Questão 2438155

Língua Portuguesa · 2016

Questão

ID 2438155

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Inferência Textual

Ano: 2016 Banca: Colégio Militar de Campo Grande Órgão: Colégio Militar de Campo Grande


Leia atentamente o Texto II a seguir e responda aos itens 05 a 12.

TEXTO II

A perna do seu Duílio

Era domingo e eu estava extremamente emburrado. Vinha esperando a semana inteira

pelo especial de um ano do Bambalalão, com novos quadros, convidados especiais e

um minibugue camuflado para o grande vencedor da gincana; aí, quando já tinha até

5 arrumado meu canto do sofá, posicionado as almofadas preferidas, pegado a mantinha de lã e

estava indo preparar a xícara com Leite Moça e Nescau, minha mãe chega penteando o cabelo e diz

que vamos sair: é aniversário do seu Duílio.

E por acaso eu conhecia algum Duílio?! Ela explicou tratar-se do pai do marido da minha

tia, e que naquele dia ele faria aniversário. Eu expliquei que Bambalalão era meu programa

10 predileto e que naquele dia ele também faria aniversário. Minha mãe sentou-se ao meu lado e deu

início à inútil tática de despertar meu interesse, a mesma que usava para me convencer a comer

coisas verdes e pastosas ou tomar xarope para tosse: “Olha que legal, o seu Duílio vai fazer oitenta

anos! Sabe quanto é oitenta? Todos os dedos das duas mãos abertas uma, duas, três, quatro,

cinco, seis, sete, oito vezes!”.

15 O abrir e fechar de dedos podia servir para me fazer um cafuné, se ela quisesse, ou

preparar massa de biscoito, mas não ajudaria em nada a me convencer de que conhecer uma

pessoa muito velha fosse mais interessante do que assistir à corrida de saco na piscina de bolinhas,

o pega-pega de olhos vendados ou ver o vencedor recebendo o minibugue de pintura camuflada,

que eu vinha cobiçando a semana inteira diante da TV.

20 Reagi, como sempre fazia naquelas ocasiões. Olhei por cima do seu ombro, mudei de canal

com o controle remoto. Minha mãe tentou fisgar meu interesse de outra forma: disse que lá ia

estar cheio de crianças da minha idade.

Chorei, esperneei, bufei, enfiei a cabeça debaixo da manta e me fechei num casulo de lã.

Minha mãe abandonou a sedução e resolveu me pegar pela culpa. Explicou que o seu Duílio tinha

25 me visto nascer, tinha me pegado no colo, pequenininho. Grande coisa, eu não me lembrava de ter

nascido, não havia pedido que ele me pegasse no colo, problema dele. Minha mãe tentou me

descobrir, eu esperneei mais ainda, comecei a atirar as almofadas no chão, gritei “Não vou! Não

vou! Não vou!”, até que ela abandonou todas as técnicas de convencimento e ordenou: “Menino,

engole esse choro, você vai e pronto!”.

30 Fui no banco de trás do carro, encolhido e de olhos fechados, torcendo para que ela se

virasse, me visse e pensasse, “Caramba, acho que dessa vez a gente exagerou, o Antônio tá

sofrendo de verdade, melhor voltar e deixá-lo assistir ao programa dele”. Mas nos breves

momentos em que abri os olhos para conferir, ela não estava prestando atenção. Estava, na

verdade, concentrada numa conversa com meu padrasto: “Melhor não”, ela dizia, “Se a gente

35 avisa, desperta o interesse. Deixa acontecer naturalmente”, “É, pode ser, bom, de qualquer forma

o seu Duílio deve saber como lidar com essas coisas, não é de hoje, né…”. Não entendi o que eles

diziam nem me interessei, só pensava que, no dia seguinte, na escola, todo mundo ia estar falando

sobre a corrida de saco na piscina de bolinhas, ia comentar sobre a criança que ganhou o

minibugue e se ela mereceu mais que a outra, e eu não poderia opinar, porque estava na festa de

40 um homem cuja maior qualidade era ter tantos anos quanto todos os dedos das duas mãos abertas

oito vezes. Que emoção.

Chegamos. Era aquela coisa de sempre: um monte de parentes e outros adultos mexendo

no meu cabelo, na minha bochecha e na minha barriga, dizendo que eu estava grande e bonito.

O seu Duílio estava sentado numa poltrona, num dos cantos da sala. Tinha os cabelos todos

45 brancos. Minha mãe o beijou, dizendo: “Parabéns, seu Duílio!” Depois, meu padrasto apertou sua

mão e falou: “Oitenta, hein, seu Duílio! Daqui a pouco é noventa, já!”

O velho ficou falando umas coisas sobre fazer oitenta anos, eu fiquei olhando pra ele,

fingindo que ouvia, mas a minha cabeça estava longe, lá na sala de casa, imaginando assistir ao

Bambalalão, e provavelmente por lá ficaria até o final daquela tarde se meus olhos não tivessem,

50 acidentalmente, ido parar na perna esquerda do aniversariante — ou melhor, num pedaço da

poltrona onde deveria estar sua perna esquerda. Olhei uma vez, olhei duas, olhei três. Longos

segundos se passaram até que eu pudesse aceitar o que via: a perna esquerda do seu Duílio não

existia!

Que coisa espetacular! Se a minha mãe tivesse perguntado: “O que você prefere, assistir a

Bambalalão ou conhecer um homem sem perna?”, claro que eu ficaria com a segunda alternativa.

Lembrei-me do homem que eu tinha visto no circo, um dia, botando uma mulher de maiô numa

caixa e a serrando ao meio. Seria seu Duílio aquele homem? Teria ele cortado a própria perna?

Como? Será que ele conseguia tirar e recolocar a perna sempre que quisesse? Onde guardava a

perna, quando não a usava? Numa gaveta do quarto, no banheiro, na área de serviço, junto à

60 bicicleta? Conseguiria ele remover também outros membros?

Minha mãe me cutucou: “Ô, Antônio, não vai dar oi pro seu Duílio?”. Como não? “Oi, seu

Duílio! Cadê sua perna?!” Minha mãe me olhou com uma cara estranha. Achei que ela não tivesse

ouvido o que eu acabara de dizer. Falei ainda mais alto: “Olha! Olha! Ele só tem uma perna! Mãe!

Mãe! Cadê a perna do seu Duílio?”. Todos na sala fizeram silêncio.

65 Ninguém mais se empolgava com aquela situação? Será que não haviam percebido? Seria o

primeiro dia em que o seu Duílio saía sem a perna? Uma surpresa que preparou para a festa de

oitenta anos, uma mágica, e eu havia sido o único a notar?

O silêncio foi quebrado pelo próprio Duílio. Ele me fez sentar no braço da poltrona e me

contou a história inteira, respondendo a todas as perguntas que eu fazia. Explicou que a perna fora

70 cortada por causa de uma doença, mas que eu não deveria me preocupar, era uma doença que só

dava em velhos. A operação aconteceu num hospital. Não, ele não precisou ir de bermuda, porque

no hospital dão uma camisola. Sim, uma camisola, mesmo para os homens. Depois de vesti-la,

médicos deram-lhe uma injeção no braço e ele dormiu, de um jeito que você não sente dor e não

acorda nem se pularem na sua barriga. Aí é que vem a parte mais estranha: depois de tirarem a

75 perna, não fizeram um curativo enorme, nem vários, nem puseram esparadrapo, não: eles o

costuraram, com agulha e linha, da mesma forma que minha mãe costurava pedaços redondos de

couro nos joelhos dos meus moletons. A cor da linha era preta, e seu Duílio não soube dizer se

poderia ser azul, verde ou vermelha, caso ele assim preferisse.

Queria passar a tarde inteira ali, sentado no braço da poltrona, seguindo com a entrevista,

80 mas minha mãe logo me pôs no chão e me mandou para o quintal, onde estavam as outras

crianças.

No dia seguinte, na escola, mal se falou sobre o Bambalalão: só queriam saber da minha

história com o homem de perna cortada. O único que não se interessou foi o Válter, do pré: nem

ligou e disse que ter a perna cortada não era nada de mais; toda noite, antes de dormir, a avó dele

85 tirava os dentes e as gengivas e punha dentro de um copo d’água. Claro, ninguém acreditou e ficou

evidente que o Válter só queria roubar a atenção.

(PRATA, Antonio. In: Folha de S. Paulo. Caderno Ilustrada, 02 abr. 2016, p. E2.)



No trecho “Comecei a atirar as almofadas no chão, gritei: ‘Não vou! Não vou! Não vou! ’” (linhas 27 e 28), a repetição da frase transmite um efeito de:

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