz! Carneirinhos lanudos, de guizo ao pescoço! Piões zumbidores! [...](linhas 4 e 5) indica