Questão 2438216

Língua Portuguesa · 2019

Questão

ID 2438216

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Inferência Textual

Ano: 2019 Banca: Colégio Militar de Campo Grande Órgão: Colégio Militar de Campo Grande


Leia o texto III para responder aos itens 06, 07, 08, 09, 10 e 11.

TEXTO III

BRINQUEDOS INCENDIADOS

Uma noite houve um incêndio em um bazar. E, no fogo total, desapareceram consumidos os

seus brinquedos. Nós, crianças, conhecíamos aqueles brinquedos um por um, de tanto 1mirá-los nos

2mostruários — uns, 3pendentes de longos barbantes; outros, apenas entrevistos em suas caixas.

Ah! Maravilhosas bonecas louras, de chapéus de seda! Pianos cujos sons cheiravam a metal e

5 verniz! Carneirinhos 4lanudos, de 5guizo ao pescoço! Piões zumbidores! — e uns bondes com

algumas letras escritas ao contrário, coisa que muito nos seduzia [...].

Às vezes, em um aniversário, ou pelo Natal, conseguíamos receber de presente alguns

bonequinhos 6de celulóide, modestos cavalinhos de lata, bolas de gude, barquinhos sem

possibilidade de navegação... — pois aquelas admiráveis bonecas de seda e 7filó, aqueles batalhões

10 completos de soldados de chumbo, aquelas casas de madeira com portas e janelas, isso não

chegávamos a imaginar sequer para onde iria. Amávamos os brinquedos sem esperança nem

inveja, sabendo que jamais chegariam às nossas mãos, possuindo-os apenas em sonho, como se

para isso, apenas, tivessem sido feitos.

Assim, o bando que passava, de casa para a escola e da escola para casa, parava longo

15 tempo a contemplar aqueles brinquedos e lia aqueles nítidos preços, com seus cifrões e zeros, sem

muita noção do valor — porque nós, crianças, de bolsos vazios, como namorados antigos, éramos

só renúncia e amor. Bastava-nos levar na memória aquelas imagens e deixar 8cravadas nelas, como

setas, os nossos olhos.

Ora, uma noite, correu a notícia de que o bazar incendiara. E foi uma espécie de festa

20 fantástica. O fogo ia muito alto, o céu ficava todo 9rubro, voavam 10chispas e labaredas pelo bairro

todo. As crianças queriam ver o incêndio de perto, não se contentavam com portas e janelas,

fugiam para a rua, onde brilhavam bombeiros entre 11jorros d'água. A elas não interessava nada,

peças de pano, cetins, 12cretones, cobertores, que os adultos lamentavam. Sofriam pelos cavalinhos

e pelas bonecas, os trens e os palhaços, fechados, sufocados em suas grandes caixas. Brinquedos

25 que jamais teriam possuído, sonhos apenas da infância, amor 13platônico.

O incêndio, porém, levou tudo. O bazar ficou sendo um 14fumoso galpão de cinzas.

Felizmente, ninguém tinha morrido — diziam em redor. Como não tinha morrido ninguém?,

pensavam as crianças. Tinha morrido o mundo e, dentro dele, os olhos amorosos das crianças, ali

deixados.

30 E começávamos a 15pressentir que viríam outros incêndios. Em outras idades. De outros

brinquedos. Até que um dia também desaparecéssemos sem socorro, nós brinquedos que somos,

talvez de anjos distantes!

(MEIRELES, Cecília. Janela mágica. 3a edição. São Paulo: Moderna. 2003. Adaptado.)

GLOSSÁRIO

1mirá-los: observá-los.

2mostruários: vitrines.

3pendentes: pendurados.

4lanudos: cobertos de lã.

5guizo: pequena esfera de metal com bolinhas em seu interior que, quando sacudida, produz um som.

6de celulóide: de plástico.

7filó: tecido fino e transparente, em forma de rede.

8cravadas: fixas.

9rubro: de cor vermelha.

10chispas: partículas de fogo.

11jorros: jatos fortes.

12 cretones: tipos de tecidos.

13platônico: diz-se do que tem um caráter ideal; sem interesses materiais.

14fumoso: fumacento.

15pressentir: suspeitar.



Considerando o contexto do texto III, o vocábulo destacado no trecho "E foi uma espécie de festa fantástica." (linhas 19 e 20) traduz a ideia de que o incêndio no bazar

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